O pai dela casou-a com um mendigo porque ela nasceu cega — mas o que aconteceu a seguir deixou toda a gente boquiaberta.

Ao olhar para o meu diário e recordar os momentos que transformaram a minha existência sinto a necessidade de escrever a história da Inês a minha querida esposa. Ela nunca tinha visto o mundo com os olhos mas percebia o seu peso em cada respiração que dava. Nascida sem visão numa família que dava grande importância às aparências muitas vezes se sentia deslocada como uma peça que não encaixava num quebra-cabeça bem montado. As suas irmãs Leonor e Beatriz recebiam elogios pela sua beleza luminosa e pelo seu andar gracioso. Os visitantes maravilhava-se com o fulgor dos seus olhares e a sua postura refinada ao passo que a Inês ficava esquecida quase invisível no canto.

A mãe dela era a única que lhe mostrava algum afeto verdadeiro. Porém quando faleceu com a Inês a ter apenas cinco anos tudo mudou na casa. O pai que antes falava com doçura ficou distante e fechado em si mesmo. Nunca mais a chamava pelo nome. Referia-se a ela de maneira indiferente como se reconhecer a sua presença fosse já um constrangimento.

A Inês não comia com a família. Permanecia num quartinho nos fundos onde aprendeu a orientar-se pelo toque e pelos ruídos. Os livros em braille serviam-lhe de refúgio. Dedicava horas a passar os dedos por aqueles relevos que lhe contavam aventuras de mundos muito maiores que o seu. A imaginação passou a ser a sua melhor amiga.

Ao completar vinte e um anos em vez de uma celebração o pai dela entrou no quarto com um pedaço de pano dobrado nas mãos e anunciou secamente Amanhã casas-te.

Ela ficou imóvel. Com quem perguntou baixinho.

É um homem que dorme diante da capela da aldeia respondeu o pai. Tu és cega. Ele é pobre. É o que convém.

Ela não pôde escolher. Na manhã seguinte numa cerimónia breve e fria a Inês foi dada em casamento. Ninguém descreveu o marido. O pai simplesmente a empurrou à frente e disse Agora ela pertence-te.

Eu o João era esse homem. Conduzi-a a uma simples carroça. Viajámos calados durante muito tempo até chegarmos a uma pequena cabana junto ao rio afastada do bulício da aldeia.

Não é muita coisa disse-lhe eu ao ajudá-la a sair. Mas é seguro e aqui sempre serás respeitada.

A cabana de madeira e pedra era modesta mas transmitia mais calor do que qualquer lugar que a Inês conhecesse antes. Na primeira noite fiz-lhe chá dei-lhe a minha manta e deitei-me junto à porta. Nunca levantei o tom de voz nem a lamentei. Sentei-me e perguntei Que histórias gostas de ouvir.

Ela pestanejou surpreendida pois ninguém lhe tinha feito tal pergunta.

Que comidas te alegram Que sons te fazem sorrir.

Aos poucos dia a dia a Inês sentiu renascer a vida dentro de si. Todas as manhãs levava-a à margem do rio e descrevia o nascer do sol com palavras cheias de poesia. O céu fica corado dizia eu como se guardasse um segredo recém-descoberto.

Descrevia-lhe o chilrear dos pássaros o murmúrio das folhas o aroma das flores bravas que cresciam por ali. Sobretudo ouvia-a com atenção. Naquela casinha simples a Inês encontrou o que nunca conhecera a verdadeira alegria.

Começou a rir de novo. O coração dela antes fechado ia-se abrindo. Eu assobiava as canções que ela gostava contava-lhe contos de lugares distantes ou simplesmente ficava calado com a mão entrelaçada na dela.

Certo dia debaixo de uma árvore antiga ela perguntou João foste sempre mendigo.

Fiquei calado um momento e respondi Não. Mas escolhi viver assim por um motivo.

Não expliquei mais e ela não pressionou. No entanto a curiosidade ficou-lhe na cabeça.

Passadas algumas semanas a Inês foi sozinha ao mercado da aldeia. Eu tinha-a acompanhado antes com calma ensinando-lhe o caminho. Ela andava com confiança quando uma voz a interpelou A rapariga cega a fingir ser dona de casa com esse pobre-diabo.

Era a irmã Beatriz.

