O Último Raio de Luz

O ÚLTIMO RAIO

Sobre a chefe do serviço de clínica geral todos comentavam: os homens olhavam com admiração, as mulheres com aquela inveja mal disfarçada. Era uma mulher alta, elegante, de olhos escuros penetrantes. O branco da bata realçava-lhe a figura ainda esguia. O cabelo, preso num coque improvisado, sobrevivia ao peso de uma touca engomada, que lhe dava ainda mais presença. Parece que as cunhas nos saltos tinham a altura certa, ou talvez fosse aquela passada suave, que fazia mesmo o ruído dos saltos soar discreto, quase reconfortante. Tinha aparência de quem rondava os quarenta e cinco, mas ninguém no hospital sabia ao certo quantos anos tinha a doutora.

Todos respeitavam e, em segredo, temiam Teresa Maria da Silva Castro. Médicos e pacientes. Era exigente, não abria mão dos princípios, mantinha-se à distância. Alguns colegas tentavam sempre a sorte: convidavam-na para tomar café, ofereciam flores, caixas de bombons invariavelmente congelando diante daquele olhar firme, que cortava as graças pela raiz.

Corria muita conversa sobre Teresa. Que teria sofrido por um grande amor, que o marido morrera uns diziam que em Angola, em tempos de tropa, outros que no mar. Que teria perdido um filho… Ninguém sabia ao certo o que era verdade e o que resultava do falatório dos corredores.

O certo era que morava sozinha, nunca se via ninguém à porta. Não era má, nem tempestuosa. Apenas reservada e distante.

Na juventude tinha-se apaixonado loucamente por um colega de faculdade, Lourenço Castro. Não conseguia viver sem ele. Mas a dedicação intimidava o rapaz, que acabou por optar por outra. Teresa fechou-se, não deixou mais ninguém entrar. Talvez ainda amasse Lourenço, talvez só temesse voltar a sofrer.

Parou junto ao posto das enfermeiras.
Vera, dá-me o processo do Lopes, da enfermaria cinco, por favor. Quero preparar a alta para amanhã.

Com o processo junto ao peito, voltou ao seu gabinete. “Pronto, o homem recuperou”, pensou, preenchendo no computador a rotina da alta, com todo o sumário de exames, prescrições, análises. Só faltavam trinta minutos para terminar o turno.

Trancou a porta do gabinete e ficou parada no corredor. Ao fundo, uma mulher falava ao telemóvel junto à janela, em voz baixa. Teresa, sem querer, ouviu o troço da conversa.
Não, não morreu. Está vivíssimo. Não fiques zangado. Eu já lhe disse… Pois, não estou preocupada… A sério, ao fim do dia falamos.

A mulher desligou e afastou-se em direção às escadas.

Teresa entrou na enfermaria cinco. As camas vazias mereceriam uma advertência pelo vício do tabaco, não fosse a atenção deter-se naquele homem de costas para a janela, em completo silêncio.

Senhor Lopes, amanhã… começou Teresa, mas, ao vê-lo virar-se, com olhos magoados, deteve-se a meio da frase.

O que aconteceu? Teresa sentou-se então na beira da cama, para não parecer superior.

Posso não ir embora? Eu… Não tenho para onde ir…

Já ocuparam o lugar dele. A mulher levou outro para casa. Disse-lhe: acabou, estou com outro murmurou o homem de cabelo grisalho da cama ao lado.

É verdade? sussurrou Teresa.

Percebeu, então, que era sobre ele que a mulher ao telefone falava, esperando talvez não ter o marido de volta, ocupando-lhe o lugar enquanto convalescia.

O senhor Lopes, homem robusto, já para lá dos cinquenta, fitava o horizonte com o maxilar tenso e os olhos tristes. Teresa também olhou para fora. Já era final de abril. As árvores ainda despidas exibiam rebentos inchados, prontos a explodir em folhas, mas o céu ameaçava neve cinza, sem cor. O sol hoje não apareceu.

Não há mesmo para onde ir? Família, amigos? tentou ela com delicadeza.

Eles têm as vidas deles. Um dia ou dois ainda vão, mas depois? É humilhante, nesta idade andar de favor.

Sabia que ela saía com outro. Pensei que fosse só uma fase…

Mais uns dias não o salvam, mesmo. E as camas fazem falta ponderou Teresa. Mas olhe, tenho um refúgio numa aldeia a oitenta quilómetros de Lisboa. A estrada está boa. A casa precisa de alguém com mãos fortes, já lá não vive ninguém há muito. Amanhã trago-lhe a chave e explico como lá chegar. Tem espaço, pode ficar quanto precisar disse, levantando-se e partindo sem dar espaço para recusa.

Sim senhora! exclamou o companheiro de quarto, sorrindo. Quem diria, doutora Teresa! Não te atrevas a recusar, homem. Aquela tua “gatinha” não vale o esforço, acredita.

Chuva miudinha deu lugar ao sol nos dias seguintes; vieram o calor e o aroma doce das flores do campo. Num domingo cedo, Teresa montou-se ao volante do carro e rumou até à aldeia.

Ficou espantada com a transformação da casa. As portadas estavam pintadas com azul vivo, o telhado remendado, um degrau novo substituíra o antigo a ranger. Teresa estacionou, desligou o motor. O senhor Lopes apareceu à porta, de t-shirt, calças de ganga, descalço, bronzeado, de ombros abertos, rosto rejuvenescido.

