Felicidade Livre à Portuguesa

Felicidade Livre

Diogo, espera! Por favor, pára

Ele abrandou o passo, virou-se.

Atrás dele, pelo caminho já marcado até à pequena casa de dois andares feita de tijolo, vinha Maria Inês dezasseis anos, saltos altos, saia, casaco branco curto e um lenço de lã, de onde escapavam caracóis castanho-escuros. Ficava-lhe bem com aqueles olhos, entre verde e mel, a brilhar como se estivesse sempre à beira de chorar. Aquilo dava-lhe um ar frágil, quase a pedir proteção.

Ela escorregava de vez em quando, assustava-se, mas não abrandava.

Inês, não corras! Olha que está escorregadio! gritou Diogo, com fingida severidade. Aliás, correr até te fica bem. Tão corada! Tão bonita! Já estavas a precisar. Estás finalmente a melhorar!

Maria Inês sorriu, aproximou-se. Diogo deu-lhe a mão; ela agarrou-a, piscando-lhe o olho.

O que é que querias? perguntou ele baixinho, olhando à volta, enquanto lhe dava um beijo rápido na face. A tua mãe não queria que andássemos juntos. Chegou a prometer-me umas palmadas… suspirou, meio derrotado.

Maria Inês baixou os olhos com ar triste, mexendo na alça da mochila. Mas voltou a sorrir.

Diogo, eles não mandam nada! É conversa fiada! Vens comigo hoje ao cinema? sussurrou, timidamente. Já tenho bilhetes. Olha!

Descalçou uma luva, abriu a mão. Duas notas estavam bem presas nos dedos.

Diogo tomou-lhe a mão nas suas mãos grandes, sentiu o calor, acariciou-lhe os dedos delicados.

Cinema, é? Não sei… Tenho coisas para fazer fingiu-se distraído, franzindo o sobrolho. Maria Inês puxou a mão de volta, meteu-a apressadamente na luva. Pronto, pronto, levaste a melhor. Vamos ao cinema. assentiu, resmungando Que filme é esse? Mais um romance?

Não! Um de guerra. O João foi ver e disse que é muito fixe! abanou a cabeça energicamente. Mas eu não quero ir sozinha, mete medo, e as minhas amigas não alinham.

O João? Ele fala sempre… Vai vê-lo com ele então, é fácil encolheu os ombros Diogo, levantando o queixo com orgulho. Se gostas tanto do que ele diz, pronto

João Freitas era colega de turma da Maria Inês inteligente, sempre devorando livros, afável, nunca fazia asneiras, aprendia, participava, e também corria atrás dela. Isso aborrecia Diogo. Mas João, simples e calmo demais, nunca seria rival à altura para um rapaz como ele. Maria Inês gostava de rapazes cheios de vida; Diogo era isso mesmo.

Só que agora, para Diogo, o caminho para os Santos família de Maria Inês estava fechado. Mas para João, bem aberto. A mãe, Dona Paula, recebia-o sempre com um sorriso…

Eu não sigo ninguém! disse Maria Inês, zangada. Se eu te chamei, é porque não quero outros. Então, vais ou não?

Corou, semicerrando os olhos.

Diogo sentiu-se feliz. Acenou que sim.

Claro que vou, não fico com medo sozinho! Mas vê lá se não me pões a tremer demasiado! Depois nem durmo brincou. Olha que se a minha avó Madalena sabe…!

Piscou-lhe o olho, ela riu e abanou a mão:

Ai, tu não tens medo de nada! Pronto, encontro-te lá à porta do Cine-Imperial às seis e cinquenta. Agora vou. Mãe decidiu fazer caldo verde, está tudo cheio de couves na cozinha… Tenho mesmo de ir.

Maria Inês voltou-se e enfiou-se a pequenos passos para casa.

