«Tens pele a cair!» — O meu marido de 60 anos beliscou-me na frente de todos e eu trouxe um espelho para lhe mostrar quem é que realmente tem a pele a cair.

Margarida, o que é isso aí do teu lado? Manuel, já com sessenta anos e um brilho rosado no rosto depois do terceiro copo de ginjinha caseira, de repente esticou a mão e apertou-me a lateral da cintura, exatamente acima da saia, onde o tecido ficava mais justo quando eu me sentava.

Fez isto à frente dos amigos, alto e bom som, sem o menor pudor.

Olha que piada a tua tentei afastar a mão dele, como quem espanta mosca chata no outono, mas Manuel insistia.

Os dedos curtos dele, tão grossos quanto salsichas de campo maior, voltaram a apertar-me a cintura. Não magoava, mas humilhava.

Repara bem, Francisco! exclamou ele para o nosso vizinho, sentado à frente, pronto para atacar uma fatia de bacalhau à Brás. Já lhe disse: Margarida, chega de pão antes de dormir. E ela diz-me que é da idade, dos hormonas

Manuel soltou uma gargalhada; a barriga sacudiu-se, esticando perigosamente os botões da camisa de domingo.

Que hormonas, qual quê! É preguiça! sentenciou ele, revendo com orgulho a sua plateia à mesa.

Deixa-te disso, Manuel murmurei entre dentes, sentindo as faces e o pescoço a arder de vergonha.

Francisco riu sem graça, investido no prato, de repente fascinado com o desenho de azeite no feijão frade.

A esposa dele, Teresa, desviou o olhar, demasiado ocupada a endireitar o guardanapo.

Oh, não posso dizer a verdade agora? Manuel estava lançado, convencido da sua graça. Tens a pele toda pendurada!

E voltou a espetar o dedo de forma infantil na minha anca, como quem testa se a massa do pão está pronta a ir ao forno.

Vê só aqui, parece rolo, igual às do cão Shar Pei. Nada bonito, Margarida.

O silêncio pesado caiu, quebrado apenas pelo barulho do frigorífico na cozinha.

Faço isto para o teu bem acrescentou depois, com ar moralista e mãos cruzadas ao peito. A mulher deve-se cuidar, para que o marido se orgulhe, faz parte da natureza.

Olhei bem para ele.

Observei-o como se fosse a primeira vez nos trinta anos que partilhávamos aquela casa.

Sessenta e dois anos.

A barriga imensa caía sobre as calças uma nuvem negra pendendo no horizonte.

Do queixo, só restavam camadas; da nuca e ombros, meros vestígios.

A careca brilhava sob a luz do candeeiro parecia uma panqueca lambida com manteiga pelo Natal.

Então, para ser agradável à vista, dizes tu? perguntei, com uma serenidade que assustou até a mim própria.

Por dentro, senti o clique.

Já não restava vergonha nem vontade de evitar conflito. Só uma clareza gelada.

Claro! Manuel bateu no peito, com ar convencido. Repara em mim! Estou em forma.

Estás em forma, dizes? continuei a encará-lo.

Em forma de homem! endireitou as costas até onde o reumático permitia. Todos os dias mexo os halteres cinco minutos. Estou tonificado!

Forçou a barriga para dentro, mas o resultado foi tristonho: a carne apenas oscilou, para logo repousar sobre a fivela do cinto.

O homem tem de ser águia, não saco de batatas concluiu ele.

Águia, dizes tu? Levantei-me devagar.

Vais aonde? Ficou com maus fígados? gritou-me, atirando-se a mais ginjinha. A verdade não ofende, Margarida! Tens é de emagrecer!

No corredor, com cheiro a roupa velha e graxa, encontrei o velho espelho herdado dos meus pais.

Pesava bem uns cinco quilos de madeira maciça. Mas era como uma pena nas mãos.

Regressei de cabeça erguida. Carregava o espelho como quem empunha escudo: inapelável e imparcial.