A Inês endireitou o corpo. Estou feliz replicou.

A Beatriz troçou Ele nem é mendigo. Tu não sabes de nada pois não.

Ao voltar inquieta esperou por mim. Quando entrei ela perguntou com voz serena mas decidida Quem és tu de verdade.

Ajoelhei-me ao lado dela segurando as suas mãos. Não queria que descobrisses desta forma. Mas tens direito à verdade.

Inspirei profundamente. Sou filho de um governador regional.

Ela não se mexeu. Como.

Abandonei esse mundo porque cansei-me de que só vissem o meu cargo. Queria ser amado pelo que sou. Quando soube de uma rapariga cega que todos rejeitavam percebi que precisava de a conhecer. Apresentei-me sem revelar quem era na esperança de que me aceitasses sem o fardo da fortuna.

Ela ficou em silêncio recordando cada ato bondoso que eu lhe tinha dedicado. E agora quis saber.

Agora voltas comigo para a quinta como minha esposa.

No dia seguinte uma carruagem apareceu. Os criados inclinaram-se quando passámos. A Inês agarrada à minha mão sentiu medo misturado com admiração.

Na grande quinta parentes e serviçais juntaram-se cheios de curiosidade. A mulher do governador aproximou-se. Eu anunciei Esta é a minha esposa. Ela conseguiu ver-me quando mais ninguém via o meu verdadeiro eu. Ela é mais genuína do que qualquer pessoa.

A mulher olhou para ela e depois abraçou-a com carinho. Bem-vinda a casa minha filha.

Nas semanas seguintes a Inês aprendeu as tradições da vida na quinta. Preparou uma biblioteca para cegos e convidou artistas e artesãos com limitações a mostrar o seu trabalho. Tornou-se um exemplo querido por todos símbolo de coragem e bondade.

Nem todos a receberam bem. Alguns cochichavam Ela é cega. Como pode representar-nos. Eu ouvi esses comentários.

Numa festa oficial levantei-me e falei para todos Só aceitarei a minha posição se a minha mulher for totalmente respeitada. Se não a aceitarem irei embora com ela.

Um silêncio de espanto tomou conta do salão. Depois a esposa do governador disse Que fique claro a partir de hoje que a Inês pertence a esta família. Desprezá-la é desprezar a nós todos.

Seguiu-se um silêncio longo até que irromperam aplausos fortes.

Nessa noite a Inês estava no terraço do nosso quarto a escutar o vento que trazia a música pela quinta. Antes vivia no silêncio. Agora era uma voz que todos ouviam.

Embora não visse as estrelas sentia a sua luz no coração um coração que por fim tinha encontrado o seu lugar. Tinha passado a vida na sombra mas agora brilhava.

Ao terminar de escrever isto percebo que a lição que retiro é que o amor verdadeiro não depende de aparências ou títulos mas de ver o outro com o coração. Na minha vida aprendi que a aceitação e o respeito mútuo podem superar qualquer preconceito e que a verdadeira riqueza está na bondade que oferecemos e recebemos.Ao olhar para o meu diário e recordar os momentos que transformaram a minha existência sinto a necessidade de escrever a história da Inês a minha querida esposa. Ela nunca tinha visto o mundo com os olhos mas percebia o seu peso em cada respiração que dava. Nascida sem visão numa família que dava grande importância às aparências muitas vezes se sentia deslocada como uma peça que não encaixava num quebra-cabeça bem montado. As suas irmãs Leonor e Beatriz recebiam elogios pela sua beleza luminosa e pelo seu andar gracioso. Os visitantes maravilhava-se com o fulgor dos seus olhares e a sua postura refinada ao passo que a Inês ficava esquecida quase invisível no canto.

A mãe dela era a única que lhe mostrava algum afeto verdadeiro. Porém quando faleceu com a Inês a ter apenas cinco anos tudo mudou na casa. O pai que antes falava com doçura ficou distante e fechado em si mesmo. Nunca mais a chamava pelo nome. Referia-se a ela de maneira indiferente como se reconhecer a sua presença fosse já um constrangimento.

A Inês não comia com a família. Permanecia num quartinho nos fundos onde aprendeu a orientar-se pelo toque e pelos ruídos. Os livros em braille serviam-lhe de refúgio. Dedicava horas a passar os dedos por aqueles relevos que lhe contavam aventuras de mundos muito maiores que o seu. A imaginação passou a ser a sua melhor amiga.

