A Inquilina

A INQUILINA

Numa tarde fria de inverno, eu caminhava lentamente pelas calçadas do meu bairro em Lisboa. Ainda era cedo, e apesar do frio suave, o dia tinha sido luminoso, o céu limpo e as ruas reluziam com o brilho das pequenas geadas nas folhas. O sol, agora a esconder-se atrás dos edifícios, pintava tudo de dourado, refletindo nos raros flocos de neve que insistiam em sobreviver.

Gosto deste friozinho. Caminho com passo tranquilo, sentindo o conforto das minhas botas elegantes e a maciez do casaco de vison, presente do meu filho no último Natal. Não posso negar: sei que me mantenho bem para a minha idade, já passo dos sessenta e continuo com aquele ar cuidado, talvez até orgulhoso, que sempre me disseram notar em mim.

Já perdi o Luís, o meu marido, há uma década. Chorámos muito, eu e o meu filho Eduardo. Vivemos anos felizes, cresceu-me um filho bom, trabalhador, que mais tarde foi estudar para o Porto e ficou por lá. Casou e fez de mim avó duas vezes, embora só veja os meninos poucas vezes por ano, pois o trabalho não lhe permite visitar-me mais. Mesmo assim, nunca me falta ânimo; mantenho-me ocupada, sempre há motivos para ser feliz, apesar da solidão. A minha pensão não é grande coisa, mas dá para viver, principalmente porque tenho duas casas alugo o meu T1, o que ajuda muito. O Eduardo manda-me uns euros de vez em quando, embora eu (orgulhosa como sou) resista sempre.

Hoje, à parte o passeio, tinha mesmo um motivo prático: recolher a renda do apartamento. Estou habituada a ir lá pessoalmente, quero sempre certificar-me se está tudo em ordem e se as despesas estão em dia. Aprendi, depois de algumas más experiências, que esta minha cautela vale ouro. Desta vez, vivia lá uma jovem família: Beatriz, o marido e o menino, o Gonçalo, um miúdo de dois anos super desenrascado. Trouxe, na mala pequena, uma tablete de chocolate para ele, coisa que faço sempre.

A Beatriz causa-me sempre ternura. Apesar dos seus vinte e quatro anos, parece ainda uma rapariga; tão franzina, branquinha, olhar azul sincero. O menino é o oposto, rechonchudo e cheio de energia. Ela mantém sempre a casa arrumada, recebe-me com simpatia, paga tudo a tempo. O marido, esse, raramente me diz mais que um murmúrio, e a mim, pouco me importa, que não é obrigado a simpatizar.

Cheguei ao prédio de nove andares, subi ao quinto de elevador, sonhando com que delícia me ia brindar com a renda adoro salmão fumado e mariscos, e, confesso, gosto de me dar esses luxos quando posso.

Toquei à campainha; tenho chave, mas nunca entro assim. Com bons inquilinos, respeita-se o espaço. Esperei mais que o costume, já estava quase a ir-me embora quando a porta finalmente se abriu. A Beatriz apareceu com um ar assustador, os olhos vermelhos inchados e as mãos a tremer. O coração caiu-me.

Entrei rapidamente. Ela cruzou os braços, defensiva. “Passou-se alguma coisa, Beatriz? Pareces tão mal… Precisas de ajuda?” A minha voz saiu logo preocupada, mas não agressiva. Ela abanou a cabeça, afastando-se para dentro e quase a cambalear.

Segui-a pela sala desarrumada havia roupa espalhada no chão, o armário meio vazio e o Gonçalo brincava alheio ao drama. Ela estendeu-me as facturas pagas, a mão ainda a tremer.

Está tudo pago, D. Amélia, mas não posso dar-lhe a renda este mês. Não tenho mesmo como. Eu… nós vamos sair amanhã, eu e o Gonçalo. Deixe-me só tempo para arrumar as coisas.

Vi bem agora: os olhos dela não denunciavam ressaca, nem cheirava a álcool; eram olhos de choro. Choro antigo, profundo. Sentei-me à beira dela, observando-a. “Então mas o que se passa? Onde está o teu marido? Estás doente?”

Ela tapou o rosto com as mãos. Falou entre soluços: “Ando doente, D. Amélia. Já há meses que não me sinto bem. Cansada, fraca, mas adiei ir ao médico porque estava sempre sozinha com o Gonçalo. Agora, que entrou para a creche, fui finalmente ao centro de saúde. Fiz análises, e descobri: é cancro. Amanhã tenho de internar-me no IPO, para biopsiarem e saberem a gravidade.”

