Clara estava deitada no sofá, com os olhos presos no teto. Os pensamentos inquietos não a deixavam dormir. Como conseguiria repousar, se a sua pequena filha estava doente? Pensava consigo: Porque fui colocar a Maria no infantário? Se tivesse ficado mais um ou dois dias em casa, talvez não tivesse apanhado esta virose
O coração apertava-se-lhe no peito, o ar fugia-lhe dos pulmões. Levantou-se e foi até à janela. O céu estava cinzento, coberto por nuvens carregadas, que pairavam sobre a vila. Era já o terceiro dia seguido de uma chuva miudinha, típica do outono, que mal parava. Clara suspirou fundo. Ouviu mexer-se a sua filha, a Mariazinha, na cama; ela gemeu baixinho no sono e tossiu logo de seguida. A mãe correu até ela e tocou-lhe na testa, sentindo o calor abrasador. Não era preciso termómetro para perceber que a febre tinha voltado a subir. Ligando suavemente a luz de presença, Clara pegou no termómetro, colocou-o debaixo do bracinho da menina e esperou.
Quarenta! Meu Deus, o que faço agora?
Mariazinha abriu os olhos.
Mãe, está tão quente
Já vou, minha querida. Eu sei que está quente, mas vai passar
Pedro, o marido, acordou também e sentou-se ao lado delas. Clara apressou-se a preparar mais uma dose de antipirético. Mas a febre não descia. Perto do amanhecer, a ambulância chegou e levou mãe e filha para o hospital, iluminando o pequeno jardim com aquelas luzes azuis intermitentes.
A enfermeira olhou com compaixão para Clara, tão pálida e assustada, e afagou-lhe o braço com doçura, ao mesmo tempo que aplicava habilmente uma pequena agulha com soro no braço de Mariazinha.
Não se preocupe, vai correr tudo bem. Já vamos ajudar a sua menina.
Clara apenas suspirou em resposta.
Ao fim de algum tempo, Mariazinha sentiu-se melhor. Abriu os olhos e pediu água. Clara reparou então que, na cama ao lado, estava uma menina de olhos muito grandes e azuis, de uns seis anos, tão frágil e magra, tão loirinha e despenteada. Usava uns collants cheios de buracos e uma t-shirt já muito desgastada. Debaixo da cama, em vez de chinelos, estavam uns ténis com proteções azuis.
Olá!
Olá. Vocês chegaram esta noite? perguntou a menina.
Sim, chegámos de madrugada.
Como se chama?
Sou a tia Clara e esta é a Maria. E tu?
Eu sou a Vera.
Estás aqui há muito tempo?
Sim, já há bastante. Mas na sexta-feira já vou embora.
Ainda falta um bocadinho, hoje ainda é segunda-feira.
A tua mãe está contigo?
Não respondeu Vera com um suspiro envelhecido. A minha mãe morreu quando eu era pequenina. O meu pai começou a beber e também já morreu. Por isso fui para o lar de crianças
Ela deu de ombros, como quem já se habituou às dificuldades.
Vivo lá mas gosto mais daqui. Aqui dão comida boa e os mais velhos não me batem.
Vera calçou os ténis, prontos para o pequeno-almoço.
Vai haver pequeno-almoço, querem que traga para vocês?
Não é preciso, obrigada, minha querida. Eu vou buscar.
Clara olhou para Vera enquanto esta se afastava e sentiu o coração mais apertado ainda. Outra mãe, na cama ao lado, comentou baixinho com um sorriso triste: Boa menina, tão meiga Que vida difícil teve.
Antes que Clara respondesse, o telemóvel tocou.
Estou, mãe?
Como estão vocês, filha? E a Maria?
Mãe, estamos no hospital.
Ai, meu Deus, o quê?
Não te preocupes. A febre subiu muito, mas agora está melhor, já conseguimos baixar. Pensam que é bronquite. Está a dormir agora.
A mãe de Clara chorou ao telefone: A minha menina, coitada! Em que hospital estão? Vou já aí. O que devo levar?
Oh mãe, esqueci-me dos meus chinelos e do pijama cor-de-rosa da Maria. Ah, mãe aqui está uma menina do lar de crianças. Podes trazer champô, sabonete? E, se ainda tens as coisas da Sofia, umas camisolinhas, um casaquinho, umas leggings E chinelos de quarto, tamanho de seis anos, pode ser?