Ao completar vinte e um anos em vez de uma celebração o pai dela entrou no quarto com um pedaço de pano dobrado nas mãos e anunciou secamente Amanhã casas-te.

Ela ficou imóvel. Com quem perguntou baixinho.

É um homem que dorme diante da capela da aldeia respondeu o pai. Tu és cega. Ele é pobre. É o que convém.

Ela não pôde escolher. Na manhã seguinte numa cerimónia breve e fria a Inês foi dada em casamento. Ninguém descreveu o marido. O pai simplesmente a empurrou à frente e disse Agora ela pertence-te.

Eu o João era esse homem. Conduzi-a a uma simples carroça. Viajámos calados durante muito tempo até chegarmos a uma pequena cabana junto ao rio afastada do bulício da aldeia.

Não é muita coisa disse-lhe eu ao ajudá-la a sair. Mas é seguro e aqui sempre serás respeitada.

A cabana de madeira e pedra era modesta mas transmitia mais calor do que qualquer lugar que a Inês conhecesse antes. Na primeira noite fiz-lhe chá dei-lhe a minha manta e deitei-me junto à porta. Nunca levantei o tom de voz nem a lamentei. Sentei-me e perguntei Que histórias gostas de ouvir.

Ela pestanejou surpreendida pois ninguém lhe tinha feito tal pergunta.

Que comidas te alegram Que sons te fazem sorrir.

Aos poucos dia a dia a Inês sentiu renascer a vida dentro de si. Todas as manhãs levava-a à margem do rio e descrevia o nascer do sol com palavras cheias de poesia. O céu fica corado dizia eu como se guardasse um segredo recém-descoberto.

Descrevia-lhe o chilrear dos pássaros o murmúrio das folhas o aroma das flores bravas que cresciam por ali. Sobretudo ouvia-a com atenção. Naquela casinha simples a Inês encontrou o que nunca conhecera a verdadeira alegria.

Começou a rir de novo. O coração dela antes fechado ia-se abrindo. Eu assobiava as canções que ela gostava contava-lhe contos de lugares distantes ou simplesmente ficava calado com a mão entrelaçada na dela.

Certo dia debaixo de uma árvore antiga ela perguntou João foste sempre mendigo.

Fiquei calado um momento e respondi Não. Mas escolhi viver assim por um motivo.

Não expliquei mais e ela não pressionou. No entanto a curiosidade ficou-lhe na cabeça.

Passadas algumas semanas a Inês foi sozinha ao mercado da aldeia. Eu tinha-a acompanhado antes com calma ensinando-lhe o caminho. Ela andava com confiança quando uma voz a interpelou A rapariga cega a fingir ser dona de casa com esse pobre-diabo.

Era a irmã Beatriz.

A Inês endireitou o corpo. Estou feliz replicou.

A Beatriz troçou Ele nem é mendigo. Tu não sabes de nada pois não.

Ao voltar inquieta esperou por mim. Quando entrei ela perguntou com voz serena mas decidida Quem és tu de verdade.

Ajoelhei-me ao lado dela segurando as suas mãos. Não queria que descobrisses desta forma. Mas tens direito à verdade.

Inspirei profundamente. Sou filho de um governador regional.

Ela não se mexeu. Como.

Abandonei esse mundo porque cansei-me de que só vissem o meu cargo. Queria ser amado pelo que sou. Quando soube de uma rapariga cega que todos rejeitavam percebi que precisava de a conhecer. Apresentei-me sem revelar quem era na esperança de que me aceitasses sem o fardo da fortuna.

Ela ficou em silêncio recordando cada ato bondoso que eu lhe tinha dedicado. E agora quis saber.

Agora voltas comigo para a quinta como minha esposa.

No dia seguinte uma carruagem apareceu. Os criados inclinaram-se quando passámos. A Inês agarrada à minha mão sentiu medo misturado com admiração.

Na grande quinta parentes e serviçais juntaram-se cheios de curiosidade. A mulher do governador aproximou-se. Eu anunciei Esta é a minha esposa. Ela conseguiu ver-me quando mais ninguém via o meu verdadeiro eu. Ela é mais genuína do que qualquer pessoa.