Ela morava a duas casas da de Diogo. Cresceram juntos: corriam atrás dos pardais, escalavam as cerejeiras do quintal, apanhando as bagas proibidas pelos adultos, vendo quem cuspia mais longe os caroços. Frequentaram a mesma escola; ele era dois anos mais velho. As outras raparigas invejavam Maria Inês por aquele amigo bonito, sempre pronto a ajudar, mas para ela era apenas natural para que haveria ele de não a notar, se sempre ali estiveram um para o outro?

No inverno de há dois anos, Maria Inês, num passeio de bicicleta, sentiu-se mal, tudo lhe girou, caiu e partiu uma perna. No chão, chorava, cheia de medo sempre tivera pavor à dor, desde pequena. Até tirar uma farpa do dedo era uma guerra para Dona Paula. E agora uma perna quebrada…

Diogo apareceu logo, como sempre. O grito dela era o seu chamado de alarme. Pôs-na às costas, correu para casa; ao chegarem, a perna inchara tanto que tiveram de cortar a bota. Ela agarrou-se-lhe tanto ao ombro que deixou marcas, mas ele aguentou.

Veio a ambulância, levaram-na ao hospital. Ali disseram que a perna era problema menor o coração é que estava doente. Escreveram-lhe um rol de diagnósticos em latim e ficou internada.

A neve na rua derreteu e Inês só então começou a reanimar.

A perna doía, coçava debaixo do gesso. Zangava-se, chorava, discutia com a mãe. Mas tudo mudava com Diogo por perto. Ele inventava jogos: desenhava mapas sobre a cama, guiava pequenas embarcações ou carros de madeira por mares e continentes distantes, faziam planos de viagens, vinham-lhe com construções, faziam desenhos…

Quando tirarem esse gesso, vamos dar a volta ao país! Para onde queres ir primeiro?

Ela encolhia os ombros.

Para o pátio… Mãe não deixa, diz que o coração não aguenta. Acho que até esqueci como se anda

Isso são tretas protestava ele, convencido. É só mexer, trabalhar! Olha o meu avô Manel, voltou da guerra sem andar quase, parecia um pinguim, só que depois veio cá um médico, daqueles conhecidos, pôs-no a mexer e voltou ao normal! Vais ver que contigo também vai dar! Só não fiques parada, mexe-te Inês, vá lá!

Provocava-a, roubava-lhe a boneca, obrigando-a, de muletas, a ir atrás dele.

Inês, tu já não tens idade para bonecas! Pareces a Dona Rosa da mercearia, sempre a queixar-se das maleitas Anda! Vamos dançar mais logo!

Inês! Já para a cama! Diogo, que disparate é este?! entrava a mãe, aflita. Sabes que ela não pode ficar agitada. Vai para casa, por favor! Agora vem cá o João, vai ajudá-la com os trabalhos!

Ó Dona Paula! Ela vai acabar um bacalhau seco de tanto tempo na cama! Ela precisa é de viver, de sorrir! teimava Diogo, defendendo-se da mãe.

E nós decidimos como vivemos, não tu. Vai, Diogo. O João já chega para ajudar a Inês, tanta matéria que perdeu… dizia Dona Paula com um suspiro. Tudo por tua causa

O João? Aquele rato de biblioteca? Pois, está-se bem… resmungava Diogo, mas levava logo um murro suave de Maria Inês.

Às vezes, ao sair, a mãe de Maria Inês apanhava Diogo no corredor, encostava-o à parede, segurando-o pelo casaco para o ameaçar.

Olha lá, meu menino. Não voltes cá com as tuas ideias! A Inês tem uma doença séria, nem filhos pode ter, os médicos disseram! Eu não quero perder a minha filha! E nem te atrevas a contar-lhe isto, ela sonha com uma família cheia de filhos… Agora volta para tua casa!

Só quando chegou a casa, Diogo compreendeu realmente: Maria Inês era doente, mesmo doente…

Vai morrer, passou-lhe pela cabeça como uma linha vermelha, um raio assustador.

A avó Madalena, da soleira da porta, assistiu ao neto a despejar-lhe um balde de água gelada pelas costas.

