Encontrar o culpado foi uma arte. As crianças, numa pressa de ir ao rio, esqueceram-se de fechar o Papagaio na gaiola. Quando a avó chegou do supermercado, escancarou a janela como quem abre portas do paraíso. O resultado? Só à noite demos pela falta do Tito, o nosso esplendoroso amazona, que evaporou-se numa direção mais misteriosa que o paradeiro do guarda-chuva do vizinho.
Durante três dias e três noites, largámos tudo contas, novelas e até o jantar da sogra para correr o bairro de aldeia com o objetivo nobre de recuperar o nosso desaparecido. Tito era um artista, famoso, mas nem para um autógrafo apareceu. Ninguém viu penas, nem bico. As crianças fundiam-se em lágrimas, a avó gemia ai Jesus, ai Jesus, e eu e o meu marido distribuíamos broncas a torto e a direito tanto aos mais novos como aos de cabelo branco.
Nesses dias, a nossa própria cadela, a Miki um airedale terrier mais filosófica do que um padre em retiro estava por tudo… menos para broncas. Mal mexia a cauda. Só mostrava sinais de vida sempre que a campainha tocava, para logo a seguir perceber que a casa estava vazia e regressar, chorosa, ao tapete. Durante anos, as visitas foram recebidas com coro de latidos: Tito imitava tão bem o latido de Miki, que às vezes duvidávamos de quem era o cão da casa.
O latido foi a primeira arte que Tito aprendeu. Mal saiu do ovo, já decidira pôr em prática os dotes: de mansinho, aproximava-se da gata, Mia (uma siamesa para lá de desconfiada), e desatava a ladrar-lhe ao ouvido com entusiasmo olímpico. A pobre Mia dava saltos de susto, miava como quem vê o Diabo, e nesse instante Miki surgia em defesa, instaurando o pandemónio total.
A Mia aguentava o Tito como quem aguenta sogra ao domingo sem vontade, mas com resignação. Já a Miki amava aquele pássaro sem reservas: Tito sentava-se na sua cabeça literalmente, com a maior das confianças a dar-lhe sermões, muitas vezes com a entoação da avó:
Quem vai acabar o arroz?
E, após uma pausa dramática digna de telenovela, acrescentava:
Aqui não há porcos!
A Miki, feita monja, nem pestanejava. Só, de vez em quando, sacudia o papagaio do dorso, quase com carinho, usando a língua áspera.
O desaparecimento de Tito calou fundo em todos menos na Mia, que aproveitou o silêncio para dormir melhor. Passadas duas semanas, entre rumores e teorias, correu a notícia: nos bandos de gralhas que saqueavam as cerejeiras tinha aparecido um intruso verdíssimo de bochechas rubras, que além de grasnar, ladrava e ainda largava uns palavrões humanos de fazer corar o padre. Quase perdemos a esperança ninguém falava assim lá em casa, pelo menos não em voz alta. Mas, pensando bem, essa vida selvagem poderia ter dado língua afiada ao nosso Tito, como a Mia apanhava pulgas.
E recomeçámos a busca. Dez dias depois, enquanto apanhava ervilhas na horta, ouvi aquele:
Então, como é?
No topo da cerejeira, entre gralhas, estava o meu menino. Comecei o discurso:
Titinho, anda cá à mamã. Tem sementes boas, anda cá que há saudades!
Tito inclinou a cabeça, grandioso.
Todos sentimos tua falta, Titinho até o pai, a Matilde e o Rui e até a Miki. Anda cá!
Ergui o braço, mudando-me lentamente para a árvore… quase lhe toquei, mas
Ó filhos da mãe! disse Tito, com a voz do presidente da junta, e, como uma flecha, juntou-se à voadora e fugiu.
A vida à solta animou-lhe as penas até o inverno começar a bater à porta. Às vezes voltava a espreitar ao quintal, com olhar de quem perdeu as chaves de casa triste, meio descabelado, recusava-se a ser apanhado. Até que decidimos usar a arma de destruição massiva: a Miki. Não sei o que ela lhe disse ao ouvido, mas Tito regressou ao lar, altivo, dando entrada triunfal às cavalitas da sua cadela ruiva, como se fosse o rei do pedaço, e nós ficámos todos felizes até às lágrimas.