Deixa comigo. Levo isso tudo.
No dia seguinte, Maria já brincava animada com a sua nova amiga. Clara foi até ao corredor e abordou a enfermeira de serviço:
Desculpe, mas a Vera não tem ninguém que a venha visitar?
Não. Quando tiver alta, vêm buscá-la para voltar ao lar.
Ela pode tomar banho?
A enfermeira sorriu tristemente:
Mais do que poder, ela devia, mas infelizmente não temos mãos para tudo
Nessa noite, Vera foi lavada dos pés à cabeça, vestida com um pijama bonito e uns novos chinelos cor-de-rosa com cães bordados. Parecia outra menina, tão radiante que até brilhava. Guardou todos os presentes debaixo da almofada, e os chinelos, esses, ficaram bem escondidos debaixo do colchão.
Vera, porque escondes as coisas? perguntou Clara, espantada.
Para não roubarem
Clara apenas pôde suspirar fundo.
Quando apagaram as luzes, Vera fechou os olhos e sonhou que passeava por uma rua cheia de sol e verde, de mãos dadas com Maria e com a tia Clara do outro lado. Desejava tanto ter também ela uma mãe e um pai, que a afagassem antes de dormir, a aconchegassem num pijama quentinho, lhe dessem um beijo de boa noite e a fizessem rir com cócegas. Prometia a si mesma que ajudaria em tudo: lavaria pratos, limparia o chão, cuidaria da Maria, aprenderia as letras e os números. Só queria ser amada. Só queria uma mãe.
Deu um suspiro pesado. No lar, ninguém lhe batia, mas a educadora, Dona Helena, estava sempre a gritar, os rapazes gozavam com ela, roubavam-lhe as coisas e a comida. Um dia, deixou cair o prato de papa no chão e, como castigo, trancaram-na numa despensa escura e fria. O Vitinho ficou à porta a rir: Agora ficas aí com os ratos! Vera morria de medo de ratos. Chorou encostada à porta até adormecer encolhida no chão frio; aí é que apanhou a constipação, que a trouxe ao hospital.
Estas memórias fizeram brotar-lhe lágrimas silenciosas, escorriam-lhe quentes pelas faces Vera soluçava Até que sentiu uma mão a afagar-lhe o cabelo. Abriu os olhos.
Tia Clara?
Não chores, minha querida, não chores Vai correr tudo bem, eu prometo.
Clara embalou-a nos braços, como só uma mãe consegue fazer.
Tia Clara Queria tanto que fosses minha mãe
As lágrimas correram agora pelo rosto de Clara. Nesse momento, não pensou, só sentiu e decidiu: falaria com a família.
A mãe aceitou de braços abertos. Também a sogra ficou contente; ela própria crescera sem pais. Só o marido mostrou algum receio.
Tu estás a perceber que isto é para a vida toda?
Sei bem, mas se não o fizer, nunca vou aquietar o meu coração, entendes?
Ele desviou o olhar.
Quero conhecê-la.
Está bem.
Nessa tarde, foram juntos ao hospital. Pedro pegou Maria ao colo e beijou-a, emocionado.
Minha menina, já tinha tantas saudades tuas e voltou-se para Vera: Ora bem, esta é a Vera.
Ela ergueu os olhos para ele.
Muito gosto!
Olá, Vera! Que bom conhecer-te.
De repente, algo mexeu dentro de Pedro. Olhou para Clara, os olhos marejaram. Acenou com a cabeça em sinal de assentimento.
Passaram-se dois meses. Uma carrinha parou junto ao lar de crianças. Clara e Pedro saíram do carro. As crianças amontoaram-se à janela:
Vera, Vera! Estão aí os teus pais!
Vera saiu a correr, de sorriso aberto.
Olá, Vera! Viemos buscar-te! Preparada para vires para tua casa?
O pequeno coração de Vera bateu forte, inundado finalmente de felicidade:
Sim, mamã!!!
E assim, ela aprendeu, e nos ensinou, que a esperança renasce quando há quem abra o coração para dar e receber amor. Afinal, todos precisamos apenas de uma família para o mundo ser mais bonito.