Diogo! Que estupidez é essa? Ficas doente! correu por uma toalha, preocupada.

Ele respirou fundo, abanou a cabeça, as ideias acalmaram-se um pouco.

Isto não pode ser assim! Ela ainda tem de viver muito. E vai ser feliz, eu prometo! jurou para si próprio.

A avó espreitou, mas não decifrou o que ele murmurava.

Diogo, não barulho agora. Vai dormir, que já é tarde. suspirou ela, bocejando.

Já vou, avó. Vou só tomar um chá. Dorme bem, minha velhinha.

Viviam os dois sozinhos. Da mãe, Diogo sabia pouco. Diziam que desapareceu, que morreu. A avó Madalena nunca explicou contou sempre de modo confuso, não queria que ele soubesse que a mãe o tinha abandonado.

De vez em quando Maria Inês era levada aos melhores médicos, e Dona Paula tudo fazia para ouvirem que ela podia ser curada. Mas nada mudava.

Não se trata por agora, repetia o médico. Talvez um dia. Mas, até lá, nada de agitação, nada de preocupações. Há tanta gente assim, habituem-se.

Pois, pois assentia a mãe. O João tem dito o mesmo, já lhe ganhou o jeito à leitura, controla tudo

Mãe! a filha ficava ruborizada, incomodada.

Está muito bem servida, Maria Inês! gracejou o médico, apreciando o João. Pode ser bom marido! Vá, até à próxima.

Maria Inês passou a ter medo de viver mais do que era preciso, sempre vigiada pela mãe não podia suar, correr, nada.

No cinema, o cheiro a tabaco, o calor. Agarrada ao braço de Diogo, Maria Inês chorava baixinho durante a sessão.

Inês, não chores! Vai tudo correr bem! sussurrava Diogo, acarinhando-lhe o cabelo.

A vizinhança mandava calar, incomodada.

Diogo, não me sinto bem. Vamos sair?

Vamos sim.

Dois vultos a descer o corredor, uma réstia de luz pela porta entreaberta, e logo o escuro de volta.

Cá fora, Inês piscava os olhos, deslumbrada pelas luzes.

Senta-te. Eu trago água! apressou-se Diogo.

A funcionária do cinema lançava-lhes olhares reprovadores:

Tão novos… Já casados são? Oh, para onde vai esta juventude

Ela devia pensar que Maria Inês estava grávida.

Ainda não casámos. Mas vai acontecer! declarou Diogo, ao regressar.

O quê? Maria Inês abanou-se, estava tonta. Estás a brincar, não?

Agarrou-lhe o braço, virou-o para si.

Não brinco com isso. Ia falar depois, mas já que assim é Maria Inês, vou para a tropa. Quando voltar, casamos. Lembras-te que te prometi ver o mundo? Não vamos a todo, mas pinguins hão-de ser certos! Prometi?

Ela assentiu.

Então vou cumprir. E não importa o que os outros dizem! Temos que querer muito tua cura, e eu quero. Vamos encontrar os melhores médicos, fazer tudo certo. E depois havemos de ter um filho! dizia apaixonado, com vontade de a beijar ali, mas a bilheteira nem disfarçava a vigilância.

Bebe a água, vamos lá para fora. propôs, puxando-a de mansinho, mas ela soltou-se.

Mas eu nunca poderei ter filhos? olhou-o de frente, os olhos molhados.

Diogo hesitou. Prometera à mãe dela não contar

Agora não penses nisso… Um dia se vê. Vamos andar um bocadinho?

Ela acenou em silêncio, deixou que ele lhe ajudasse a vestir o casaco. Depois virou-se, cerrou os olhos, mordeu o lábio. Sentiu-se um farrapo nunca teria uma família verdadeira. E agora?

