Nora
Maria de Fátima colocou na mesa bem posta um belo prato de pato assado e suspirou fundo. A qualquer momento iam chegar os filhos com as noras.
O mais novo casou-se há pouco tempo, com uma cerimónia simples. Agora está na moda, os jovens querem assim, mais em conta. Mas ela, se fosse por ela, teria feito uma grande festa. Quando casou com o marido, também só foram ao registo civil, nem dinheiro para alianças havia naquele tempo só compraram um par de alianças fininhas no ano seguinte. Queria mesmo era ter dado aos filhos uma celebração em condições, mas cada um sabe de si.
“Há só um senão é que ela é demasiado arranjada, não sei…”, desabafou a sogra a uma amiga. Mas a nora, já ela sabia, mais cedo ou mais tarde ia querer conversar.
A tal nora, Matilde, no fundo era rapariga simpática, agradável. Fez bem ao filho Gonçalo. E ainda o ajudou a encontrar emprego fixo. E continua a puxar por ele para crescer na vida. Até aos trinta, Gonçalo vivia sem preocupação, nunca tomou grandes iniciativas. Maria de Fátima já se preocupava. Felizmente, as coisas começaram a correr melhor.
O único defeito de Matilde, para a sogra, é que ela é mesmo muito vaidosa. Salões de beleza, penteados, tintas, massagens e unhas tudo uma novidade para Maria de Fátima. E o dinheiro que se gasta nisso tudo! Ela achava que mulher casada tem de pensar primeiro na família, não nela própria.
“Ainda quero ver: quando vierem os filhos, em vez de comprar uns sapatos ao miúdo vai ela fazer manicure?” pensava Fátima, que sempre se pôs em último lugar. Especialmente desde que ficou viúva e continuou a dar o que podia aos filhos, já sendo eles adultos.
Os pensamentos de Fátima foram interrompidos pela campainha a juventude chegou. Matilde entrou na sala como uma estrela: penteado fresco, unhas perfeitas, cara quase sem maquilhagem tudo impecável graças à esteticista.
Ó Matilde, estás tão bonita! elogiou de boca cheia a sogra, mas não conseguiu evitar um certo travo de crítica. O fato é novo, não é?
É sim, comprei ontem respondeu Matilde, a sorrir. Recebi um bom prémio no trabalho.
Devias era poupar, filha, não resistiu Maria de Fátima. Prémios, extras, tudo isso guarda-se. Nunca se sabe o dia de amanhã.
Matilde calou-se. Gostava mesmo da sogra era uma mulher terra-a-terra, que deu tudo pela família. Mas lá no fundo achava: o tal dia negro vem mais depressa a quem vive a temê-lo a toda a hora.
O jantar até correu bem, mas a sogra trouxe o tema do gastar dinheiro mais do que uma vez. Matilde percebeu logo era tudo indiretas para ela.
Diga-me, Maria de Fátima, alguma vez fez manicure? acabou a jovem por perguntar, já sem aguentar.
Eu? hesitou a mãe de Gonçalo. Não… trato das unhas em casa, que fiquem limpas chega-me.
Ninguém ligou muito ao diálogo, mas Matilde sentiu qualquer coisa pela sogra. Fez-lhe impressão que uma mulher que criou dois filhos, agora com rendimentos decentes, tivesse tanta pena de gastar um euro consigo própria.
Gonçalo, a tua mãe faz mesmo alguma coisa para ela? perguntou ao marido no caminho de casa.
Não sei… Olha, cozinha, monta mesa como ninguém, vê televisão, vai falar com as vizinhas. Porquê?
Porque ela não aproveitou nada na vida! Deviam levá-la ao cinema, ao teatro, jantar fora…
Achas? Ela não gosta disso, nem quer saber.
Matilde ficou a pensar. Lembrou-se da mãe dela, que, mesmo contando os tostões, não passava sem um bom corte de cabelo, um vestido novo de vez em quando, e fazia questão de ir ao teatro para se animar.
A nora ficou com a ideia fixa: a sogra tinha de experimentar cuidar-se um pouco, aproveitar agora que podia, em vez de só esperar pelos netos ou viver em função dos filhos.
