Cadela quase sem forças protege com o corpo um pequeno ser indefeso, enquanto as pessoas passam ao lado sem ajudar

A cadela mal se aguentava de pé, protegia com o corpo um pequeno novelo, enquanto as pessoas passavam ao largo

Lisboa, Diário de Rafael

Estou sempre atrasado. Prometo a mim próprio que vou planear melhor o meu tempo, mas nunca cumpro. Hoje, então, não podia mesmo chegar tarde a Margarida esperava-me no restaurante, e ela detesta, odeia mesmo, ficar à espera.

A paragem do autocarro já estava à vista e o autocarro quase a chegar. Olhei para o telemóvel e torci o nariz: mais cinco minutos de atraso. Consegui já imaginar a expressão da Margarida, aquele olhar gelado de quem pensa não significo nada para ti.

Então, mexa-se lá! ouvi atrás de mim, com impaciência.

Olhei em volta. A paragem estava cheia e as pessoas esquivavam-se de algo no passeio, uns com ar enojado, outros simplesmente virando a cara. Dei um passo em frente e percebi o motivo.

Mesmo junto ao banco estava uma cadela de porte grande, pelo castanho-ruivo, coberta de sujidade. Os ossos saltavam-lhe à pele. De olhos fechados, parecia suspirar em silêncio. Sob o seu corpo, um pequeno ser, um cachorrinho, quase invisível de tão pequeno, encolhido e a tremer, abrigado junto da mãe, como se fosse um cobertor vivo. A cadela gastava as últimas forças a aquecer e proteger o filhote.

Então, está à espera do quê? Ande! gritava outro impatientemente.

Fiquei parado, sem saber o que fazer. As pessoas seguiam caminho, ignorando a cena. Para elas, era lixo no chão, não vidas à míngua de fome e frio.

Chegou o autocarro. As portas abriram-se com um estalo.

Então, amigo, entra ou não? exclamou o motorista.

Olhei para o autocarro, para o relógio… e para a cadela.

Não. Hoje não vou entrar, respondi pouco audível.

As pessoas entraram, resmungaram, as portas fecharam-se, o autocarro partiu. Agachei-me ao lado da cadela.

Ei, tens que aguentar, disse baixinho.

Ela ergueu a cabeça, olhou-me com olhos de um castanho outonal, profundamente humanos e tristes. O cachorrinho ganhou coragem e soltou um ganido débil.

Engoli em seco e marquei o número da Margarida.

Olá, Rafael? Onde estás? Já estou aqui à espera!

Margarida, vou-me atrasar. Aqui está uma cadela a morrer, com um cachorrinho. Não consigo deixá-los.

A sério?! Por causa de uma rafeira? Já pedi as entradas!

Eu sei, mas

Nada de mas! Liga a alguém e vem já! Não vou ficar sozinha a noite toda!

Desliguei. Suspirei e fui à mercearia mais próxima. Voltei com um pão e um pouco de fiambre, e estendi um pedaço à cadela.

Come, tens que ganhar forças, incentivei.

Ela nem se mexeu, o cachorrinho piava baixinho. O desespero invadiu-me. Nisto, ouvi uma voz suave atrás de mim:

Precisa de ajuda?

Virei-me. Era uma rapariga de casaco cinzento, rosto cansado mas bondoso, saco de compras numa mão. Ajoelhou-se e afagou a cadela com delicadeza.

Coitadinha Está muito mal mesmo. Precisa de veterinário, e já.

Não faço ideia para onde a levar Nunca tive cães, confessei, atrapalhado.

Eu conheço uma veterinária, mora aqui perto. Pode ser que possa ajudar, já tirava o telemóvel do bolso. O pior é levarmos a cadela, está tão fraca

Tirei o meu casaco, estendi-o no chão. Em conjunto, com o máximo cuidado, deitámos a cadela sobre o casaco. O cachorrinho ficou enrolado num lenço grande da rapariga.

Chamo-me Beatriz, apresentou-se.

Rafael.

E ela, como se chamará?

Lua, saiu-me, sem pensar.

O telemóvel voltou a tocar. Margarida. Cortei a chamada.

Já em casa da veterinária, foi um alívio vê-la a agir depressa: soro, uma injeção, instruções claras.

Está desidratada, subnutrida e tem uma pneumonia. Mais uns dias e não resistia. Agora com descanso, comida e remédios, pode ser que recupere, disse-nos.

Mal a veterinária saiu, sentei-me no chão junto à Lua. O cachorrinho encostou-se a ela. A Beatriz fez café; sentámo-nos, em silêncio, a olhar para os animais.