Depois Diogo tratou de animá-la, levou-a ao Kiko Vicente, que lhes emprestou a mota. Puseram-lhe o capacete, sentou-se à frente, Diogo atrás. Ela sentiu-lhe as mãos protetoras na cintura, o calor, a estrada, o vento Os problemas desapareceram, só restavam eles e o motor.

Nessa noite tiveram de chamar o médico. Uma injeção resolveu.

Deviam cuidar melhor da rapariga! suspirava ele na ombreira. E agora vêm os exames

Estavas com o Diogo? ralhou a mãe, depois.

Sim. O Diogo é sincero, conta-me tudo, até até que não posso ser mãe

Ela começou a chorar.

Vou partir-lhe a cara! o pai, senhor António, cerrou os punhos.

Não te atrevas! gritou Maria Inês. Ele é o melhor, não é como o teu João!

Para a cama já! vociferou António, apagando a luz.

Dona Paula proibiu Diogo de voltar. Acusava-o de tudo.

Eu vou estar com ela, e vamos ser felizes! E vou curá-la! Vocês a fecham, mas ela precisa viver! Deixem-na gritava Diogo, batendo quase à porta da casa dela, até ser ameaçado de cadeado.

O senhor António saiu com uma caçadeira.

Vai-me atirar, senhor António? Força! Só a minha avó me ama de verdade! Ninguém precisa de mim. Digam-lhe só que fui embora, assim não sofre.

Diogo ficou firme, de frente para o cano da arma. Dona Paula levava as mãos à boca, horrorizada.

O pai encarou-o, abaixou a espingarda.

És tolo, Diogo. Pode ser que aprendas na tropa. Vai-te embora! Inês dorme, não a acordes. Vai, pelo menos pela tua avó.

Eles dois tinham decidido que a culpa era toda de Diogo ele é que a levou a passear, ele é que a empurrou para a vida. Fora com ele!

Não te preocupes, mulher. O Diogo vai para a tropa, esquece. dizia António. Vai ver se a Inês ouviu isto.

Dona Paula foi até ao quarto. Não viu que Maria Inês, descalça, esperava junto à janela, vendo Diogo afastar-se.

Ouve-me! Olha para mim! gritava ela por dentro.

Diogo virou-se, fingiu ajeitar o boné, mas acenou-lhe, só para ela. Ela percebeu…

Diogo só regressou quatro anos mais tarde. Maria Inês não soube, ninguém lhe disse, mas tinham-no enviado para Angola, e ali perdeu-se de todos durante longos tempos. Avó Madalena morreu sem o ver mais. A Maria Inês não foi ao funeral, ficou em casa.

Todas as cartas que ela escrevia não chegavam.

Não responde, filha? perguntava a funcionária dos correios, Dona Augusta. Outros andam ocupados… Olha, ali vai o João, que homem feito, parece já professor! Vai falar com ele!

Ele regressou num outono molhado. A casa estava escura, a cheirar a carvão húmido e pano molhado. O telhado tinha dado de si, o piso de cima estava com manchas. O cachecol da avó estava onde sempre esteve…

Diogo sentou-se à mesa, fechou os olhos. Tudo igual, mas tudo diferente. Ou talvez ele fosse outro homem.

Passou a noite em branco e, pela manhã, foi à casa de Maria Inês. Dona Paula estava a estender roupa no quintal.

Dona Paula! atirou o cigarro para o chão. Está igualzinha!

Parecia-lhe que tinha passado uma vida.

Quem? a mulher fitou-o, míope.

Sou eu o Diogo. Posso entrar?

Sem esperar resposta, empurrou o portão e caminhou. O quarto da Inês estava com as cortinas fechadas, as plantas tinham desaparecido.

Ela já cá não está, Diogo. Estás vivo, afinal? ergueu-se Dona Paula, como se não soubesse se gostava de o ver. Voltaste, enfim O mundo está estranho, sim

Para onde foi? ele lançou-lhe um olhar duro, procurava um cigarro, mas não acendeu.

Para Aveiro. O João entrou na universidade de lá, ela foi com ele.

