Caro diário,
A minha mãe Inês, aos seus 35 anos, achava que nunca iria conhecer a verdadeira felicidade de mulher, mas o destino decidiu de outra forma. Ela e o António uniram-se quando ambos já tinham quase quarenta anos. Naquela altura, o António era viúvo há três anos. A Inês nunca se tinha casado, mas tinha-me tido a mim como filho. Como se costuma dizer por cá, criou-me para si. Na juventude, ela teve uma relação com o bonito moreno Ricardo, que lhe prometeu casamento e encantou a jovem Inês. Ela acreditou nas promessas, que se revelaram vazias. Como se soube depois, o pretendente da cidade já era casado.
Até a Teresa, esposa legítima do Ricardo, veio pedir à Inês que não destruísse a família de outra pessoa. A rapariga jovem e inexperiente cedeu. Mas decidiu ficar com a criança. Assim aconteceu. A Inês deu-me à luz, o Miguel. E eu tornei-me o seu único consolo e alegria. Fui bem educado, estudava bem. Depois da escola, entrei na universidade de economia. O António visitava a Inês várias vezes e propunha que vivessem juntos. Mas ela hesitava, embora gostasse dele. A Inês sentia-se envergonhada por causa do filho e do desejo de finalmente ser feliz.
Uma noite, eu decidi falar com ela. Disse que não era contra: «Eu, mãe, de qualquer forma já não vou morar em casa. O António é um homem de confiança. Só para que não te ofenda. O que importa para mim é que sejas feliz.» O filho do António, o João, também não se opôs.
Assim passaram a viver. Casaram-se e fizeram uma pequena festa. A Inês trabalhava na biblioteca da aldeia, e o António era agrónomo. Faziam tudo juntos. Cuidavam da casa, mantinham gado e tratavam da horta. Amavam-se e respeitavam-se, embora Deus não lhes tenha dado filhos em comum.
Nós, os dois filhos, casámo-nos e eles conheceram os netos. Sempre nos feriados preparavam mimos para os filhos e netos: ovos caseiros, leite, natas, carne de porco e frango. Nas festas, a casa enchia-se de convidados. Então, o António e a Inês sentavam-se à mesa, contentes. E alegravam-se por terem com quem celebrar.
Só à noite, quando o casal se deitava, cada um pensava baixinho: sair deste mundo primeiro e nunca se sentir sozinho. Os anos cobravam o seu preço. E um dia a desgraça aproximou-se. De manhã, a Inês sentiu-se mal enquanto começava a preparar a sopa na cozinha. A mulher idosa caiu. O António, com a ajuda dos vizinhos, chamou a ambulância. Os médicos disseram que ela tinha sofrido um AVC. Todas as funções estavam no lugar, exceto uma. A Inês não conseguiu mais andar.
Eu, com a esposa Catarina, vinha visitá-la. Dei alguns euros para os medicamentos e depois fui embora. O António alugou um carro e, quando a esposa saiu do hospital, levaram-na com o vizinho para dentro de casa. «Tudo vai ficar bem», consolava a esposa, «tu só vive. Mesmo que fiques sentada a conversar comigo. Só vive. E eu consigo tudo. Só não me deixes, minha pomba!»
O António cuidava bem da esposa. Passado um mês, ela passou para a cadeira. Ajudava-o na cozinha. Continuavam a fazer tudo juntos. Descascavam batatas e cenouras, separavam o feijão. Até assavam pão. À noite, a Inês e o António conversavam sobre como iriam viver dali em diante. O inverno estava à porta. E o António não tinha forças para rachar lenha. «Talvez os filhos nos levem para passar o inverno nas suas casas, e na primavera e verão poderemos arranjar-nos sozinhos»
Num fim de semana, cheguei com a Catarina. A nora, depois de olhar todo o quarto, concluiu: «Teremos de vos separar, pombinhos. Vamos levar a mãe na próxima semana. Deixa-me preparar o quarto. E viremos buscá-la.» «E eu?», sussurrou constrangido o António. «Nós nunca nos separamos. Filhos, como pode ser assim.» «Bem, isso foi antes, quando tinhas forças para a casa e podias cuidar de vós mesmos, mas agora é diferente. Deixa o teu filho João levar-te também. Ninguém vos levará juntos.»
Eu e a Catarina fomos para casa. O António e a Inês suspiraram amargamente e pensaram no que fazer a seguir. Cada um, ao adormecer, sonhava não acordar, para não ver tudo aquilo. No fim de semana seguinte, chegámos os dois filhos. Começámos a recolher as coisas. O António sentou-se junto à cama da Inês. Não parava de olhar para ela, recordando os anos da juventude. E chorava. Aproximou-se da esposa doente. E sussurrou: «Perdoa-me, Inês, que tudo tenha acontecido assim connosco Algures falhámos na educação dos filhos. Estão a separar-nos como gatinhos desnecessários. Perdoa. Amo-te».
A Inês quis acariciar o rosto do marido com a mão, mas já não tinha forças. O António saiu, limpando as lágrimas com a manga. E, ao sentar-se no carro, já não as limpou mais. Depois, eu com a esposa e o vizinho começámos a recolher a Inês, enrolámo-la na manta e começámos a levá-la para fora de casa, com os pés à frente. A mulher doente pensou que era muito simbólico. A Inês nem se opôs, pois o seu espírito partiu-se quando o António saiu. E a mulher doente só desejava não viver até à noite.
Passou uma semana. Num belo dia de outono, exatamente no dia de Todos os Santos, o seu desejo realizou-se. A Inês e o António encontraram-se no outro mundo.
