Estava a fazer panquecas em casa, quando um homem estranho entrou, conta agora a toda a gente Dores Margarida.
Na altura, não teve piada nenhuma. Imagine-se: está sozinho, não espera mais ninguém no apartamento. E de repente, aparece alguém vindo do nada! Foi mesmo o que lhe aconteceu.
Já tinha divorciado do marido, Armando, há cinco anos. Vai para os 60. Nunca mais pensou em relações amorosas. Os filhos, vivem longe.
Vivia tranquila. Com os vizinhos, sempre de coração aberto. Por isso, mesmo em tempos menos calmos, tinha o hábito de, às vezes, não trancar a porta. Quem sabe a Rosinha, a vizinha do lado, vinha pedir qualquer coisa. Neste caso, não era a Rosinha. Mas a Dores saiu para levar o lixo, lavou as mãos, deu de comer à gata Lídia, e esqueceu-se da fechadura. Nem tinha medo era de dia, prédio cheio de gente, não era como andar perdida pela serra à noite.
Decidiu então preparar umas panquecas. E, ao pousar mais uma na travessa, deparou-se com um desconhecido na cozinha. Como se tivesse surgido do ar!
Naquele instante, vi a minha vida a passar-me à frente dos olhos. Desde o infantário, tudo. Acredite que acontece. Pensei: Pronto, já está. Nem tenho grande coisa, mas comprei agora a televisão nova, o computador, e ainda não gastei o ordenado. A carteira está no corredor. Ele já deve ter levado tudo e agora vem ver o que mais pode apanhar. Só consegui sussurrar: Leve tudo, mas não me faça mal, tenho netos, gostava tanto de os ver crescer. Não digo nada a ninguém, juro!. E, de repente, ele começa a pedir desculpa. E a explicar o que se passava. Eu só ouvia um zumbido na cabeça. Disse para desligar o fogão. Obedeci sem pensar. Sentei-me. Ele também. E começou a contar: vinha a andar na rua, sem mexer com ninguém, quando um grupo animado o abordou a pedir dinheiro. Preferiu fugir. Nisto, alguém saía da porta do meu prédio. Meteu-se lá dentro e subiu as escadas. Eles atrás, conseguiram entrar também. Não havia tempo para chamar ninguém. Bateu a algumas portas, mas ninguém abriu. Tentou rodar maçanetas, e a minha abriu claro, eu não a tinha trancado. Pediu para eu espreitar à janela. Fui ver e era verdade. Uns tipos duvidosos por ali a cirandar. Acabaram por se ir embora logo a seguir, conta Dores Margarida, ainda assustada.
O homem apresentou-se como Sérgio Alexandre. Quando o medo passou, reparou bem nele. Alto, desengonçado, mas com uns olhos ternos. Se lhe dessem um casaco comprido, parecia o Pai Natal.
Desculpe, não me podia arranjar uma panqueca? Já não como há não sei quanto tempo. Desde que a minha mulher se foi, pediu Sérgio, envergonhado.
Já sem sapatos, mas com o casaco vestido.
E deste-lhe mesmo de comer? Ai, és corajosa! Eu nunca conseguiria, punha-o fora! admirou-se depois a vizinha Rosinha.
Mas a Dores teve um impulso. Pediu só para ele lavar as mãos. O homem nem hesitou, logo à casa de banho. Beberam um chá demorado. Ele contou a vida dele: viúvo, nunca teve filhos, vive sozinho.
No fim, pediu desculpa de novo e foi-se embora.
A Dores sentiu-se como personagem das novelas portuguesas. Ficou a contar e recontar a história ao telefone até sentir um vazio. Talvez devesse ter mantido o contacto? Convidá-lo para mais qualquer coisa? Os bolos dela são famosos, tanto os de cogumelos como os doces.
Mas agora, já foi. No dia seguinte, decidiu mesmo assim fazer bolos. E então ouve uma batida na porta. Tímida. Foi ao óculo, pensava ser a Rosinha. Espreitou e ficou num nervoso miudinho. Num instante arranjou o cabelo com a escova, tirou o robe velho, vestiu apressada o fato de treino. Pôs um pouco de perfume de que já nem se lembrava. Abriu a porta.
O Sérgio estava ali, no limiar. Trazia flores.
Vim só desculpar-me outra vez. Assustei-a, coitada. Tome, flores, e já me vou embora, balbuciou.
Ir embora? Nem pensar! Tenho bolo acabado de fazer, venha provar! disse, sorridente, a Dores.
Ia a subir as escadas, sentia o cheiro… Parece uma pastelaria! Apostei que era aqui. Quem tem sorte é o marido da senhora, suspirou o Sérgio.
Não sou casada. Entre lá, homem! respondeu animada a Dores.
Desde então ficaram juntos. Ele é agora o braço direito da Dores no quintal. Os filhos aceitaram-no, os netos já lhe chamam avô Sérgio. Brinca com eles como se fossem seus.
Viveu muito tempo sozinho, mas agora ganhou nova vida numa família. O Sérgio, que entrou invasor, tornou-se casa.
As amigas da Dores nem acreditam.
Olha só, encontrar assim, nesta idade, um homem decente! E ainda por cima de uma maneira tão insólita entrou porta adentro, imagina! exclamam elas.
A Dores concorda. Mas, desde então, a porta fica sempre bem trancada!