Que tem o João a ver?

Ora, são marido e mulher. Maria Inês não quis ficar, disseram-lhe que tinhas morrido. João tem cá família, conseguiu arranjar-lhes vida. Disse que ela está bem, estuda. O João acompanhou-a, especialmente quando morreu a tua avó, ela ficou muito em baixo O João ajudou tanto, foste tu que nunca mais apareceste… Não os procures Diogo, por favor. Deixa-os ser felizes…

Olhou-o, hesitando.

A Inês nunca gostou desse rato de biblioteca! resmungou Diogo, cuspindo para o lado.

Isso era antes. Sem ti, repensou. Ele cuida dela. Peço-te, deixa-os.

Diogo saiu, entrou-lhe aquele silêncio antigo. Dona Paula entrou também, o marido lia à mesa. Agora até ele aprendera a gostar de livros, graças ao João.

Uns dias depois, Diogo arrumou umas poucas coisas, fechou a casa, trancou o portão. Foi ao cemitério, ficou silencioso junto à campa da avó Madalena, tirou o crucifixo e deixou-o ali.

Desculpa, avó

Partiu, sem voltar atrás.

Diogo tornou-se duro, destemido até à teimosia. Não sabia dizer não, não tolerava injustiças, lutava pelo que queria. Fez a vida à sua maneira nem sempre limpo, negociando aqui e ali, controlando negócios, conhecendo gente. E procurava sempre.

Encontrar Maria Inês era fácil: Aveiro, universidade, João brilhava sempre. Mas ele procurava outra coisa: soluções.

Passaram oito anos naquele mundo de negócios (primeiro peças para oficinas, depois antiguidades, depois mercearias e importações). Diogo chegou aos fabricantes de equipamentos médicos, conheceu os melhores médicos do país e do estrangeiro.

Porque te interessa tanto assuntos do coração? queria saber o doutor Ramos, cardiocirurgião do Santa Maria. Isso é importante. Se precisares, temos bons especialistas.

Nada demais. Só quero ajudar uma amiga. Ela precisa viver bem.

Que idade? Parente?

Não, só uma rapariga, dois anos mais nova que eu, desde miúda doente do coração, não sei o diagnóstico certo.

Então traz exames novos, não podemos trabalhar sobre papéis velhos!

Diogo acenou, pegou a pasta e saiu.

Uma madrugada, Clara, a mulher com quem agora vivia, apareceu-lhe à frente no corredor, atando o robe contra o frio. Diogo andava sempre a abrir janelas, queria ar fresco.

Vais aonde, Diogo? Já são cinco da manhã

Desculpa, não queria acordar-te. Tenho que ir fora uns dias. Não te preocupes, se alguém ligar, diz que não sei quando volto. Não tragas cá ninguém, está bem?

Ela ergueu as mãos, como quem se rende, sorriu, soprou-lhe um beijo.

Como quiseres, patrão. Mas devias comer primeiro.

Não tenho tempo.

Ela ouviu fechar a porta e o som ritmado das botas nas escadas Sabia que ele não a amava. Nunca disfarçou. Mas juntos sentiam-se seguros: ele com uma mulher forte, ela com um homem bonito e rico. Quem precisa de mais, neste mundo complicado?

No restaurante, do outro lado da mesa, o doutor Rocha baixo, seco, nervoso tremia as mãos, roía as unhas.

Diogo, aceitamos sempre as tuas ofertas, equipamento faz-nos falta, mas dossiês, histórias clínicas são outra conversa! Que ideia é essa? Vens dos sociais, não? Eu não revelo nada! Maria Inês Santos? Não E quanto aos fornecimentos, fala com a direção

Tenha calma, doutor Jorge! Diogo sorriu. Não sou polícia, nem nada disso. Quanto pede por uma informação? Não seja forreta. Inês é minha velha amiga, sofre com o coração e o marido tem-na fechada em casa, só lhe dá remédios, não a deixa fazer nada. Trabalha, só para dizerem que a esposa do chefe é ativa. Não a deixa ir ao teatro, ou ao cinema só permite o que é seguro. Ela murcha, ele lucra com a doença dela: casa, carro, férias tudo por causa dela! Ela anda de autocarro, ele tem carro novo. Fizeram-na arranjar um filho, só para dizer que têm sucessor. E esse filho já é tratado como um velho. Ele brilha de saúde porque mama tudo ao redor. O leite, os cafés, tudo para ele.