A minha namorada esperava-me num restaurante, desabafei, cabisbaixo. Já deve era estar furiosa.

Aposto que sim, respondeu Beatriz, com um sorriso genuíno.

Ex-namorada, melhor dizendo. Preferiu um jantar a salvar dois seres em apuros. Eu não consegui simplesmente virar costas. Ela lutava com tudo pelo seu filhote, e as pessoas a passar como se não fosse nada.

Beatriz assentiu.

Quando me divorciei, senti o mesmo: parecia que ninguém queria saber. Cada um por si. Questionei-me: será que o mundo é mesmo assim?

Mais uma chamada de Margarida. Atendi.

Ficou maluco?! Já passaram três horas! Ou vens já, ou acabámos!

Olhei para Lua, para o cachorrinho, olhei para a Beatriz. E percebi.

Então acabámos. Desliguei o telefone.

Beatriz olhou-me nos olhos:

Tem a certeza?

Sim. Sinto que nunca estive tão certo, sorri. Ela correspondeu, com um sorriso calmo e genuíno.

Lua suspirou quase um alívio e adormeceu, finalmente tranquila.

A noite foi longa. Lua respirava com dificuldade, por vezes parecia não respirar de todo. O cachorrinho era inquieto. Eu e Beatriz fomos fazendo turnos: tentei fazer tudo sozinho, mas Beatriz abanou a cabeça:

É mais fácil se formos dois. Fico consigo.

Às três da manhã, fui à cozinha. Beatriz aquecia leite para o cachorrinho. Ao ver-me:

Ela está pior?

Mal respira Tenho medo que não chegue ao nascer do sol.

Ela aproximou-se.

Sabes, acho que a Lua já venceu.

Como assim?

Podia ter desistido ali, na paragem. Mas não desistiu. Aqueceu o filho, esperou que alguém reparasse e tu reparaste. E agora está aqui, ao pé do filho, com comida e calor. Mesmo que não sobreviva, já foi salva e conheceu bondade. Percebes?

Fiquei a pensar nas palavras dela.

E tu, Beatriz, de onde surgiu essa força?

Ela sorriu com melancolia.

Também já achei que não tinha importância nenhuma. Depois do divórcio era casa-trabalho, trabalho-casa. Sozinha, isolada. Um dia encontrei um gatinho na rua, miserável. Passei por ele, mas voltei atrás levei-o. Ele não queria saber se era bem-sucedida ou não, só queria saber que eu ali estava. Fez-me sentir viva de novo.

Absorvi algo novo nestas palavras. Sempre me esforcei por agradar: aos meus pais, ao chefe, à Margarida Era tudo planeado. Agora, uma cadela moribunda derrubou os meus esquemas. Entre ser mais uma pessoa que passa indiferente, escolhi ficar. Mudou tudo em mim.

Obrigado por ficares, Beatriz. Não teria conseguido sozinho.

Ela tocou-me na mão.

Também precisava de ver que ainda existe quem se importa. Não estou tão só.

O cachorrinho piou. Voltámos para junto da Lua, que nos olhava com olhos carentes. Sentei-me a seu lado, afaguei-lhe o focinho:

Vá, minha querida, aguenta um bocadinho mais.

A Lua abanou fracamente o rabo, o cachorrinho aninhou-se ao pescoço dela. Soube, ali, que algo dentro de mim tinha colapsado: anos de rotinas, de agradar, de coisas vazias. Deu lugar a algo íntimo, real.

Quando a manhã chegou, com sol tímido através das cortinas, Lua respirava tão calma que parecia outro animal. Estava a salvo.

Uma semana depois, Margarida apareceu à porta com ar arrependido.

Rafael, pensei no que aconteceu Se calhar exagerei. Salvar animais é algo bonito. Voltas para mim?

Na casa ouvia-se o cachorrinho aos saltos com a Lua, agora cheia de energia.

Margarida, não estou zangado. Mas somos muito diferentes.

Por causa de uma cadela?! Um ano juntos, tantos planos

Não foi a cadela. Quando precisei de ti, podias ter dito vem cá, tratamos disto juntos. Mas escolheste ser rígida. Esse foi o teu caminho.

Ela ficou em silêncio, depois virou as costas e saiu.

Fechei a porta. Fui à sala: Beatriz sentada no tapete, a Lua encostada a ela, o cachorrinho adormecido no colo.

Ela foi-se embora? perguntou, sem levantar a cabeça.

Já foi.

Arrependes-te?

Sentei-me ao lado dela.

Nem por sombras. Se não fosse a Lua, ainda estava a viver pela metade trabalho, restaurante, fins de semana programados. Agora percebo o vazio disso tudo.

