Vou Reunir Toda a Gente Lá em Casa

Vou juntar toda a família em minha casa

Madalena Vasconcelos pousa o tablet e pega no telemóvel:
Avó, está tudo bem? Como se sente? E o avô, como está? Ora, se está a fritar batatas, então é porque está tudo em ordem. Acabei o trabalho por hoje, vou buscar o Daniel ao futebol, passamos no supermercado e já seguimos para casa.

Depois Madalena liga para outro número:
Tiago, olá, estou a caminho de casa, vocês já vêm com a Mariana? Já estão no autocarro? Ótimo, o avô está a preparar o jantar, vamos todos comer juntos.

Madalena levanta-se e arruma o necessário na carteira. Grita para as colegas:
Tchau a todas, até amanhã!
Adeus, Madalena, bom serão.

Calça rapidamente uns sapatos mais confortáveis debaixo da secretária, coloca o casaco e, quase sem pensar, espreita pela janela escurecida. É uma noite de outono ainda morna. As luzes piscam, pessoas apressadas atravessam Lisboa rumo ao lar. Madalena vê o seu reflexo no vidro e sorri: parece mentira, nunca imaginou viver uma vida tão normal e simples. Ter família, chegar a casa ao final do dia, com a certeza de que será recebida de braços abertos. Até há pouco tempo acreditava que nunca teria essa sorte.

É verdade que tem uma família diferente do habitual, mas são felizes e amam-se muito.

A mãe de Madalena deixou-a logo depois de nascer no hospital, desaparecendo sem deixar rasto. No registo simplificado do lar de acolhimento só diz: mãe desconhecida, sem documentos, pai ausente. Deram-lhe o nome e o apelido por mero acaso. Vasconcelos ficou porque nasceu na primavera. Madalena, porque lhes pareceu bonito. Sempre fez amizades mais com rapazes; o melhor amigo, Tiago, também Vasconcelos, tinha mais um ano do que ela e história parecida. Na escola, Madalena era aluna exemplar, obediente, dedicada e sempre disposta a ajudar; desejava tanto ser adotada. Via nos filmes como era o dia a dia de uma família normal mas nunca senti na pele o aconchego de um lar. Talvez por ser alta e desajeitada, nunca foi escolhida. Ou então, puro azar.

Quando Tiago foi adotado, Madalena chorou a noite inteira. Não por inveja, mas porque se sentiu só, sem o seu melhor amigo. Ele, de óculos, olhou-a com fragilidade:
Madalena, se quiseres eu digo que não quero
Estás parvo, Tiago? Quem rejeita uma família? Vai, cada um tem o seu destino.
Um dia hei de encontrar-te, prometo! Mas Madalena riu-se, sem acreditar muito.

Madalena conclui o secundário e entra para o curso de Engenharia Civil em Coimbra, onde vive numa residência de estudantes. Mal acaba o curso, o Estado atribui-lhe um T1 nos arredores, por ser órfã. A casa não é central, mas não faz mal! Encontra trabalho no gabinete de projetos como desenhadora técnica. Assim começa, finalmente, a sua vida de adulta. Colegas tem muitas, amigos também, mas formar família ainda não está nos planos, acha cedo.

Sonhava com uma casa grande, um marido bom e filhos dois ou até três. A ouvir todos os dias mamã, papá; palavras quentes, que quase desconhece, mas que tanto deseja ouvir. Abrir a porta e ter os filhos a correr até ela, mamã, o papá chegou!. Como em contos de fadas.

Certo dia, aproxima-se do prédio e a porta abre-se de repente um rapaz esbarra-lhe quase em cima, mala na mão. Madalena entra e encontra uma senhora idosa caída nos degraus:
A minha pensão… a mala… ele empurrou-me. Os óculos, onde estão? Não vejo nada!
Madalena tenta correr atrás do rapaz, mas já era tarde. Ajuda a senhora, felizmente sem grandes ferimentos.
Como pode ser, minha filha? O que ele ganhou? A idosa chora.
Madalena acompanha-a até casa, onde o marido está acamado. Desde então, começa a passar lá mais vezes, leva compras, já que tinham roubado o pouco dinheiro que tinham. A polícia ainda procurou, Madalena achou que o reconheceu, mas nunca o apanharam. A mala apareceu depois, sem nada de valor.