Continuou, cada vez mais frágil: “O meu marido… quando soube, fugiu. Nem uma palavra de apoio. Disse que não queria saber de doenças, que não aguentava. Apanhou as coisas e sumiu. Vou divorciar-me, estou aqui sozinha, sem dinheiro, só o pouco que recebo do subsídio de maternidade, que não chega. O resto ficou nas contas da luz e da água. Não tenho como pagar-lhe, D. Amélia. Amanhã vou para casa da minha avó no Alentejo, mas não tenhamos ilusões é só um poste de socorro lá, nada como o IPO. Não sei o que fazer. Deixar o Gonçalo lá? Não dá, ela é idosa, mal toma conta de si. Nem posso estar internada, não tenho a quem confiar o menino…”

Senti o peito apertar. Olhei para ela e, por um breve momento, pensei no salmão, mas nem fazia sentido agora em comparação ao desgosto alheio. Toquei-lhe no ombro.

“Vá, olha para mim. Chega de lágrimas. O teu marido foi um cobarde, mas tu tens um filho, tens de lutar. Ficaste sem plano, mas arranjas outros. Amanhã vais ao IPO, fazes o que tens de fazer. O Gonçalo fica comigo. Quantos dias forem, eu cuido dele. Podes voltar para cá quando deres alta, de dinheiro falamos depois. Não faças dramas por isso, mulher, há coisas mais importantes! Anda, limpa essa cara, arruma a casa. Eu venho cedo de manhã, combinamos o resto.”

Ela olhou-me, sem acreditar. Julgava que eu era fria, que me faltava coração. Percebi, pelo olhar dela, que esperava gritos, não solidariedade. Que se lixe não seria uma pessoa porreira se não ajudasse numa situação destas.

“Então que ficas a olhar para mim? Toma lá coragem, vais vencer. Não quero ver essa cara triste amanhã, senão ainda me comoves”, disse-lhe, tentando disfarçar o nó na minha garganta.

Desci ao supermercado só para comprar comida essencial: frango para a canja, arroz, carne picada, coisas simples. Tinha de garantir refeições ao miúdo, enquanto a mãe estivesse no hospital.

O Gonçalo sempre foi fácil, esteve ótimo comigo. Sentiu falta da mãe, claro. E eu, mesmo não o admitindo, não parei de pensar em Beatriz. Fiquei em sobressalto até ela voltar dois dias depois, esgotada depois da biopsia. Agora esperávamos as notícias.

E vieram. Quando atendeu o telefone, percebi de imediato a alegria na voz: “D. Amélia! Falei agora com os médicos: é só a primeira fase! Só vou precisar de uma cirurgia, talvez nem quimioterapia, há boas hipóteses de cura!”

Soltei um suspiro sentido: Vês? Olha tu, quase desistias de ti própria! O teu marido preferiu não acreditar que seja, ficaste a saber quem realmente é. Diz-me, quando é a operação? O Gonçalo continua comigo, não há problema nenhum.”

Ela hesitou. “Só daqui a um mês, há listas de espera. Fico a viver aqui? Não quero abusar”

“Abusar de quê? E comida, tens? Precisas de mercearias, diz logo.”

“Não posso aceitar mais, faz tanto por nós…” vi os olhos dela rasarem de lágrimas.

Passaram-se dezoito meses.

Uma tarde, sentada na mesa de honra do melhor restaurante de Lisboa, sentia-me orgulhosa a minha Beatriz, linda, saudável, a casar-se. Vestido branco, sorriso aberto, a cortar o bolo ao lado do novo marido, Mário, o médico que a operou no IPO. No início, ela desconfiava dele por ser demasiado jovem; acabou por render-se ao carinho e dedicação dele. Conquistou-a, à sua maneira paciente, ao longo dos longos meses de recuperação.

Quando Beatriz voltou ao trabalho, ela quis compensar-me pela casa mas não aceitei mais um cêntimo. Entre nós cresceu uma relação de verdade, com a confiança que não se troca por nada. Vi-a tornar-se da família. E assim ganhou Lisboa mais um par feliz, e eu um neto de coração.

Saboreava, ocasionalmente, o meu peixe fumado favorito, desta vez sem culpas e ria-me por dentro das minhas ansiedades de outrora sobre despesas e luxos mesquinhos. Nenhuma delas se compara ao bem que é ter uma Beatriz e um Gonçalo na vida.

Beatriz levantou-se, emocionada, à mesa:

Quero agradecer a alguém especial, sem quem este dia não seria possível. D. Amélia, foi como mãe para mim, quando mais precisei. Deus a pôs no meu caminho, e não imagina o quanto sou grata por isso.

Quase chorei, mas disfarcei. A idade ensina a não mostrar tudo, mas o coração, esse, já não sabe esconder nada.

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