Diogo falava lento, arrastando as palavras, mas queria berrar, protestar. Mas ali não, era local fino

Você é perigoso, Diogo! Muito perigoso! murmurou o médico, encolhendo-se. Mete-se na vida dos outros! Quer entrar num mundo que não é o seu! Isso é criminoso!

Criminoso é enriquecer à custa de uma doente! trovejou Diogo. O público virou-se a olhar. Não quero saber do teu mundo! Quero salvar a Inês, e ao miúdo também! Dá-me só a ficha clínica. Eu pago-te bem. Fechamos negócio: salvas a tua família, tenho o que quero. O teu filho vai para a universidade, assim garantes o futuro. Vamos lá fora falar direito.

Na rua húmida, entre o vento, o médico acendeu um cigarro. Caminhou um pouco, depois virou-se.

Quanto?

Diogo disse o número, o médico acenou, entregou-lhe as folhas veio preparado, estava só a fazer render o preço. Diogo sorriu, largou o envelope.

Obrigado. O material chega para a semana.

E desapareceu.

Maria Inês caminhava devagar por uma rua pequena, a pensar em nada. Amanhã era dia de consulta, João já marcara para uma hora má, parecia de propósito. À noite reunião da escola do filho, João dizia que não podia ir. E dentro de uma semana viriam os pais do João muita coisa para preparar. Mas, por agora, só andar e respirar. Faz bem.

Passou uma mota, uma rapariga gritava de alegria agarrada ao rapaz. Maria Inês sorriu, recordando-se das fugas com Diogo, das casas a passarem depressa por eles

Inês! ouviu, parou. Inês, olá!

Virou-se. Era Diogo.

Preciso mesmo de falar contigo. É urgente! puxou-a para um banco perto. Vamos sentar.

Diogo Dioguinho Diogo! sussurrava ela, tocando-lhe no peito, nos ombros, quase não acreditando. A minha avó Madalena bem dizia

Maria Inês chorava e Diogo abraçou-a firme, mas doce. Era seguro, era bom. Estava ao lado dela agora sentia isso.

Onde conversamos? Num café? sugeriu ele.

Para quê? Vem a minha casa. O João e o Valentim já chegaram. O nosso filho. Vais gostar dele.

Eu não quero ir a tua casa. O assunto é só teu.

Ok, ali tem uma tasca.

Sentaram-se. Diogo hesitou mas começou:

Inês, tens de vir comigo. Vamos tratar dos documentos. É preciso fazer um tratamento fora, conseguir permissões

Onde?

O meu amigo, doutor Ramos, tem médicos bons, capazes de curar o teu coração. Uma operação, e mudanças para melhor! E o João deixará de te fechar, de te limitar

Ele só se preocupa comigo, Diogo. Não penses mal dele

Eu sei bem tudo. Inclusive que ele anda sempre no teu carro, sei tudo, Inês. Não importa. Já paguei tudo, estamos só à tua espera. Lá fora temos médicos ótimos, portugueses também. Ramos

Espera, Diogo. Conta-me de ti. Casaste? O que fazes? Mudaste tanto… Nem te reconheceria, mas ficaste mais bonito ainda

Sim? questionou Diogo, num tom rouco.

Ficaste mais misterioso. Intimidante. Não és criminoso, pois não?

Já fiz de tudo. Comecei de baixo, não te minto. Arranjamos negócios, houve confusões. Agora sou fornecedor, trabalho aqui e ali. Aprendi inglês. O teu Valentim devia estudar também!