Todos pararam de mastigar. Teresa ficou boquiaberta, engolindo apressadamente um pedaço de pepino.

Manuel, levanta-te pedi, numa voz tão calma que ninguém ousou contrariar.

Para quê tudo isso? hesitou, receoso ao ver-me decidida. Para dançar?

Não aproximei-me, sentindo-lhe o cheiro a alho e álcool. Vamos admirar o nosso águia.

Coloquei-lhe o espelho à frente, tentando não tocar a cara dele.

Segura.

Ele pegou por instinto; os braços tremeram ante o peso.

Que raio, Margarida?

Olha bem ordenei, séria quanto uma professora a ralhar com um miúdo traquina. Vê direitinho.

O reflexo dele tremeu um pouco nas mãos.

Pronto, já me vi. E depois?

Agora olha para baixo apontei com o dedo, bem no reflexo da camisa suada. Vês?

O quê?

Tens a pele pendurada! disse bem alto, sem piedade, imitando-lhe o tom de pouco antes. E não só pendurada, Manuel, está toda caída!

Margarida! tentou pousar o espelho, mas não deixei.

Não! forcei-o a encarar a realidade. O que é isto por cima do cinto? Abdómen de ferro, talvez?

Francisco soltou um grunhido abafado e tossiu para esconder o riso.

Não, meu querido. Isso é boia salva-vidas, no caso de te afogares na gordura.

Manuel corou até às orelhas parecia um tomate maduro prestes a rebentar.

E aqui de lado? apontei-lhe as banhas saídas das calças. São asas de águia, ou será que são as orelhas de um leitão?

Pára com isso! sibilou, tentando esquivar-se. As pessoas estão a ver!

Que vejam! a minha voz era mais forte. Quiseste verdade? Vamos falar então da tua estética!

Recuo para ter melhor ângulo.

Vira-te para a luz, vá lá.

Não me viro!

Vira-te! disse tão firme que até a faqueira tilintou.

E ele virou-se como uma criança em apuros cambaleando, mudou a posição.

No espelho, o perfil nada tinha de heróico.

E aquele pescoço?

Vês esta tripla camada na nuca? disse, como médica a dar o diagnóstico. Shar Pei puro, Manuel.

Teresa já não disfarçava e tapava o rosto no guardanapo, tremendo de riso.

E aqui debaixo do queixo? insisti, sem dar tréguas. Achas que guardas peixe aí, como pelicano?

Sou homem! guinchou, fraco, tão pequeno de repente. A mim é permitido!

Ah, pois é, a ti tudo se permite? o meu riso foi frio e breve. Então, quando eu, depois de dois filhos e trinta anos de tachos, fico com uma dobra, é preguiça, é feio, mas quando tu, que só levantas o comando da televisão, te transformas num pudim trémulo, é homem feito?

Arranquei-lhe o espelho das mãos. Os braços pendiam, exaustos.

Ficou ali no meio da sala, derrotado, com o botão da camisa finalmente estalado, rolando para debaixo da mesa.

Toda a fanfarronice foi-se. Diante de mim apenas um homem simpático, envelhecido, finalmente consciente que até o rei vai nu.

Bem alimentado, aliás.

Senta-te, disse com calma, largando o espelho junto ao móvel, e come.

Ele deixou-se cair na cadeira, que gemeu debaixo do peso.

E menos conversa sobre o meu corpo ajeitei o cabelo diante do espelho. Senão ponho-o aqui mesmo, e terás de te admirar enquanto comes, ó pelicano.

Francisco já nem tentava conter-se; assoava-se de tanto rir.

Manuel espetou de novo o garfo no pratinho de cogumelos em conserva.

Mastigava devagarinho, sem nunca levantar os olhos do prato.

Na sala o ar libertou-se daquela tensão pegajosa que seguem certas zangas de família.

Pelo contrário. Era como se alguém tivesse finalmente escancarado a janela, e entrasse ar de mar da Caparica.