A lição pessoal que guardo disto é que devemos sempre respeitar o amor dos pais e não os separar quando mais precisam um do outro, pois a verdadeira felicidade está em estarmos juntos até o fim.Caro diário,
A minha mãe Inês, aos seus 35 anos, achava que nunca iria conhecer a verdadeira felicidade de mulher, mas o destino decidiu de outra forma. Ela e o António uniram-se quando ambos já tinham quase quarenta anos. Naquela altura, o António era viúvo há três anos. A Inês nunca se tinha casado, mas tinha-me tido a mim como filho. Como se costuma dizer por cá, criou-me para si. Na juventude, ela teve uma relação com o bonito moreno Ricardo, que lhe prometeu casamento e encantou a jovem Inês. Ela acreditou nas promessas, que se revelaram vazias. Como se soube depois, o pretendente da cidade já era casado.
Até a Teresa, esposa legítima do Ricardo, veio pedir à Inês que não destruísse a família de outra pessoa. A rapariga jovem e inexperiente cedeu. Mas decidiu ficar com a criança. Assim aconteceu. A Inês deu-me à luz, o Miguel. E eu tornei-me o seu único consolo e alegria. Fui bem educado, estudava bem. Depois da escola, entrei na universidade de economia. O António visitava a Inês várias vezes e propunha que vivessem juntos. Mas ela hesitava, embora gostasse dele. A Inês sentia-se envergonhada por causa do filho e do desejo de finalmente ser feliz.
Uma noite, eu decidi falar com ela. Disse que não era contra: «Eu, mãe, de qualquer forma já não vou morar em casa. O António é um homem de confiança. Só para que não te ofenda. O que importa para mim é que sejas feliz.» O filho do António, o João, também não se opôs.
Assim passaram a viver. Casaram-se e fizeram uma pequena festa. A Inês trabalhava na biblioteca da aldeia, e o António era agrónomo. Faziam tudo juntos. Cuidavam da casa, mantinham gado e tratavam da horta. Amavam-se e respeitavam-se, embora Deus não lhes tenha dado filhos em comum.
Nós, os dois filhos, casámo-nos e eles conheceram os netos. Sempre nos feriados preparavam mimos para os filhos e netos: ovos caseiros, leite, natas, carne de porco e frango. Nas festas, a casa enchia-se de convidados. Então, o António e a Inês sentavam-se à mesa, contentes. E alegravam-se por terem com quem celebrar.
Só à noite, quando o casal se deitava, cada um pensava baixinho: sair deste mundo primeiro e nunca se sentir sozinho. Os anos cobravam o seu preço. E um dia a desgraça aproximou-se. De manhã, a Inês sentiu-se mal enquanto começava a preparar a sopa na cozinha. A mulher idosa caiu. O António, com a ajuda dos vizinhos, chamou a ambulância. Os médicos disseram que ela tinha sofrido um AVC. Todas as funções estavam no lugar, exceto uma. A Inês não conseguiu mais andar.
Eu, com a esposa Catarina, vinha visitá-la. Dei alguns euros para os medicamentos e depois fui embora. O António alugou um carro e, quando a esposa saiu do hospital, levaram-na com o vizinho para dentro de casa. «Tudo vai ficar bem», consolava a esposa, «tu só vive. Mesmo que fiques sentada a conversar comigo. Só vive. E eu consigo tudo. Só não me deixes, minha pomba!»
O António cuidava bem da esposa. Passado um mês, ela passou para a cadeira. Ajudava-o na cozinha. Continuavam a fazer tudo juntos. Descascavam batatas e cenouras, separavam o feijão. Até assavam pão. À noite, a Inês e o António conversavam sobre como iriam viver dali em diante. O inverno estava à porta. E o António não tinha forças para rachar lenha. «Talvez os filhos nos levem para passar o inverno nas suas casas, e na primavera e verão poderemos arranjar-nos sozinhos»
Num fim de semana, cheguei com a Catarina. A nora, depois de olhar todo o quarto, concluiu: «Teremos de vos separar, pombinhos. Vamos levar a mãe na próxima semana. Deixa-me preparar o quarto. E viremos buscá-la.» «E eu?», sussurrou constrangido o António. «Nós nunca nos separamos. Filhos, como pode ser assim.» «Bem, isso foi antes, quando tinhas forças para a casa e podias cuidar de vós mesmos, mas agora é diferente. Deixa o teu filho João levar-te também. Ninguém vos levará juntos.»
Eu e a Catarina fomos para casa. O António e a Inês suspiraram amargamente e pensaram no que fazer a seguir. Cada um, ao adormecer, sonhava não acordar, para não ver tudo aquilo. No fim de semana seguinte, chegámos os dois filhos. Começámos a recolher as coisas. O António sentou-se junto à cama da Inês. Não parava de olhar para ela, recordando os anos da juventude. E chorava. Aproximou-se da esposa doente. E sussurrou: «Perdoa-me, Inês, que tudo tenha acontecido assim connosco Algures falhámos na educação dos filhos. Estão a separar-nos como gatinhos desnecessários. Perdoa. Amo-te».
A Inês quis acariciar o rosto do marido com a mão, mas já não tinha forças. O António saiu, limpando as lágrimas com a manga. E, ao sentar-se no carro, já não as limpou mais. Depois, eu com a esposa e o vizinho começámos a recolher a Inês, enrolámo-la na manta e começámos a levá-la para fora de casa, com os pés à frente. A mulher doente pensou que era muito simbólico. A Inês nem se opôs, pois o seu espírito partiu-se quando o António saiu. E a mulher doente só desejava não viver até à noite.
Passou uma semana. Num belo dia de outono, exatamente no dia de Todos os Santos, o seu desejo realizou-se. A Inês e o António encontraram-se no outro mundo.
A lição pessoal que guardo disto é que devemos sempre respeitar o amor dos pais e não os separar quando mais precisam um do outro, pois a verdadeira felicidade está em estarmos juntos até o fim.