A mulher olhou para ela e depois abraçou-a com carinho. Bem-vinda a casa minha filha.

Nas semanas seguintes a Inês aprendeu as tradições da vida na quinta. Preparou uma biblioteca para cegos e convidou artistas e artesãos com limitações a mostrar o seu trabalho. Tornou-se um exemplo querido por todos símbolo de coragem e bondade.

Nem todos a receberam bem. Alguns cochichavam Ela é cega. Como pode representar-nos. Eu ouvi esses comentários.

Numa festa oficial levantei-me e falei para todos Só aceitarei a minha posição se a minha mulher for totalmente respeitada. Se não a aceitarem irei embora com ela.

Um silêncio de espanto tomou conta do salão. Depois a esposa do governador disse Que fique claro a partir de hoje que a Inês pertence a esta família. Desprezá-la é desprezar a nós todos.

Seguiu-se um silêncio longo até que irromperam aplausos fortes.

Nessa noite a Inês estava no terraço do nosso quarto a escutar o vento que trazia a música pela quinta. Antes vivia no silêncio. Agora era uma voz que todos ouviam.

Embora não visse as estrelas sentia a sua luz no coração um coração que por fim tinha encontrado o seu lugar. Tinha passado a vida na sombra mas agora brilhava.

Ao terminar de escrever isto percebo que a lição que retiro é que o amor verdadeiro não depende de aparências ou títulos mas de ver o outro com o coração. Na minha vida aprendi que a aceitação e o respeito mútuo podem superar qualquer preconceito e que a verdadeira riqueza está na bondade que oferecemos e recebemos.

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O pai dela casou-a com um mendigo porque ela nasceu cega — mas o que aconteceu a seguir deixou toda a gente boquiaberta.
Tenho 25 anos e há dois meses moro com a minha avó. A minha tia – a única filha viva da minha avó – faleceu de repente há dois meses. Até então, viviam juntas. Partilhavam a casa, o quotidiano, os silêncios. Eu visitava-as frequentemente, mas cada uma de nós tinha a sua vida. Tudo mudou no momento em que a minha avó ficou sozinha. A perda não me é estranha. A minha mãe faleceu quando eu tinha 19 anos. Desde então, aprendi a conviver com a ausência como algo diário. Nunca conheci o meu pai. Não há história, nem verdades por contar – simplesmente não esteve presente. Por isso, quando a minha tia partiu, percebi com clareza: restamos só eu e a minha avó. Os primeiros dias após o funeral foram estranhos. A minha avó não chorava constantemente, mas a dor fazia-se notar nas pequenas coisas – levantava-se devagar, esquecia-se de apagar as luzes, sentava-se a olhar para o vazio. Disse a mim mesma que ficaria “uns dias”. Esses dias tornaram-se semanas. Até que, um dia, arrumei as minhas roupas e percebi que já não ia embora. Desde aí, as opiniões não tardaram. Há sempre quem tenha algo a dizer. Alguns dizem que fiz a coisa certa – como poderia deixar uma senhora idosa, que acabou de perder a filha, sozinha? Outros afirmam que estou a desperdiçar a juventude, que aos 25 devo viajar, sair, namorar, “viver a minha vida”. Perguntam se não me pesa, se não me sinto presa, se não tenho receio de acabar sozinha depois. A verdade é que eu não vejo as coisas assim. Trabalho, poupo, cuido da casa, levo a minha avó aos médicos, cozinhamos juntas, à noite vemos televisão. Não sinto que abdico de nada. Sinto que escolho. Neste momento, não tenho companheiro, não penso em filhos ou em emigrar. Penso em estabilidade, em presença, em não repetir a história de abandono que conheço tão bem. A minha avó é o que me resta da família direta. Não tenho mãe, não tenho tia, não tenho pai. E não quero que ela passe os últimos anos da vida a sentir-se um peso ou um estorvo. Não quero que coma sozinha todos os dias ou adormeça com a ideia de que não tem ninguém. Talvez, mais tarde, a vida me leve para outro caminho. Talvez viaje, me apaixone, vá embora. Mas hoje, este é o meu lugar. Não por obrigação. Não por culpa. Mas porque amo a minha avó e porque gosto de mim ao seu lado. E vocês, o que fariam?