Passaram dois ou três dias, Matilde ligou à sogra e tentou convencê-la a ir dar uma volta, tomar um café. E sugeriu irem juntas a um salão de beleza ela queria ir à esteticista e desafiava Maria de Fátima a experimentar à vontade.
Ai menina, deixa isso… Se tu precisas eu espero no hall, ou até lá fora, não tem problema.
Ó Maria de Fátima, para quê esperar? Meia horinha ou uma hora faz bem. Vamos só experimentar uma manicure e massagem às mãos?
A custo, lá concordou. Matilde falou com as funcionárias do salão de confiança e explicou tudo: “Mimem bem a minha sogra, tratem-na como uma rainha, e ofereçam-lhe também mais qualquer coisa, mas com jeitinho. E se perguntar pelo valor, digam que eu já paguei tudo.”
Naquele dia, Matilde entrou com a sogra no salão e deixou-a nas mãos das profissionais.
É só meia horita, não é Matilde? E diga-me: quanto é que devo?
Enquanto a senhora era levada pela funcionária, Matilde sentou-se no hall com o telemóvel. Não ia fazer nada nela própria, só esperou.
Passadas duas horas (não meia hora!), Maria de Fátima veio de lá outra. Estava radiante, relaxada. As funcionárias além de a mimarem ainda lhe serviram chá e café.
Ó Matilde, nem imaginas! Arranjaram-me as mãos e tudo, até chá me deram… mas isto deve ter sido uma fortuna, não?
Nem penses nisso! Sabe que hoje é promoção disse a recepcionista sorridente. Quem traz uma amiga, a amiga não paga nada. Está tudo incluído!
Saíram e foram para a cafetaria ao lado. Maria de Fátima bebeu um gole de cappuccino e recostou-se na cadeira, bem-disposta.
Queres ver que agora vamos fazer disto rotina, hã? sugeriu Matilde. Sempre há descontos para quem volta. Gostou?
Muito, nem imaginava que era tão bom.
Mais valia ter provado antes!
Antes… eram outros tempos. Dois miúdos pequenos, o meu António (Deus o tenha) era muito certinho, não deixava esbanjar. Depois já nem fazia sentido…
Agora faz. Para fazer-me companhia, senão é seca ir sozinha.
Então, pode ser. De quando em quando.
E foi assim: Maria de Fátima começou a cuidar mais de si com a nora. Matilde, sempre com jeito, foi renovando-lhe o guarda-roupa, dizendo-lhe um preço mais baixo para não assustar. E convenceu Gonçalo a levarem a mãe ao restaurante. Depois foram todos ao cinema. No Natal, Matilde ofereceu à sogra um passe anual para o teatro municipal.
Ó Maria de Fátima, anda tão diferente diziam as vizinhas.
A juventude puxa-nos para cima respondia ela, envergonhada mas sorridente.
E a verdade é que ela sentia que, agora, na reforma e com os filhos criados, estava a chegar finalmente a sua juventude. 🪷Num domingo soalheiro, Maria de Fátima olhou-se ao espelho antes do almoço de família. Pela primeira vez, viu não só a mãe, a viúva, a mulher simples, mas uma senhora com luz própria. Nos olhos havia brilho, nas mãos unhas cuidadas, no pescoço um lenço de seda pequeno, oferta de Matilde, que usava com vaidade discreta.
Na mesa, o pato assado já estava à espera. Matilde entrou primeiro, com um bolo na mão e um abraço apertado. Gonçalo vinha atrás, a sorrir com orgulho pela transformação na mãe.
Durante a refeição, entre gargalhadas e histórias, Maria de Fátima sentiu-se parte do mundo deles moderna, viva, inteira. Já sem receios de gastar uns euros em si mesma, nem do futuro incerto.
No fim, Matilde levantou o copo e brindou:
Às mulheres que aprenderam a ser donas de si, seja em que idade for.
Maria de Fátima riu-se, emocionada. Viu então que a vida muda, e que nunca é tarde para descobrir novas alegrias, nem para aprender, dos mais jovens, a leveza e os pequenos luxos da felicidade.
E nesse instante, entre filhos, risos e cheiros, percebeu: a cada idade, cabe-nos sempre encontrar beleza e orgulho em ser quem somos começando, se preciso, por uma simples manicure.






