Verdadeira mulher
Mariana, onde te meteste?! Traz os pepinos! Vou ter mesmo de esperar uma eternidade?!
O Manuel já estava a perder a paciência e não era para menos, que até a sua voz soava mais alta. Mas eu, Mariana, estava ocupada. Pintava cuidadosamente o olho esquerdo, contemplando as pestanas que cresciam com o rímel novo e caríssimo, que comprara ontem só porque a minha amiga Lídia jurou que era “coisa de cinema”. A sombra e o delineador faziam o meu olho parecer duas vezes maior quase assustador, mas não tencionava parar por aí.
Para ver os pepinos de molho na banheira, nem tempo tinha.
Tudo isto porque, há uma semana, o Manuel aquele mesmo Manuel que hoje está na cozinha a fechar frascos de pepinos para o inverno declarou-me, do nada, a sua vontade:
Quero que sejas uma verdadeira mulher!
E entregou-me o seu cartão, cheio das poupanças que conseguiu juntar num ano.
Fiquei boquiaberta, sem saber se havia de rir ou chorar.
A minha primeira reação queria mesmo era fazer uma cena. Ora essa! Se o Manuel tinha dinheiro guardado assim, nas costas do orçamento familiar, quem me garante que não andou a mentir noutros assuntos? Num segundo a cabeça cheia de suposições! Mas depois, quase sem respirar, sentei-me no banco da cozinha e esqueci o caldo verde que fervia no fogão.
O que é isso de ser verdadeira mulher?!
Apeteceu-me pegar no serviço novo, que a minha sogra Olga me tinha oferecido há poucos dias presente pelo qual suspirava há anos! Quando lhe agradeci, chorei de alegria, e ela, a rir:
Ai, Marianita! És mesmo uma tontinha Por ti faço tudo! Só peço que sejam felizes!
Nunca percebi porque o fez, mas não me explicou. Abraçou-me forte, depois o filho e os netos, e despediu-se. Ela gostava pouco de demoras; dizia sempre que a casa precisava dela.
Nunca a contrariei. Levava os meninos aos fins de semana, controlava as birras, e em cada visita tentava arranjar-lhe um presente, pois que sempre fora tão correta e nunca me cobrou nada.
E tinha razões para o fazer. Se até os meus familiares eram complicados, que poderia esperar de alguém que só me viu uma vez antes do casamento? Da primeira vez, o Manuel levou-me com o filho conhecer a mãe. Fiquei uns minutos a olhar para o miúdo a dormir no carro, sem coragem de sair.
Achas mesmo que a tua mãe me vai aceitar com uma criança?! Não fui a primeira a ser rejeitada na vida. Mal nasci o Olavo, a minha própria tia pôs-me fora de casa, por vergonha. A tua mãe vai-me receber de braços abertos? Ai Manuel, tu és um sonhador
Não faças filmes antes da hora. Talvez te surpreendas.
Eu não queria surpresas, mas lá peguei no puto, e segui atrás dele.
A Dona Olga surpreendeu-me. Cumprimentou-me secamente, olho-me de cima a baixo, e então estendeu os braços:
Confias? Deixa-o comigo, vou deitá-lo. Deve estar exausto
E eu, sem saber porquê, entreguei-lhe o meu filho. Ele nem protestou, só cochichou qualquer coisa no ouvido da avó e voltou ao sono.
Desde a primeira palavra nova, chamou-lhe “avó”. E ela, sem reclamar, ganhou lugar no meu coração para sempre.
Tornei-me mãe cedo, com dezoito anos. Toda a aldeia sabia quem era o pai, o António Falcão, rapaz dado a maus modos. Mantinha distância dele, mas o António era habilidoso com as palavras, sabia como enredar uma moça. E, onde não arranjava com meiguice, conseguia à força.
Eu não calei.
Numa noite, vinda da cidade, o autocarro só me deixou no concelho ao lado. Tive de ir pelo campo, porque o motorista disse que não era táxi.
