Diário de hoje:
Não sei bem por onde começar Acho que nunca vou esquecer este momento caricato. Hoje levei a minha namorada, Filipa, lá a casa para conhecer a minha mãe. Antes já sentia aquele nervoso miudinho, mesmo tentando disfarçar. Mãe, esta é a minha namorada, Filipa tentei dizer de modo casual, mas tenho a certeza de que a minha voz traiu o meu nervosismo. E nós queríamos bom aquilo, comecei, mas acabei por me atrapalhar enquanto tentava parecer mais à vontade.
A minha mãe, sempre com o olhar atento, continuou a fitar a Filipa por uns segundos. Já sei o que tu queres há muito tempo, disse ela, numa de não perder a dianteira. Agora, será que a Filipa quer o mesmo? Filipa, conheces bem o meu filho?
Se o conheço? respondeu logo a Filipa, sem se atrapalhar Conheço-o de trás para a frente, como a palma da minha mão.
A minha mãe ficou perplexa com a expressão e até mudou o tom da conversa para algo mais formal. Perdão? Mas as raparigas dizem essas coisas?
Por que não? respondeu Filipa descontraída. Em português também dizemos que conhecemos alguém de ginjeira! E, aliás, mais vale falarmos de nós as duas. Pode ser que não nos demos tão bem, não é?
Não estou a perceber balbuciou a minha mãe.
Digo isto porque, um dia destes, ainda vamos estar nós as duas à espera do Vasco nas noites de farra. E a ouvir-lhe o ressonar etílico também
Mas porque é que eu hei de estar na mesma situação? perguntou a minha mãe, já um pouco sem saber para onde se virar. Vão dormir em divisões diferentes imagino eu
Mas a senhora vai andar sempre preocupada à porta. Toda a mãe faz isso, não é?
Bem estou a perceber já no que é que isto vai dar. Fiquei a olhar para a conversa, sem saber bem se valia a pena abrir a boca.
Chiu! disseram as duas quase ao mesmo tempo.
Mas então, dona Teresa, diga-me só uma coisa: a senhora também já teve vontade de dar uma palmada ao seu marido? Ou ao Vasco, quando era miúdo?
Palmadas? Mas o que é isso, agora? Então as mulheres batem assim? fez a minha mãe olhos de espanto.
Oh, por amor de Deus, claro que acontece! retorquiu a Filipa com uma gargalhada. Há por aí senhoras que dão cabo do juízo aos maridos. Nem queira saber!
A minha mãe só abanava a cabeça e ria-se, cobrindo a cara com as mãos. Que maneiras de falar Que histórias estas
Diga lá a verdade. Nunca lhe apeteceu dar uma chapada ao Vasco, quando ele se armava em esperto?
Não, nem pensar! respondeu a minha mãe, um pouco compenetrada.
Tentei intervir de novo, mas recebi, como da primeira vez:
Fica calado, Vasco!, disseram as duas.
Olhe que pena devia ter-lhe ensinado umas lições à moda antiga disse a Filipa, com uma piscadela de olho. E ainda me passou a mão pelo rabo, num tom bem-disposto: Este rapaz anda sempre à procura de sarilhos. Não era caso para ter tido menos mão nele!
Rimos todos e, talvez para desfazer o constrangimento, ela ainda sugeriu, animada: Olhe, dona Teresa, tomamos um cházinho? Trouxe bolo parece-me bem uma conversa de mulheres à volta da mesa!
Mais tarde, quando o meu pai chegou do trabalho, mal entrou em casa, a minha mãe fez questão de anunciar, perante todos:
Ó Luís! O nosso Vasco vai, finalmente, casar-se!
Caramba, a sério? exclamou o meu pai com entusiasmo.
Fiquei atrapalhado e tentei acalmar a animação:
Calma, ainda estou só a pensar
Não, filho, disse a minha mãe, com aquele tom que não dá hipótese. Desta vez casas mesmo. E se mudares de ideias, fico eu com a Filipa como filha!
Ó mãe, vá lá, ela tem pais! respondi-lhe a rir-me.
Pois, pronto então devolvo-te à maternidade e digo que me trocaram o filho!
Se for preciso, assino por baixo, gracejou o meu pai, levantando o punho numa ameaça fingida.
Bem, que tarde! Se não é típico de uma família portuguesa, não sei o que será.






