Na valeta coberta de neve junto à estrada foram abandonados recém-nascidos cachorrinhos. Restavam-lhes apenas algumas horas de vida

Num buraco na neve ao lado da estrada foram abandonados cachorrinhos recém-nascidos. Faltavam-lhes apenas umas horas de vida.

Os pequenos lutavam com todas as forças para não sucumbir ao frio, encostando-se uns aos outros numa tentativa desesperada de guardar algum calor. Esta manhã, a notícia espalhou-se como fogo em mato seco pela internet: junto à estrada nacional, mesmo em cima da neve, tinham sido largados uns filhotes indefesos.

As criaturinhas empilhavam-se umas nas outras, tentando conservar mais um pouco de vida e calor. Apesar de o calendário português já apontar para a primavera, o inverno teima em não ir embora. No centro da cidade do Porto, os termómetros marcavam uns miseráveis 7, e fora da urbe, naquelas estradas perdidas lá para Trás-os-Montes, a temperatura descia alegremente para 10 ou menos. Sério, quantas horas teriam aguentado naquele alguidar gelado?

A covinha na neve devia ter uns vinte centímetros de profundidade. O calorzinho dos corpos derreteu um pouco da neve por baixo deles é sinal de quanto tempo ali se aninharam, abraçados, tentando enganar o gelo. Mas o fado quis outra coisa. Um senhor chamado António, dono de uma oficina ali perto, foi quem encontrou os cachorrinhos e, sem pestanejar, trouxe-os para dentro de portas. Depois, confesso, ficou atarantado sem saber ao certo o que fazer a seguir mas o principal estava feito: não os deixou morrer de frio como estaladiços. Muito obrigado, António, por não teres passado ao lado.

Os bichinhos eram mesmo minúsculos.

Cinco alminhas vivas. Três rapazes e duas meninas. Ou, quem sabe, quatro machos e uma fêmea não se conseguiu perceber logo. António ligou, qual central de emergências, a todos os voluntários que conhecia, mas ninguém podia acolher os bebés naquela noite. O abrigo municipal estava fora de questão tinham duas ou três semanas de idade e, com essa tenra idade, nem sonhar com vacinas; só quando fizerem uns bons dois meses.

Empurrá-los assim para um canil seria quase como assinar uma sentença. A doença aparece logo ali à porta e, coitaditos, dificilmente escapariam. Infelizmente, já temos cicatrizes desta história. E nas famílias de acolhimento responsável, com cuidados veterinários, também não havia lugar. Ainda havia por lá a Lira e o Nero, dois filhotes a recuperar de parvovirose.

A noite foi passada ali, na recepção da oficina do António. Contou-nos que, pelas imagens de uma câmara, se via uma mulher (mas custa-me chamar-lhe senhora) a largá-los directamente na neve, durante a noite. Saiu do carro, pousou os miúdos e seguiu viagem, deixando-os ao abandono.

O que terão sentido estas criaturinhas, arrancadas da mãe sem cerimónias, como bebés lançados para o colo da miséria, e simplesmente ali deixados para morrer gelados? Só nos resta dizer: Deus é testemunha destes actos.

Agora, vamos dar o nosso melhor para que estes cachorrinhos conheçam um verdadeiro lar, com gente de coração tão quente que até desafia o inverno transmontano. Eles merecem calor não só nos ossos, mas, sobretudo, na alma.

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– Твоето място е в кухнята, а не на семейната снимка, – усмихна се сватовицата и свали фотоапарата.