Ela apostou a sua liberdade contra os milhões dele!

Ela apostou a sua liberdade contra os milhões dele!

Tudo isto começou no estranho entardecer de um clube de campo luxuoso nos arredores de Cascais, onde o ar denso emanava notas de vinho do Porto, a fumaça doce de charutos ao lume e aquele cheiro surreal a borracha queimada e promessas vazias.

Cena 1: O Desafio
Vítor um destes senhores da alta sociedade, num fato azul-marinho impecavelmente engomado estava rodeado dos seus amigos endinheirados. Nas mãos dançavam as chaves de um supercarro dourado, reluzente mesmo ao crepúsculo. Ao avistar Beatriz, jovem manobrista de cabelos apanhados, lançou uma gargalhada cortante e atirou-lhe as chaves.
**«Duvido que alguma vez tenhas posto os pés num carro destes, quanto mais sentada ao volante»,** piou Vítor, olhando de esguelha para os amigos.

Cena 2: A Aposta
Beatriz agarrou as chaves numa só mão, sem tremer nem desviar o olhar. Vítor, a exalar perfume forte de tabaco importado, aproximou-se:
**«Dou-te cinquenta mil euros se conseguires estacionar este bicho à moda antiga naquele fiapo de espaço entre dois Ferraris. Tens coragem?»**
Os amigos sussurravam, proseando em círculos enquanto tilintavam copos de espumante. O desafio parecia impossível: basta um deslize e o prejuízo chegava às nuvens.

Cena 3: Tudo ou Nada
Beatriz deu um passo à frente, o olhar negro a perfurar o de Vítor.
**«Vamos tornar isto realmente interessante. Cem mil euros.»** O tom era glacial, mas sem hesitação. **«Se perder trabalho para si como motorista pessoal, de graça, durante cinco anos.»**
O olhar de Vítor faiscou. Via já Beatriz como sua criada silenciosa e submissa.
**«Feito! As testemunhas não faltam»,** sorriu, um sorriso de quem se julga dono de tudo.

Cena 4: No Limite
Beatriz escorregou para o couro do banco do condutor. O motor rugiu, grave e profundo. Uma câmara fantasmagórica registou o reflexo dela no espelho retrovisor olhos duros, pulso de gelo, nenhuma dúvida. Engatou a primeira sem vacilar. O carro disparou, voando em direção ao exíguo espaço…

Final: Como tudo acabou?

Um segundo. Outro. Todos ficaram petrificados; só se ouvia o ranger onírico dos pneus e um redemoinho de fumo branco dançando no ar pesado. O supercarro dourado, numa lentidão de sonho, deslizou de lado, roçando os Ferraris a milímetros de distância. Parou bem no centro, num milagre geométrico. Impecável.

Beatriz desligou o motor. De uma serenidade impossível, saiu da viatura e aproximou-se do mudo Vítor.

**«Aliás»,** disse tranquilamente, devolvendo-lhe as chaves, **«da próxima vez, evite julgar o condutor pelo uniforme. O meu pai foi campeão nacional de ralis. Cresci nos circuitos.»**

Vítor, pálido, tirou o talão do bolso com dedos trémulos. Perdera mais do que dinheiro: perdera a vaidade desmedida. E Beatriz, aceitando o cheque dos cem mil euros, limitou-se a virar costas e caminhar para a sua velha bicicleta encostada ao muro. Aquela noite, a sua liberdade valia mais do que nunca.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

3 × 2 =