Eles riram do seu casaco barato, até descobrirem a verdade

Olha, tenho de te contar isto como se estivéssemos a tomar um café juntos. Foi numa daquelas noites chiques num hotel mesmo de topo ali na Avenida da Liberdade, onde só entra quem está mesmo à vontade com contas bancárias a brilhar em euros. Tudo luzia: os lustres, as jóias, o tilintar dos copos de cristal nem parecia Lisboa, parecia filme.

A Leonor estava um luxo, vestida num vestido dourado de cortar a respiração, ao lado do marido, o Ricardo, que não largava um tinto reserva caríssimo. Eles, claro, a fazer sala, a comentar os convidados como quem analisa jóias numa montra. Mas o ar de superioridade deles mudou no segundo em que chegou uma rapariga, a Matilde. Nada a ver com as outras, vinha com um casaco bege já velhote, e uns sapatos tão simples que quase ninguém olharia duas vezes.

A Leonor, toda esnobe, atravessou-se logo à frente dela, a olhar de cima a baixo, focada mesmo nos sapatos. O Ricardo ainda se inclinou e disse, alto e bom som, como quem quer que toda a sala ouça:
Achas que hoje as senhoras da limpeza vieram dar uma espreitadela ao salão errado?

A Leonor então largou esta:
Ó menina, se queres sopa gratuita vai ali ao Centro Social de São Bento, que é já a três ruas. Estás a estragar o ambiente da minha festa.
A Matilde nem pestanejou, ficou de olhos presos nos da Leonor, com um ar tão sereno e seguro que parecia impossível naquele cenário de exibicionismo.

De repente, aparece o senhor Fonseca, o diretor da fundação um daqueles homens de fato feito à medida, e andar seguro de quem manda. Nem deu cavaco ao casal. Foi direto à Matilde, parou à frente dela, e inclinou a cabeça, com todo o respeito do mundo:
Dona Matilde, perdoe o transtorno, o seu jato chegou mais cedo do que prevíamos. O contrato da compra do grupo já está pronto, só falta a sua assinatura.

Acreditas? A expressão da Leonor ficou em choque total, parecia que ia engolir o vestido, e o Ricardo deixou cair o copo de vinho no mármore partiu-se em mil bocados, como no final dum filme.

A Matilde, sem pressa, pegou na caneta que o assistente lhe dava e assinou ali mesmo, sem sequer tirar o casaco simples. Depois virou-se para a Leonor, baixinho mas firme com aquela frieza cirúrgica que só quem está habituado a decidir coisas grandes consegue:
Ah, Leonor, só para saberes: esta festa já não é tua. Acabei de comprar este edifício e a empresa do teu marido. E, sinceramente, o teu conceito de estética não encaixa nos meus planos. Segurança, podem levar estes senhores para fora?

A Leonor e o Ricardo ficaram parados, sem saber onde meter a cara, enquanto dois seguranças super educados os acompanhavam até à porta.

É daquelas histórias que devíamos contar sempre: nunca julgues ninguém pelo casaco que leva vestido. Nunca se sabe quem é a pessoa, e amanhã pode ser ela a decidir o que acontece à tua vida.

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