Voltei ao meu lugar de anfitriã.

Cortei uma fatia gigante de bolo de bolacha, o que ontem preparei durante toda a tarde ia jurar não comer, para não engordar.

O creme escorria apetitoso, as bolachas faziam croc.

Margarida, passa-me também uma boa fatia pediu Teresa, entregando-me o prato. Que se lixe a dieta, só vivemos uma vez.

E eu também, piscou Francisco, enchendo o copo de sumo de frutos vermelhos. Parece que estão a crescer-me asas, preciso de energia!

Só então Manuel levantou um pouco o olhar.

Olhou-me com um respeito estranho, novo, algo desconfiado.

Depois olhou para o bolo. Depois para o espelho, encostado à parede como testemunha muda da verdade.

Ao fundo, via-se-lhe os pés metidos em meias de cores diferentes: uma preta, outra azul-escuro.

Águia, pois sim, mas da sala de estar.

Desculpa, Margarida, murmurou, fitando a toalha. Saíram-me as palavras tortas. Desculpa lá.

Come, Manuel, come, trinquei o bolo, saboreando o creme de manteiga. Vais precisar das forças.

Levantou as sobrancelhas, sem entender.

Para pegares nos halteres, pisquei-lhe o olho. Afinal és o nosso atleta.

A noite prosseguiu, com conversas de sempre: preços do mercado, o apartamento na praia, o tempo.

Mas a ordem à mesa tinha mudado para sempre.

O meu crítico caseiro perdera todo o vapor e era agora só mais um homem: pleno de falhas, receios, rugas e camadas.

E sabem uma coisa? Aquele bolo soube-me como nunca.

Desde esse dia, o espelho ficou ali, imponente, na sala.

Manuel, cada vez que por ele passa, endireita os ombros e aperta o abdómen.

E nunca mais ousou falar da minha pele pendurada.

Talvez porque teme acordar o pelicano.

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«Tens pele a cair!» — O meu marido de 60 anos beliscou-me na frente de todos e eu trouxe um espelho para lhe mostrar quem é que realmente tem a pele a cair.
Svokra prišla „skontrolovať“ moju chladničku a zostala v šoku z nových zámkov: – Čo sa tu deje?! Kľúč nejde, vy ste sa zabarikádovali?! Katka! Peťo! Vidím, že ste doma, merač beží! Otvorte okamžite, mám ťažké tašky, ruky už necítim! Pri dverách stála pani Mária, zvonila, trieskala a jej hlas rozliehal sa po čerstvo namaľovanom bratislavskom paneláku. Katka zastala na schodoch. Každá návšteva svokry bola skúškou – ale dnes bol deň „D“. Deň, keď pohár trpezlivosti pretiekol a začal sa boj o vlastné hranice, aj za cenu nového zámku… – Pani Mária, dobrý večer, – povedala Katka, dávajúc najavo pokoj. – Nekričte tak, susedia zavolajú policajtov. Ani dvere neničte, boli drahé. Svokra sa zvrtla, oči jej sršali bleskami. – Takže ste tu! Hodinu tu trieskam, prečo môj kľúč nesedí? Vy ste menili zámok? – Áno, včera. Majster to vybavil, – Katka vytiahla kľúče. – A mne, vlastnej svokre, nepoviete nič? Doveziem jedlo, starám sa, a vy mi tresknete dvere pred nosom? Dajte mi nový kľúč, hneď! Mäso musím dať do mrazničky, už púšťa šťavu! Katka sa postavila do dverí, už bez snahy ustupovať či ospravedlňovať sa. – Pani Mária, nový kľúč pre vás nemám. A ani nebude. Nastalo ticho. Svokre skoro spadol košík s domácou kapustou a pohárom „tvarohu“ z trhoviska… Taký bol začiatok ich nových rodinných pravidiel. Pre niekoho nepredstaviteľné, pre iného – jediná cesta k pokoju v panelákovom byte.