«Vou ter com a minha jovem», declarou o avô de 65 anos enquanto fazia as malas; uma hora depois, voltou em lágrimas.

«Vou embora para a moça!» declarou o António Manuel, com sessenta e cinco anos feitos, enquanto tentava enfiar um cobertor de lã às riscas na mala, claramente resistente à viagem.

Era como se anunciasse uma aventura por mares nunca antes navegados, ou a descoberta de um novo continente. Falou em voz alta, vibrante, esperando que suas palavras caíssem como uma bomba.

Mas a bomba nem sequer fez faísca.

A dona Rosa Maria, sua mulher, passava a ferro a camisa de domingo do António, tranquila, indiferente à inquietação do marido. O ferrosinho chiava entre vaporadas, rompendo a paz do apartamento na Amadora.

Ouvi, António respondeu sem levantar os olhos. Levaste as cuecas quentinhas? Estamos em novembro, não te esqueças que a tua moça não te vai curar os rins.

António Manuel ficou paralisado, com a mão suspensa no ar a segurar uma meia de lã. Esperava zonas de tragédia: pratos partidos, um ataque de nervos, um apelo dramático para que ficasse, ou ameaças de chamar os filhos.

Mas não esta pergunta mundana acerca da roupa interior.

Que têm as cuecas, Rosa?! barafustou, sentindo o rubor subir-lhe ao rosto. Estou a falar-te de amor, de recomeço, de renascimento!

Finalmente conseguiu meter o cobertor na mala, forçando-a a fechar com todo o peso do corpo. A mala rangeu, parecida aos joelhos do António, mas lá fechou.

Só me falas das cuecas! És tão terra-a-terra, tão aborrecida! bufou. E lá, fora, está o voo! A energia!

E essa energia, tem nome? Ela pendurou calmamente a camisa no cabide e passou-lha para a mão. Ou é só Amorzinho nos contactos?

Chama-se Mafalda! endireitou-se, orgulhoso, recebendo a camisa. E não é só mulher. É musa.

Rosa sorriu com os lábios cerrados, conhecendo bem o único tipo de poesia que António apreciava: brindes nos aniversários dos amigos.

Mafalda Muito lindo. E que idade tem a tua musa?

Vinte e oito! disparou o António, desafiando a esposa.

Ela colocou o ferro de lado e olhou demoradamente para ele. Como quem encara um armário velho, mas querido, que acabou de perder a porta.

António disse meigamente, mas com aço na voz. Tens sessenta e cinco anos. Ficas com a coluna feita num oito quando passas tempo na casa-de-banho, e já não comes feijoada por causa do fígado.

Suspirou e acrescentou:

Que vais tu fazer com uma Mafalda de vinte e poucos anos? Ler-lhe poemas?

Não é da tua conta! grunhiu ele, agarrado à mala. Vamos viajar! Passear à luz da lua! Aproveitar a vida! Ainda tenho muito para dar!

Tentou arrancar a mala do chão, mas o peso traiu-o, sentiu uma fisgada nas costas, mas manteve-se firme e digno.

Não podia mostrar fraqueza àquela que já era quase a ex-mulher.

Não te esqueças dos comprimidos para o coração, Romeu disse Rosa casualmente, voltando ao ferro. Estão na gaveta de cima. E o creme para as articulações.

Já não preciso disso! mentiu, apesar de o coração lhe bater forte. Com ela sinto-me com trinta anos! Pronto, Rosa. Adeus. Fico-te com a casa, deixa cá ser nobre.

Obrigada pelo favor, António acenou. Deixa as chaves na mesa e leva o lixo, já agora, que vais de passagem.

Isso acabou com ele. Nada de drama, nada de conversas enroladas. Apenas um leva o lixo.

Pegou no saco junto à porta, cabeça levantada, e saiu para o corredor. A porta não bateu, apenas fechou com um clique.

António Manuel entrou na escada que cheirava a urina de gato e batatas fritas de vizinhos. A mala puxava-lhe o braço, as costas queixavam-se, e o telemóvel vibrava no bolso.

Deve ser a Mafalda, pensou, ansiosa pelo seu cavaleiro.

Chamou o elevador e, enquanto esperava, pegou no telemóvel, coração aos pulos. Mensagem no WhatsApp: «António, estás quase? Reservei mesa. Mas olha, aconteceu um imprevisto»

Leu com atenção: «Preciso transferir duzentos euros urgentemente para a minha mãe, que está doente e não consegue comprar os medicamentos. Podes? Quando chegares dou-to!»

