Depois que o meu novo marido veio morar connosco, o meu filho de 15 anos fechou-se no seu mundo, deixou até de se sentar connosco à mesa e, certo dia, disse inesperadamente:

Depois que o meu novo companheiro se mudou para cá, a minha filha de 15 anos, Matilde, fechou-se no seu mundo. Parou até de se sentar connosco à mesa e, um dia, disse de repente: «Mãe, tenho medo dele. Não consigo viver com ele nesta casa, porque ele»

O Rui ficou cá pela primeira vez numa sexta-feira. Acordei com o aroma do café. Na cozinha, estava ele, calmamente, a fritar ovos como se sempre tivesse feito parte da família. Sorria, deu-me um beijo na face e explicou que tinha o hábito de se levantar cedo. Parecia tudo normal.

A Matilde saiu do quarto minutos depois. Viu o Rui, acenou com a cabeça, serviu-se de um copo de sumo e bebeu-o de pé, junto à janela. Não se sentou à mesa. Achei que era apenas uma daquelas birras típicas da adolescência. Aos quinze anos, ninguém espera que esteja de bom humor logo pela manhã.

Tenho quarenta e quatro anos, estou divorciada faz tempo e trabalho como contabilista numa empresa em Lisboa. O Rui tem quarenta e nove, é professor, também divorciado. Conhecemo-nos através de amigos em comum, trocámos mensagens durante meses, depois começámos a sair. Ele sempre foi discreto, sem vícios, alguém em quem se pode confiar. Após oito anos sozinha, ao lado dele senti-me, finalmente, não só mãe, mas também mulher.

Durante os primeiros meses, ele só vinha cá quando a Matilde não estava em casa. Mais tarde, achei que não havia razão para continuar a esconder. A minha filha já é crescida, tinha de compreender que a mãe também tem direito à sua vida pessoal. Apresentei-os. Foi tudo cordial, sem discussões. Julguei que estava tudo bem.

Mas, aos poucos, notei pequenas coisas nas quais me recusei a ver ligação entre si.

A Matilde deixou de tomar o pequeno-almoço se o Rui tivesse dormido cá. Dizia sempre que não tinha fome. Passou a ficar mais tempo no ballet e aos fins de semana, quase sempre ia para casa da avó. Até achava bom que estivesse ocupada e se desse com a família. Nunca considerei possível que fosse por outro motivo.

Depois de quatro meses, o Rui começou a ficar cá mais regularmente. Já estava a habituar-me à ideia de que ele poderia mudar-se de vez para a nossa casa. Uma noite, ficou a meio da semana. De manhã, a Matilde entrou na cozinha, viu o Rui e ficou estática à porta. Depois, virou costas e voltou para o quarto.

Fui atrás dela. Estava sentada na cama, olhar perdido no vazio.

Perguntei-lhe o que se passava. Ela respondeu baixinho:

Mãe, tenho medo dele. Não quero viver com ele na mesma casa.

Senti o coração apertar-se. Perguntei-lhe o que aconteceu e porquê dizia aquilo.

Ela ergueu os olhos e disse:

Depois que o meu novo companheiro veio morar connosco, a minha filha de 15 anos fechou-se, recusando até sentar-se à mesa em família. Um dia, desabafou: «Mãe, tenho medo dele. Não consigo viver com ele nesta casa, porque ele»

Mãe, escolhe. Ou ele, ou eu.

O que descobri sobre o Rui apanhou-me totalmente desprevenida. Nessa mesma noite, pedi-lhe que saísse de casa.

Percebi então que, durante todo este tempo, só olhara para o meu próprio bem-estar sem notar a angústia da minha filha.

Ele disse que vai mudar-se para cá de vez em breve sussurrou ela.

E então? tentei manter a calma.

E que depois teremos de pôr a casa «em ordem». Mesmo em ordem.

Não percebi logo o que queria dizer com aquilo.

Depois que o Rui se instalou aqui, a Matilde continuou cada vez mais reservada. Um dia desabafou:

Que ordem?

Uma onde eu não incomode forçou um sorriso triste. Disse que numa casa deve haver apenas um homem. E que tudo em breve mudaria.

Por dentro, congelei.

Ele disse isso assim?

Disse: «Tens de te habituar. Eu e a tua mãe vamos construir uma família. E tu já és crescida». E mais a Matilde hesitou.

O quê?

Que talvez fosse melhor eu viver com a avó se não estivesse satisfeita.

Nessa noite, esperei o Rui regressar.

Disseste à minha filha que ela tinha de se habituar? perguntei frontalmente.

Ele suspirou.

Apenas deixei claro onde estavam os limites. Se eu vier para cá de vez, tudo tem de ser feito como deve ser. Quero uma família normal.

E a minha filha é o quê para ti?

Ela já é quase adulta. Mais cedo ou mais tarde, vai seguir o seu caminho. Também temos de pensar no futuro. Em ter um filho nosso, talvez.

Olhei-o e reparei que dizia tudo aquilo com serenidade, sem qualquer mágoa. Era mesmo aquilo que sentia.

Então, estás a pedir-me que escolha?

Encolheu os ombros:

Só quero que decidas o que realmente pretendes.

Nessa noite quase não dormi. De manhã, fui ao quarto da Matilde e sentei-me junto dela.

A escolha está feita disse-lhe eu. Nunca serás dispensada da tua casa.

Nessa mesma tarde, o Rui fez as malas e saiu.

Hoje, ao recordar tudo isto, aprendi que ser mãe é mais do que procurar a própria felicidade; é sobretudo saber cuidar e proteger. Apercebi-me de que, antes do resto, a minha filha estará sempre em primeiro lugar.

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