O António apanhou-me com o velho Renault e quis dar boleia. Eu recusei, mas já era tarde
Voltei a casa com o vestido rasgado, em lágrimas. Nem entrei pela porta fui logo para o anexo, tentando até de manhã limpar da minha pele o cheiro e os beijos do António. Chorei, zanga, insónia. E só pensava que a mãe não podia saber. O médico já me avisara que o coração dela não aguentaria emoções.
Nunca soube do que me tinha realmente acontecido. Estava eu grávida de cinco meses, e já ela partia durante o sono, deixando-me só no mundo.
A tia, que viera ajudar, mal entrou, repudiou-me e ao bebé:
Meteste-te nisso sozinha, vais-te desenrascar! Nem penses em apoio! Por que não foste logo à guardas? Assim ao menos forçavas casamento, como boa menina! Agora, desgraça tua, não a minha!
Eu, a chorar sem parar, nem percebi logo o que ela dizia. Só passado uns dias, ao perceber que ninguém me ajudaria, fui à GNR.
O António acabou por ser preso. Quando contei tudo, viram que já havia várias crianças dele pela aldeia sete, imagine-se! As mães, umas a esconjurar, outras, com o tempo, foram contando.
A mãe do António amaldiçoou-me à frente de todos, desejando mal ao meu filho.
Mas a aldeia nunca me deixou na mão. Deitaram piche no portão dos Falcão, pouco tempo depois fizeram-nos vender o casarão e partir.
O meu filho nasceu forte como um campeão. Teve o nariz e as orelhas do meu pai, que só conheci de retrato, e os caracóis e olhos castanhos da avó.
Os vizinhos ajudaram como puderam trouxeram roupa, uma alcofa, até comida. O dinheiro da mãe tentei dividir bem, sabendo que educar sozinha um filho era tarefa de gigante.
Quando a cabeça acalmou, a tia voltou com os irmãos da mãe. “Vera, tens de sair desta casa! É nossa. Enquanto a tua mãe viveu, tudo certo, mas agora precisamos de dinheiro e vamos vender.”
A parte da mãe deram-me, mas no campo nada arranjava com aquilo. Tive mesmo de ir para o Montijo, arriscar na cidade, longe dos vizinhos que se preocupavam comigo.
Foi então que o senhor Gouveia, o agente da GNR, bateu-me à porta:
Há aqui perto uma senhora, a Dona Conceição, a vender metade da casa. Fica-te bem, e até podes trabalhar. Posso apresentar-vos?
Agradeço tanto só não o abracei por vergonha.
Com a Dona Conceição, dei-me bem desde logo.
Não te preocupes. Sou sossegada, só não gosto de barulho. Se quiseres trabalhar, ajudo com o pequeno. Mas só para trabalhar, não para sair à noite, entendes?
Há trabalho no bairro?
A minha amiga procura funcionária para o supermercado. Queres que a recomende?
Sim!
Foi no supermercado que conheci o Manuel, que veio ver a mãe e entrou a comprar umas coisas. Enquanto lhe fazia as contas, dei por mim a contar-lhe a minha vida. Eu, que nunca fui faladora, a desabafar! Manuel escutou-me até ao fim sem me interromper, e disse adeus com um sorriso de quem não me ia esquecer.
Demorou a voltar também não era fácil. A mulher dele tinha desaparecido, deixado dois filhos pequenos, um deles ainda bebé. Ele é que ficou a tomar conta deles, porque a mãe cuidava do pai doente. Os filhos choravam pela noite, órfãos de mãe presente ou de memória dela.
Manuel não sabia como contar-me tudo, por isso foi rondando o supermercado até ganhar coragem. Só que eu também não o esquecera, e tratei de saber a história dele pela Dona Conceição.
Quando ele finalmente voltou, atirei:
O mais velho tem quantos anos?
Vai fazer três.
E o mais novo?
Tem um ano. Igual ao meu Olavo.