António franziu o sobrolho. Duzentos euros. Estranho. Ontem tinham sido cinquenta para o táxi. Anteontem cem para um serviço de internet. E há dias, quinhentos para um curso de inspiração.

O elevador chegou, arrastou a mala para dentro e premiu o rés-do-chão. No espelho viu um homem já com idade, de boné, cara rubra e olhar perdido.

«Vou para a moça», repetiu para si, mas a frase perdeu brilho e heroísmo.

Lá fora, o frio cortava: chuva miudinha, vento a rodopiar folhas secas. António arrastou a mala até à paragem de autocarro, porque Mafalda morava do outro lado de Lisboa, numa urbanização recente.

Sentou-se num banco molhado e puxou do telemóvel para a transferência. Os dedos gelados tremeram ao entrar na app do banco.

Saldo: 185 euros. Só recebia a reforma dali a uma semana.

Raios murmurou ele.

Digitou: «Mafaldinha, amor, o saldo está baixo. Levo-te em dinheiro quando chegar, tenho guardado.»

A resposta foi um emoji de olhos revirados e logo a seguir: «António, a sério? Pede emprestado! Mãe está mal! Se gostasses de mim, desenrascavas!»

«António». Nem querido, nem nada.

Sentiu um incómodo pegajoso no peito. Não era amor, era outra coisa.

Recordou-se subitamente que nunca tinha feito videochamadas com Mafalda. Havia sempre uma desculpa câmara avariada, internet fraca. Mas as fotos de perfil eram fabulosas, de modelo.

Decidiu ligar-lhe, só para a ouvir. Chamou, toques longos, depois rejeitado.

Mensagem: «Não posso falar, estou a chorar!»

Sentado na paragem, António segurava a mala. Os carros passavam, salpicando-o de água.

O frio entrava-lhe nos ossos, apesar da camisa engomada e do casaco leve. As costas doíam tanto que se sentiu a perder forças.

Mafalda disse alto, provando o nome. Soou-lhe a plástico.

O telemóvel vibrou outra vez: «Então? Já transferiste? Senão, nem apareças. Não preciso de homem incapaz de me resolver um problema simples.»

Ficou a olhar para o ecrã, as letras desfocadas.

Lembrou-se da Rosa. Como na véspera ela lhe tinha passado creme nas costas, em silêncio, quando ele se queixou. Como fazia bifes de peru ao vapor que ele não gostava, mas comia, pelo bem do fígado.

Como sabia melhor do que ele onde estavam as meias e os papéis.

“Não preciso de homem”

Imaginou-se no novo apartamento da Mafalda. Sofá estranho, cheiro estranho, regras diferentes. Sempre a corresponder, sempre a pagar.

Depois viu-se, com as costas presas, ali. Achava que algum dia ela lhe passava o creme?

António Manuel levantou-se devagar, os joelhos rangendo. Viu passar o autocarro na direção da urbanização, mas não se moveu.

O autocarro partiu, deixando-lhe o cheiro do tubo de escape.

Ficou ali mais um pouco, fitando a rua vazia. Depois virou costas, puxou a mala e caminhou para casa.

O regresso pareceu-lhe eterno. O elevador estava avariado, clássico. Amigos braços, foram três andares de escada.

A cada patamar, parava, arfava, enxugava o suor. O coração já batia não por paixão, mas por cansaço.

Diante da porta, encostou a mala e tocou à campainha. Silêncio. O pânico subiu-lhe e se ela se fora? E se mudara a fechadura?

Deixara as chaves em cima da mesa!

Tocou outra vez, insistentemente.

Rosa! chamou, rouco. Abre a porta!

O trinco rodou suavemente e lá estava a dona Rosa Maria, calada, a usar o seu velho roupão.

António Manuel ficou diante dela molhado, sujo, o boné na mão. As lágrimas caíam-lhe pelas faces.

Eram verdadeiras, amargas: pela sua estupidez, pela velhice, que não chegou com sabedoria mas com ilusões.

Eu tentou ele. Eu, Rosa O autocarro A chuva E pensei

Não conseguiu continuar. Não podia confessar que a Mafalda afinal queria era dinheiro. Era demasiado humilhante.

Ela olhou-o, depois à mala, e soltou um suspiro.

Levaste o lixo? perguntou calmamente.

Olhou para a mão livre. Não tinha saco nenhum esquecera-se dele na paragem.

Esqueci-me sussurrou.

Rosa abanou a cabeça e afastou-se para lhe dar passagem.