Bom dia, vim só ver como está. Está tudo bem por aqui?

Claro! Só cá estão três velhotas que até agradecem ter mais alguém na aldeia. Os forasteiros não ligam a ninguém respondeu, ainda incrédulo por a ver.

O campo fez-lhe bem. E o trabalho, vai andando? ficou encostada ao carro, ele não chamou para dentro.

O trabalho… Nada de especial. Fui militar, depois guarda-noturno. Reformei-me recentemente. Não há nada a lamentar.

Então, mostre-me como se arranjou por aqui.

Teresa fechou o carro, acercou-se da casa com curiosidade. Ele abriu a porta, meio atrapalhado. Por dentro, o soalho limpo exibia tapetes de trapos caseiros, a luz do sol desenhava padrões no chão através da renda das cortinas. Dois vasos de sardinheiras carregavam flores coloridas nas janelas, um relógio antigo batia tranquilamente no canto.

A dona Valentina aquela que mora à entrada ofereceu-me as sardinheiras. Parece logo mais acolhedor, não acha? esclareceu, um pouco envergonhado.

E este cheiro bom? O que andou a fazer? perguntou Teresa, virando-se para ele.

Fiz caldo-verde e batatas no forno. Prova? apressou-se em sorrir. Pela primeira vez Teresa sorriu-lhe abertamente. Nunca tinha cozinhado, nem sabia nada disto. As vizinhas ensinaram-me, mas saía sempre meio queimado ou cru.

A sensação de aconchego era tanta, invadindo Teresa de memórias de infância, dos verões em casa dos avós, os frascos de tomate e cogumelos para o inverno, o cheiro do pão quente, o carinho da mãe… Desde que ela falecera, Teresa nunca mais tivera forças para voltar. Nem vender a casa conseguiu.

Doutora, quanto tempo posso… ficar aqui? a voz dele interrompeu-lhe os pensamentos. Diga, sem graça.

O tempo que quiser, senhor Lopes. Não venho cá faz uns dez anos, não consegui. Venho visitar de vez em quando, se não se importar. Tem a casa como a minha mãe a deixava calor, cheiro a pão, cheiro a casa. Eu não saberia cuidar, nem tenho vontade, nem tempo respondeu, desviando o olhar, tímida.

Ah, trouxe-lhe umas coisas do supermercado, quase que esquecia! saiu porta fora, um pouco embaraçada.

Ele ficou a observá-la. Era a primeira vez que a via sem bata branca e sem a touca. O vestido leve dava-lhe outro ar, mais jovem, uma simplicidade inédita. Ela parecia próxima. Ele notou os próprios dedos endurecidos do trabalho do campo e sentiu, de repente, o peso dos anos.

Teresa partiu com o sol já baixo. Ficou um rasto leve de perfume no ar e, por mais que mexesse nos objetos, Lopes sentia o cheiro dela. Isso inquietava-lhe o coração, reacendia uma esperança já esquecida. Era curioso: sentia até gratidão pela mulher o ter deixado. Passou a noite sem dormir, a mente povoada de ideias novas.

Dois meses mais tarde, Teresa voltou. Levou mantimentos, uma cana de pesca nova. Ele, orgulhoso, mostrou a vedação recuperada, as histórias das vizinhas a pedir-lhe consertos em troca de leite, ovos, queijo fresco…

A casa parecia sorrir, as janelas a brilhar, como se dissesse: agora sim, tenho dono, não fico atrás de ninguém.

No inverno trato-lhe de uns picles caseiros prometia o senhor Lopes, e Teresa notou com alegria que ele andava mais esguio, outro ânimo no olhar. Corou, ao sentir-lhe o olhar firme.

O sol já se escondia atrás do pinhal, pintando tudo de laranja:
Dá-me licença? ele disse, saindo apressado.

Teresa vagueou pela casa, onde já sentia cheiros e pertences alheios. Estranhou ele demorar tanto. Saiu ao quintal e viu Lopes sentado junto à cerca, encostado, ofegante.

Lopes! correu para ele, ajoelhou-se, o coração em sobressalto.

Sentiu-lhe o pulso irregular, foi ao carro buscar a mala de primeiros-socorros, lembrou-se da água. Andava de um lado para o outro, com as saias a rodopiar-lhe pelas pernas. Pensou em fazer uma injecção, mas deu-lhe um comprimido e água.

Passados quinze minutos, Lopes conseguiu levantar-se. Com o apoio de Teresa, entrou e sentou-se.

Foi só do calor, queria só apanhar uns pepinos para ti… Queres… ficar esta noite? disse, tímido, tratando-a por tu pela primeira vez.

teresa ficou em silêncio, sem saber o que responder. Lopes inclinou a cabeça sobre o ventre dela, num gesto de desabafo.

A felicidade é assim: procura-se, grita-se, teme-se perdê-la, aprende-se a viver sozinho, sem receios, sem dependências. Mas um dia, sem aviso, os caminhos cruzam-se, e a vida renova-se a dois.

O amor? Esse também muda. Quando novos, devora, é impetuoso, exige posse. Com o tempo, torna-se calmo, silencioso e doce, como o último raio do sol a desaparecer detrás do monte.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

four × four =