O João arranjou-lhe explicador, tem aulas privadas. Foste a casa, viste como está?

Não interessa, Inês. Não estamos aqui para isso! Os médicos já esperam por ti. Deixa, eu trato da licença.

Por alguma razão, Diogo sentia o tempo a apertar.

Inês? Valentim está à tua espera, já passa da hora do jantar. Ficas à conversa num café?! João apareceu do nada. Eu vim por aqui, vi-te. E este Diogo? A sério

O rosto de João ficou de pedra, puxou a mulher.

Espera, João. Diogo queria falar-me. Não chegámos a tudo

Maria Inês sentiu um frio, temia algo de mau.

Inês, vai apanhar ar! Mete a pastilha sob a língua! ordenou João, enquanto Diogo seguia atrás.

Em casa, era fresco, cheirava a sopa. O filho, curioso, cumprimentou Diogo.

Diogo, apresentou-se cordialmente.

O miúdo olhou o pai à espera de instruções.

Vai jantar ao quarto, temos que falar. mandou João.

Maria Inês levou o tabuleiro, beijou o filho antes de sair.

Na cozinha, João pousava os pés sobre outra cadeira, ocupando espaço.

Serve-lhe uma almôndega. És casado? atirou, a mastigar cebolo.

Não. Arranjei uma clínica fora do país para Inês. Podem operar o coração. Ainda é raro, mas estão à espera dela. Vai melhorar tanto, vai voltar a ser como antes. Inês! Porque não dizes nada?

Vai, serve chá ao Valentim.

João esperou que ela saísse.

O que é que queres, afinal? Chegas sem avisar, queres levá-la para fora, meter-lhe medo. E depois? E nós? E se ela morre? Vai-se perder, ficamos nós? Já temos a nossa vida, não precisamos de salvadores. Cuida-te a ti!

Vais dar-me lições? Diogo levantou-se, ficou por cima de João. Ela não é um objeto! Tem direito a tentar ser feliz, a viver, não a morrer à conta de sacrifícios. Gostas de andar no carro dela, não? Ela vai poder conduzi-lo sozinha. É vergonhoso, João, envergonha-te! Maria Inês vai tornar-se ela própria, finalmente

Não vou, Diogo. Eu fico. Esta é a minha vida. Tenho medo, Diogo, tenho medo de morrer O Valentim ainda é pequeno. Estou bem assim.

Ela abraçou-o, encostou a cabeça às suas costas.

Vamos lanchar, meninos. Temos sobremesa! sorriu. Depois vais para casa, sim?

Diogo não quis chá; pegou na gabardine e saiu sem se despedir.

Na rua, a empurrar desconhecidos, não percebia como se pode rejeitar uma vida melhor. Vendera metade do que tinha, deu tudo por ela. Em vão.

Teve audiências atrás de audiências com médicos, implorou, pesquisou, fechou acordos e nada.

Tentaste provar ao João que eras melhor, que ela seria sempre tua? Enganaste-te. Perdeste. pensou amargurado.

Em casa, Clara esperava-o acordada.

Olá disse baixinho, no mesmo robe velho. Fiz sopa, queres provar? Acho que está boa

Ela aproximou-se dele, grande e ainda gelado, abraçou-o forte.

O que foi? estranhou Diogo.

Tive medo que não voltasses. Que ficasses com ela

Clara choramingou, cerrou os olhos, aninhou-se nele ainda mais.

Meu amor! Achas que ia deixar-te? Que disparate! E Diogo sentiu-se leve, retirado de cima dele um peso enorme. Não devia nada a ninguém, podia amar Clara, casar, ter filhos, ser feliz a seu modo. Outros têm as suas vidas.

É tão simples deixar-se ser feliz!

Clara observava Diogo a comer a sopa com apetite, sorria satisfeita. Naquela casa começava, enfim, uma nova família. E ela tinha disso a certeza.

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