Entra, Romeu. O chá arrefece. E lava essas mãos, estás imundo.

Entrou, arrastando a mala atrás. O cheiro a roupa lavada misturado com remédios encheu-lhe o nariz era o melhor cheiro do mundo.

Foi lavar-se. No espelho via um homem velho, cansado. Passou a cara pela água fria, limpando as lágrimas e a vergonha.

Na cozinha, ela servia-lhe chá na sua caneca favorita. Na mesa, almôndegas ao vapor.

Rosa disse mansamente, sentando-se. Perdoa este velho tonto. Foi uma parvoíce.

Come, António respondeu ela, sem olhar. Está a arrefecer.

Não, a sério. Que Mafalda? Que musa? Sem ti nem sei onde estão os papéis do seguro.

Na gaveta de cima, como sempre disse ela, sentando-se. Poupa-me à cena. Voltaste, pronto.

Ele mastigou a almôndega sabia-lhe melhor que todos os petiscos do mundo.

Olha, a Mafalda tentou arranjar desculpa para salvar a face Fuma, vê lá tu. E ainda por cima fala mal.

Ela ergueu os olhos, olhos faiscando de contenção.

Que horror, pois. Tu, tão sensível, não aguentavas isso.

Claro! Logo lhe disse: Minha senhora, o seu vocabulário não condiz com o seu aspecto! E ela

Fez um gesto largo.

Apercebi-me que ali era só vazio, Rosa. Nada.

Pois, ainda bem que viste isso a tempo e não no registo.

Levantou-se, pegou no tubo da pomada e pousou-o à frente dele.

Aposto que as costas estão rebentadas.

António corou.

Um bocadinho.

Vá, tira a camisa.

Ele obedeceu, gemendo, sentindo os dedos dela, firmes e seguros, a espalhar a pomada. Ardia, mas era um calor que curava.

Rosa murmurou, olhando a mesa.

Diz.

Sabias que ia voltar?

Claro.

Porquê?

Ela deu-lhe uma palmada suave no ombro.

Porque na tua mala não levaste cuecas, nem meias, nem remédios.

E sorriu de lado:

Mas meteste lá o meu casaco velho, aquele para levar à lavandaria.

António ficou imóvel, digerindo aquilo.

O casaco?

Sim. Vi de manhã. Julgavas que não? Sem óculos, não vês nada.

A cozinha ficou em silêncio. Ele pensou: ia para a aventura com o cobertor e o casaco da mulher.

Subitamente, desatou-se a rir. Começou baixo, depois mais alto. Riu, riu até tossir.

Ela olhou-o, um ligeiro sorriso nos cantos da boca.

És mesmo um tonto disse-lhe, sem rancor. Vá, come isso. Amanhã há trabalho, temos de levar os frascos para a cave do quintal. Aí tens exercício e ar fresco.

Vamos, Rosinha. Claro que vamos respondeu António, enxugando lágrimas de tanto rir.

O telemóvel vibrou outra vez. Mensagem: «Mafalda: Onde estás?! A minha mãe está mal!! Manda pelo menos vinte euros!!»

Premiu bloquear. Depois eliminar conversa. Pousou o telefone.

Rosa, e se deixássemos os frascos? Se fizéssemos só um grelhado no quintal? Eu trato da carne, como tu gostas, com muita cebola.

Rosa ergueu as sobrancelhas, surpresa. Há dez anos que António não tocava no grelhador.

Grelhado? E o fígado?

Azar do fígado fez um gesto largo. Só se vive uma vez.

Pegou-lhe na mão calejada e rude, mas tão sua e beijou-a desajeitadamente.

Obrigado por me abrires a porta, Rosa.

Ela retirou a mão, mas devagarinho, quase envergonhada.

Come, Don Juan. Ou arrefece tudo.

Lá fora a chuva aumentava, o vento fustigava as janelas. Mas na cozinha estava quente e claro. A camisa de domingo pendurada, cheirava a pomada e a chá.

E aquele cheiro era melhor que qualquer perfume.

António olhava a mulher e pensava que vinte e oito anos fazem diferença, mas só alguém como ela saberia que ele era capaz de meter um casaco velho na mala, e ainda assim o deixaria voltar.

Rosa chamou.

Que foi agora?

O casaco, preciso mesmo levá-lo à lavandaria. Amanhã trato disso.

Trata. Mas desfaz a mala primeiro e tira o cobertor. Que me fazem falta.

António acenou e mordeu com prazer a almôndega.

A vida continuava. E, bolas, até não era nada má.

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