O António perdeu a irmã. Foi para o interior, para uma aldeia perto de Viseu, fazer o funeral dela. Em casa, ficou D. Filomena, sua esposa, porque a saúde já não lhe permitia grandes viagens. Filomena sabia que o marido voltava nesse dia e já deixara tudo pronto: puré de batata e bifes de frango nas travessas. António entrou na cozinha.
Chegas mesmo à hora do jantar, comentou Filomena.
António estava calado e olhava a esposa de uma forma estranha.
O que foi? perguntou Filomena, intrigada.
Não voltei sozinho, confessou António.
Como assim? Com quem é que vieste? insistiu ela, surpresa.
Ofertas para a esposa
Filomena Martins sabia que tinha chegado o tempo que tanto lhe tinham falado a velhice. Agora passava tardes deitada, fitando o tecto e recordando tudo o que vivera, sobretudo nos últimos três anos.
Nessa altura, ainda o marido estava vivo. Tinha acabado de fazer sessenta e dois anos. Quando morreram a irmã, lá na terra, António foi sozinho. Ela era viúva e só tinha a neta. António ficou encarregado de lhe dar um funeral digno. Mas voltou com uma companhia inesperada…
Assim que entraram, António adiantou uma menina magra, encolhida.
Filomena, esta é a neta da minha irmã. Chama-se Mariana.
Filomena olhou a rapariga com um olhar sério, lançou um olhar grave ao marido, mas disse finalmente:
Entra, Mariana. Vou já pôr a mesa.
A dona da casa já previra tudo; tinha o jantar quase pronto, puré de batata e bifes.
Senta-te, Mariana. Come à vontade, disse Filomena, tentando soar mais meiga possível.
Na cozinha e na sala
A miúda começou a comer, enquanto Filomena fez sinal ao marido e ambos foram para o quarto.
António, explica-me isto, pediu ela em voz baixa, encostando a porta.
Filomena, deixa que a Mariana fique connosco, não tem ninguém, suspirou António.
E a tua sobrinha?
A mãe da Mariana nem se deu ao trabalho de ir ao funeral da própria mãe. Foi minha irmã que criou a neta desde os três anos, António suspirou fundo. Agora que ela se foi… a Mariana está sozinha.
António, somos dois reformados. A saúde já não é como dantes, lançou ela, olhando para a porta. Quantos anos tem?
Doze.
Vamos ter de cuidar dela até ser uma mulher.
Temos a pensão e algum apoio dela. Daqui a seis meses vendo a casa da minha irmã, está praticamente tratado. Não era grande coisa, mas algum dinheiro vem. A Leonor e o Ricardo ajudam se for preciso, são nossos filhos.
Eles têm os próprios problemas. Os filhos deles nossos netos já vão todos à escola. Daqui a pouco estão a casar-se. Mesmo vivendo longe, tínhamos pensado ajudá-los.
Filomena, mas a Mariana é minha sobrinha-neta.
Nem de sangue é, António. exclamou com um gesto de desdém. Anda, deixa lá, o jantar está a arrefecer.
Quando os dois voltaram à cozinha, Mariana olhou-os assustada, percebeu que falavam sobre ela. Levantou-se:
Dona Filomena, por favor, não me mande embora. Só vos tenho a vocês. Eu ajudo no que for preciso.
Pronto, fica connosco.
Passou um ano. António já cá não está. Vieram os filhos despedir-se e depois, à mesa com a mãe, conversaram. Mariana foi para casa dos vizinhos, percebeu que aquela conversa era de adultos, ela não pertencia ali.
Mãe, para que precisas da miúda? perguntou Leonor.
É sobrinha-neta do António, e Filomena chorou. E não tem ninguém.
Podemos arranjá-la num lar, sugeriu a filha. Tu já não tens saúde, mãe. Para quê esse trabalho nesta idade?
Fico completamente sozinha. Vocês quase não vêm cá. E eu preciso de companhia. Ao menos sempre tenho alguém ao pé de mim, chorou.
Leonor, disse Ricardo, pondo a mão no ombro dela. Sozinha não é opção. Se a miúda a ajuda e está bem, deixa-as estar juntas.
Ficaram mais um dia com a mãe e voltaram às suas vidas, os afazeres eram muitos, três filhos cada um.