A avó Teresa, como começa a chamar-lhe, fica-lhe cada vez mais próxima. Chamam-na de neta, sentem-na família, pois estão sós no mundo.

Um dia, no autocarro, Madalena percebe que alguém a observa com um sorriso:
Desculpe, mas o seu rosto não me é estranho… Não nos conhecemos de algum lado?
Ela ri:
Que eu me lembre, não.
O jovem, bem-parecido, acompanha-a até casa, conta-lhe praticamente tudo sobre ele chama-se Gonçalo, vive só com a mãe, trabalha como marceneiro. Até parece antigo amigo, Madalena até acha que já o viu antes.
Gonçalo começa a esperar Madalena à saída do trabalho, vai com ela até casa. Um dia, convida-o para jantar: chá, sandes e conversa. Acaba por lhe desabafar a infância passada em instituição. Gonçalo fica pensativo, como se quisesse dizer algo mas não ousa. Madalena sente simpatia, mas algo a faz hesitar.

Da próxima vez, acontece o inesperado. Gonçalo entra em casa, ela vai pôr água para o chá; ele aproxima-se, abraça-a. Madalena pede calma, mas ele aperta-lhe as mãos com força, depois…
Madalena grita, e Gonçalo, com ódio:
Denunciaste-me! Eu reconheci-te, ingrata. Fizeram-me mal por tua causa, disseram-me sobre ti! Vi até o retrato-robô, quase que me tramaste de vez. Agora cala-te. Ninguém vai ajudar-te. Mais vale esqueceres…
Madalena não apresentou queixa – temia a exposição e o escândalo.

Um mês depois, Madalena é levada do trabalho de urgência para o hospital de Coimbra. Gravidez ectópica, hemorragia; os médicos dizem que talvez nunca possa ter filhos.

A avó Teresa cuida dela com dedicação, consola-a, alimenta-a com caldos e chás de ervas para recuperar forças. Madalena sai do hospital perdida, sem saber para onde ir ou como viver. Quase não fala. Um dia, deambula sem destino pelas ruas e dá por si em frente ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. O céu outonal é alto e azul. Os sinos tocam, flores são arrancadas dos canteiros pelos jovens monges.

Vasconcelos, Madalena? ouve de súbito. Um dos funcionários aproxima-se, sorrindo:
Madalena, andei à tua procura!
Tiago? reconhece, finalmente.
Abraceiam-se, Madalena chora. Ele limpa-lhe as lágrimas:
Anda, vamos comer uma sopa e um bolo na cantina. Depois conversamos.
Madalena mal acredita quando começa a contar-lhe tudo, e ele faz o mesmo. Fala-lhe dos duros anos após a adoção, das agressões do padrasto, da fuga, do tempo passado sem rumo até ser acolhido ali, onde encontrou paz.

Ao regressar a casa, Madalena percebe como tudo mudou desde que reencontrou Tiago. Chegou a passar dias no Mosteiro, sem vontade de voltar. Mas foi lá que tomaram grandes decisões. A avó Teresa e o avô António há muito desejavam deixar-lhe a casa, mas Madalena e Tiago tinham ideias ainda melhores.

Quando lhes propõem viverem juntos, a felicidade é genuína. Nunca os avós imaginaram que, já velhotes e tão doentes, alguém quisesse partilhar o lar com eles.

Hoje, Madalena e Tiago Vasconcelos são casados há cinco anos e moram nos arredores de Lisboa, numa casa espaçosa onde cabe toda a família. A avó Teresa e o avô António sentem-se finalmente em casa: são os mais velhos, os patriarcas, mas sobretudo já não estão sós têm família. E há dois anos, Madalena realizou o sonho maior: adotaram dois irmãos, Daniel e Mariana, do mesmo lar de onde vieram.

Tiago, lembras-te como esperávamos que alguém nos levasse, que tivéssemos um lar? Madalena ri, feliz. Olha bem para os olhos deles e promete comigo: seremos os pais com que sempre sonhámos.

Mãe, onde está o pai? Avó, vem cá, vê o que fizemos com o avô!

Madalena já não quer lembrar o que foi mau. Ainda ouviu casualmente da avó Teresa que detiveram o homem que lhe fez tanto mal, noutro crime. Agora sim, por muitos anos.

Que a cada um seja feito segundo as suas ações. Nesta vida e na outra.

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