A Lua ergueu a cabeça, olhou-nos, voltou a deitar-se suspirando de contente. O cachorrinho piou no sono. Senti-me, enfim, em casa. Com pessoas e vidas que realmente importam.

Beatriz apertou-me a mão. Ambos sorrimos.

Lá fora, Lisboa continuava fria, distante. Mas, naquele pequeno apartamento de Benfica, onde uma cadela à beira da morte encontrou abrigo e duas pessoas se encontraram, nasceu, por fim, a verdadeira primavera.

Hoje aprendi que vale a pena parar, contrariar as pressas, escutar o coração. Porque só assim é que a vida ganha sentido.

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Cadela quase sem forças protege com o corpo um pequeno ser indefeso, enquanto as pessoas passam ao lado sem ajudar
Tenho 38 anos e durante muito tempo achei que o problema era eu. Que era uma má mãe, uma má esposa. Que havia algo de errado comigo, porque apesar de dar conta de tudo, sentia que já não tinha mais nada para dar. Acordava todos os dias às 5h da manhã. Preparava pequenos-almoços, fardas, lancheiras. Deixava os miúdos prontos para a escola, arrumava a casa à pressa e seguia para o trabalho. Cumpria horários, atingia objetivos, participava em reuniões. Sorria. Estava sempre a sorrir. Ninguém no trabalho suspeitava de nada. Pelo contrário — diziam que eu era responsável, organizada, forte. Em casa também tudo corria. Almoço, tarefas, banhos, jantar. Ouvia os desabafos dos filhos, respondia a perguntas sobre a escola, resolvia pequenas discussões. Abraçava quando precisavam, corrigia quando era preciso. Por fora, a minha vida parecia normal. Até boa. Tinha família, trabalho, saúde. Não havia nenhuma tragédia visível que justificasse o que eu sentia. Mas por dentro, estava vazia. Não era tristeza constante. Era cansaço. Um cansaço que não passava com sono. Deitava-me exausta e acordava cansada. O corpo doía sem razão. O barulho irritava-me. Desesperava com perguntas repetidas. Comecei a ter pensamentos que me envergonhavam: que os meus filhos talvez estivessem melhor sem mim, que não era capaz, que se calhar há mulheres que nasceram para ser mães, e eu não sou uma delas. Nunca falhava uma tarefa. Nunca chegava atrasada. Nunca “perdia” o controlo. Nunca gritava mais do que o normal. Por isso, ninguém reparou. Nem o meu companheiro reparou. Via que estava tudo “bem”. Se eu dizia que estava cansada, respondia: — Todas as mães se cansam. Se dizia que não me apetecia nada, dizia: — Isso é falta de vontade. E deixei de falar. Houve noites em que ficava fechada na casa de banho só para não ouvir ninguém. Não chorava. Ficava a olhar para a parede e a contar os minutos até precisar de sair e voltar a ser “aquela que aguenta tudo”. A ideia de ir embora apareceu devagar. Não foi drama. Foi um pensamento frio: desaparecer uns dias, afastar-me, deixar de ser necessária. Não por não amar os meus filhos, mas porque já não tinha mais nada para lhes dar. O dia em que bati no fundo não foi especial. Era uma terça-feira. Um dos meus filhos pediu ajuda com uma coisa simples e eu só consegui olhar sem perceber. Tinha a cabeça vazia. Senti um nó na garganta e um calor no peito. Sentei-me no chão da cozinha e não consegui levantar-me durante minutos. O meu filho olhou para mim assustado e perguntou: — Mãe, estás bem? E eu não consegui responder. Naquele momento ninguém veio ajudar. Ninguém veio salvar-me. Simplesmente não pude fingir mais que estava bem. Procurei ajuda quando já não tinha forças. Quando já não conseguia “dar conta de tudo”. O terapeuta foi o primeiro a dizer algo que ninguém tinha dito: — Isso não é por seres uma má mãe. E explicou-me o que eu tinha. Percebi que ninguém ajudou antes porque eu nunca deixei de funcionar. Porque enquanto uma mulher faz tudo, o mundo acha que ela pode continuar assim. Ninguém pergunta como está quem nunca cai. Não foi uma recuperação rápida. Não foi magia. Foi lento, desconfortável e com culpa. Aprender a pedir ajuda. Dizer “não”. Não estar sempre disponível. Perceber que descansar não me faz uma má mãe. Até hoje cuido dos meus filhos. Continuo a trabalhar. Mas já não finjo ser perfeita. Já não acho que um erro me define. E acima de tudo — já não acredito que o desejo de fugir me tornava má mãe. Estava apenas exausta.