Alexandre Bedanho cresceu sem pai. Na verdade, ele tinha pai, mas quando Alexandre fez 4 anos, o seu pai faleceu.

Cresci sem pai. Ou melhor, tive um pai, mas quando fiz quatro anos, ele faleceu. O meu pai, Eduardo Teixeira, servia nos Bombeiros de Lisboa. Morreu enquanto retirava destroços depois de um sismo no sul de Marrocos. Com ele, morreu também o Zulu, um pastor-alemão que o meu pai criara desde cachorro.

A minha mãe, Graça, ficou viúva cedo e nunca mais voltou a casar, criando-me sozinha.

Aos catorze anos, inscrevi-me numa secção juvenil de cinofilia no Clube de Canicultura de Lisboa. A minha mãe aprovou a decisão, mas via-se no olhar dela aquele receio antigo de que eu viesse a seguir os mesmos passos do meu pai e atasse a vida a uma profissão arriscada. Aos dezasseis, trouxe para casa um cachorro de pastor-alemão e demorei a decidir-lhe o nome.

Num dia, regressei da escola e ouvi a minha mãe a ralhar com o pequeno traquina:
Ai, meu traquineco, já fizeste das tuas outra vez, és um danado!

Sorri. Quando era miúdo e aparecia todo enlameado ou com as calças gastas, ela suspirava e dizia-me o mesmo. Entrei e, a rir, declarei:
Pronto, já tem nome. Vai chamar-se Traquinas.

Em dois anos, o Traquinas tornou-se num cão magnificente: robusto, disciplinado e dedicado ao serviço. Sentia orgulho em ambos, no meu trabalho e nas capacidades do cão.

Chegou a altura de ir à tropa. Pedi ao centro de recrutamento para servir com o meu cão, proposta invulgar mas permitida em casos especiais. Sem que a minha mãe soubesse, preparava o Traquinas para essa vida, esperando ser aprovado nos exames do exército. Tivemos formação em Santarém, três meses de testes e avaliações.

Depois, fomos destacados para a fronteira com Espanha, numa unidade especial. No posto, todos nos receberam como Traquinas e Seu Dono. Quando saíamos de patrulha, diziam:
Lá vão o Traquinas e o Teixeira à aventura!

A vida militar avançava normalmente até uma patrulha noturna, quando tivemos um confronto com contrabandistas. Houve tiros. Um companheiro meu ficou ferido, outro morreu e eu desapareci. O Traquinas foi atingido também. A unidade procurou-me dias a fio. Durante um mês, oficiais dos dois países perseguiram pistas, mas sem sucesso.

A má notícia foi dada à minha mãe por um capitão, que trouxe o Traquinas já recomposto, embora coxo da pata dianteira. Ela chorou baixinho enquanto lhe afagava a cabeça. O capitão falou de esperança, de milagres e buscas contínuas, mas a minha mãe apenas olhava o cão e murmurava:
Ai, meu traquineco

A partir desse dia, todas as manhãs e ao fim da tarde, viam-se no Jardim da Estrela duas figuras: uma mulher de meia-idade e uma pastor-alemão mancando, avançando devagar pelas alamedas. Havia nelas uma paz e dignidade tais que muitos viravam a cabeça para olhar de novo. Nunca pareciam dona e cão eram simplesmente companheiros, partilhando segredos profundos.

A minha mãe dava ordens em voz sussurrada, conversava longamente e o cão escutava atento, sem pressas nem ruídos.
Traquinas, hoje fazemos empadas de cogumelos e couve. O fermento já está ali a levedar. Amanhã é feriado, vamos até ao rio, brincas um bocadinho na água.

Passou-se um ano. Bateram-lhe à porta outros oficiais. Trouxeram-lhe mantimentos e ração. Disseram que, se não aparecesse notícia de mim num ano, poderia ser declarado falecido. Ela ouviu sem lágrimas, agradeceu tranquilidade e fechou-lhes a porta com um sorriso estranho.

Não lhe ligues, Traquinas. O meu Eduardo está vivo, eu sinto-o.

Numa tarde, apareceu lá em casa um jovem desconhecido. O Traquinas abanou a cauda ao invés de rosnar.

Boa tarde, Dona Graça. Sou Tiago Pires, servi ao lado do seu filho. Olá, Traquinas, já me reconheces, não é? disse, rindo para o cão.

Ficaram a conversar tarde adentro: o Tiago contou tudo sobre o serviço militar, a minha mãe ofereceu-lhe chá e bolachas de canela, mostrou fotos antigas, soltaram gargalhadas com histórias da minha infância.

Do nada, Tiago ficou sério parecia hesitante, quase envergonhado:
Dona Graça, não pense que fiquei maluco sussurrou.
Diz, Tiaguinho?

O Eduardo pediu-me para dar-lhe um recado: que ele vai regressar.

Ela caiu em prantos, tapando a boca, enquanto Traquinas largava a mantinha e se chegava a Tiago, tocando-lhe no joelho com o focinho e soltando um latido breve.

Não se aflija, D. Graça. Não, não o vi, não sei onde está Mas sonhei com ele há duas semanas. E pediu-me que viesse dizer-lhe estas palavras.

A minha mãe deixou correr as lágrimas, já sem vergonha da presença do visitante. Traquinas lambia-lhe a mão, enquanto Tiago ficou sentado, quieto, respeitando a felicidade silenciosa daqueles dois seres irmanados pela saudade. Ele sabia que um sonho não é certeza de milagre, mas não vir nunca visitar a mãe do amigo seria impossível.

Mais um ano passou. De novo, a dupla passeava pelos caminhos enfeitados de folhas douradas do outono lisboeta. Pouco ligavam ao mundo, conversando baixinho, partilhando lembranças.

Num daqueles fins de tarde, o sol filtrava-se entre as árvores do parque, golpeando os rostos dos transeuntes num mar de claridade. Ao fundo do passeio, aproximava-se a silhueta de um homem alto, caminhando com uma ligeira mancar. O Traquinas estacou, tenso, ganindo baixo depois disparou, esquecendo a pata dorida. A minha mãe largou a trela, ficou com os braços caídos, as lágrimas a escorrerem pelo rosto.

Lá ao longe, numa nesga de sol, abraçavam-se finalmente o Traquinas e o seu dono.

Aprendi, ao longo destes anos, que o amor de uma mãe e a lealdade de um cão conseguem esperar uma vida inteira porque, por vezes, a esperança é tudo o que temos e, ainda assim, é suficiente.

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Alexandre Bedanho cresceu sem pai. Na verdade, ele tinha pai, mas quando Alexandre fez 4 anos, o seu pai faleceu.
Все пак баба си беше права