Manuel
Apresenta-me os teus filhos, depois logo se vê.
E assim começámos.
Casámos discretamente, só em família. Fomos todos juntos, com os miúdos, à praia. Fui mais feliz do que as crianças.
A sorte, claro, não veio sem luta. Quando o mais velho ficou doente, passei quase dois meses no hospital. A sogra ficou com os outros. Depois apareceu a ex-mulher do Manuel a exigir as crianças. Mas eu não as deixei. Fui à aldeia primitiva, pedi conselho ao Gouveia, e enfrentei tudo, até ser sua mãe no papel, também.
A tal mãe foi-se, sem esperar decisão do tribunal, e eu aliviei quando a sogra me abraçou depois da sentença:
Agora é que fico descansada com os meninos!
O tempo passou. Os filhos cresceram. Continuava a mesma Mariana um pouco tímida, muito sorridente, mas vivia-se sabendo: era sossegada até lhe tocarem na família. Aí, defendia-os como leoa.
Agora vinha o assunto: eu, “não digna de ser mulher”?
Não dormi nessa noite depois do cartão. Levantava-me, espreitava o espelho ao candeeiro. Rodava-me, tentava ver o que me faltava. Não perguntei ao Manuel, amuada. Na manhã seguinte, deixei as crianças na escola e na creche, e fui à Lídia.
Lídia, que faço?!
Parecida comigo, Lídia foi logo à pilha de revistas femininas. Havia lá conselhos para tudo: dieta, roupa, maquilhagem Segundo elas, só era mulher quem fazia tudo certo. E mesmo assim, duvidoso!
Não comprei um laço para o cabelo, mas fui com a Lídia à cidade. Trouxe cosméticos, um pijama bonito, uns sapatos tão lindos que tive medo de os tirar da caixa perto dos rapazes.
O Manuel não percebeu ou não ligou aos meus esforços.
Estava quase a acabar a maquilhagem quando abre a porta da casa de banho e pumba!, espetei o pincel no olho. Naquele momento pensei: quem quiser ser “verdadeira mulher”, que aguente estas dores!
Mariana, estás bem?! o Manuel assustou-se ao ver-me aos pulos, a chorar.
A culpa é tua! resmunguei, percebendo que era melhor lavar tudo do que estragar mais a cara. Queres uma mulher?! E eu sou o quê?!
O Manuel, percebendo finalmente, abraçou-me:
Calma, tonta! Deixa cá ver.
Enquanto me lavava o rosto, ia dizendo:
Posso ser um bronco, mas tu também! Sabes que não tenho jeito para palavras Se tivesses perguntado. Ficas a inventar tudo sozinha e ficas ofendida sozinha!
E os euros no cartão? Disseste que não era mulher completa!
Eu queria era que usasses o dinheiro por ti! Sempre a poupar para os outros, nunca para ti! Só te queria ver mimar-te, como qualquer mulher que entra numa loja e sai de sacos cheios, sem pensar!
Deu-me uma vontade imensa de rir.
Ria tanto, que quase chorei. Os miúdos chegaram a correr, acharam que chorava, armaram um berreiro. Só me acalmei depois de os acalmar.
Depois de deitar as crianças, saí para o alpendre. Olhei para o céu, rosto limpo e sorrindo, a lembrar-me da confusão do dia.
Pronto! O último dorme! Manuel sentou-se ao meu lado.
Cobriste bem?
Nem imaginas! Os pepinos vão ficar de topo!
Ainda bem! Vão fazer-me tanta falta sorri, colocando-lhe a mão na barriga.
A sério? E só agora me dizes?! O Manuel ficou radiante e abraçou-me.
Como havia de dizer? Estás sempre nos teus pepinos!
Tentei protestar, mas ele não deixou.
Primeiro, beijou-me, para que não me esquecesse do que faz uma mulher, depois apertou-me junto do peito, onde a alma respira, e ali fiquei, sabendo bem onde era o meu lugar.