Filomena ficou só com a sobrinha emprestada. Mariana era uma menina especial. Aos treze ajudava em tudo, mesmo não sendo neta verdadeira.
Mas a saúde de Filomena piorava. Outra vez Leonor e Ricardo fizeram uma visita.
Isto está a ficar complicado. Mal consigo andar, desabafou Filomena, já no dia seguinte à chegada deles. Quero deixar a casa para a Mariana.
O quê, mãe? exclamou Leonor, chocada. Tens seis netos, a Catarina tem catorze, a Mariana do Ricardo já faz quinze. Qualquer dia casam-se, bem vês!
Nenhuma delas quer saber de mim…
Agora é verão, têm férias, decidiu logo a filha. Eu ligo-lhes, vêm cá ficar contigo o verão todo.
Três dias depois, chegaram mesmo as netas, Mariana e Catarina, e os pais regressaram a Lisboa. Mariana voltou a ser a de fora, ainda bem que os vizinhos eram simpáticos e receberam-na de novo.
As netas estavam radiantes porque ficaram com a avó sem os pais.
Logo no primeiro dia, ficaram na rua até tarde. Quando regressaram, Filomena estava deitada e não havia jantar pronto. Ao pedir para a levarem à casa de banho, as netas torceram o nariz não estavam para essas coisas, mas tiveram de fazê-lo.
Durante a noite, Filomena pediu água algumas vezes até que Mariana acedeu. Quando quis ir novamente à casa de banho, discutiram entre si para ver quem a levava.
De manhã, foi preciso preparar o pequeno-almoço e alimentar a avó. Felizmente ainda conseguiu ir sozinha à cozinha.
Dois dias passaram e o ambiente foi ficando cada vez pior. Quando Filomena pediu para a ajudarem a tomar banho, perderam a paciência. Ligaram para casa e no dia seguinte foram-se embora.
Filomena ficou outra vez com a Mariana, aquela que não era bem neta. Nem sempre conseguia levantar-se sem ajuda.
Mais um ano passou assim.
Agora, toda a casa depende da Mariana de 15 anos. Vai para o nono ano, tira boas notas, cuida da avó e mantém a casa impecável. Mas há pensamentos cada vez mais pesados na cabeça de Filomena:
Nem sangue meu é, mas não me abandona. Cuida de mim. Também não tem para onde ir. Daqui a três, quatro anos tenho mesmo de deixar-lhe a casa. Os meus filhos vão perceber.
Arrastou-se até ao telefone. Era moderno, António oferecera-lhe nos seus sessenta anos e ensinara-a a usar. Procurou o endereço do notário, ligou e marcou.
No dia seguinte, o notário veio lá a casa e fez toda a documentação.
Logo depois, Filomena ligou aos filhos a contar a decisão. No dia seguinte, apareceram logo. O apartamento era T3, segundo andar, num bairro prestigiado do Porto.
Mãe, não tens a certeza que fizeste bem? perguntou logo Leonor. Vens viver connosco. Ficas um mês em minha casa, outro mês em casa do Ricardo, vendemos o apartamento.
E a Mariana?
Mariana pode ir para um lar. Tens netas, elas cuidam de ti.
Já vi como cuidam Com a Mariana sinto-me mais segura. E não quero andar de casa em casa.
Ricardo, disse Leonor, isto não está certo.
Se a mãe está bem com a Mariana, deixa estar. Ela é que sabe. Se decidiu deixar-lhe a casa, está decidido.
Ficaram uns dias e foram-se embora. Mariana voltou dos vizinhos.
Avó, por que vieram o tio Ricardo e a tia Leonor?
Só vieram fazer-nos uma visita, sorriu Filomena. Senta-te aqui, tenho uma coisa para te dizer.
Avó, pareces tão misteriosa.
Vai ali ao aparador e traz-me a pasta cinzenta.
A rapariga trouxe e sentou-se ao lado dela.
Deixei esta casa para ti. Está aqui tudo.
Mas avó, porquê? Eu nem sou tua neta de verdade.
Mariana, para mim és a mais próxima de todas. Só te peço: nunca me deixes.
Avó, como podes dizer isso? Eu não tenho ninguém mais importante do que tu…







