No dia em que fiz dezoito anos, a minha mãe expulsou‑me da porta. Mas, anos depois, o destino trouxe‑me de volta àquela casa, e no fogão descobri um compartimento oculto que guardava o seu sinistro segredo.

Inês sempre se sentiu como a intrusa da própria casa. A mãe, Maria, claramente preferia as duas irmãs mais velhas Lurdes e Margarida tratandoas com mais calor e atenção. Essa injustiça feria a menina, mas ela guardava o ressentimento no fundo, tentando sempre agradar a mãe na esperança de ganhar, ainda que que fosse, um pedaço de afeto.

Nem se tejas de viver comigo! O apartamento vai para as tuas irmãs. E tu, desde pequena, olhasme como um lobo à caça. Vai onde quiseres! foi com estas palavras que Maria expulsou Inês assim que completou dezoito anos.

Inês tentou argumentar, alegando que era injusto. Lurdes tinha apenas três anos a mais e Margarida, cinco. Ambas já tinham concluído a universidade, tudo pago pela mãe; ninguém lhes tinha apertado o peito para se tornarem independentes. Já Inês era sempre a estranha. Por muito que se esforçasse para ser boa, o amor que recebia na família era, na melhor das hipóteses, superficial se é que se podia chamar de amor. Só o avô, Domingos, lhe oferecia carinho. Foi ele quem acolheu a filha grávida depois que o marido abandonou a família e desapareceu sem deixar rasto.

Talvez a mãe esteja preocupada com a minha irmã dizem que pareço muito com ela pensava Inês, buscando uma explicação para o frio da mãe. Já tentou conversar sinceramente, mas cada tentativa terminava em cena digna de novela ou em birra.

Domingos era o seu porto seguro. As lembranças mais queridas eram os verões na aldeia de Vila Nova de Milfontes, onde ajudava no jardim, na horta, ordenhava vacas, fazia bolos tudo para adiar o regresso ao lar onde o desprezo e as repreensões eram o prato do dia.

Avô, por que ninguém me ama? O que há de errado comigo? perguntava, contendo as lágrimas.

Amote muito, minha menina respondia ele, com doçura, sem jamais mencionar a mãe ou as irmãs.

Inês queria crer que era verdade, que era amada à sua maneira Mas quando fez dez anos, o avô faleceu e, a partir daí, a família piorou ainda mais o tratamento. As irmãs zombavam, e a mãe sempre se aliava a elas.

Desde então, Inês não ganhou nada novo só roupas de segunda mão das mãos de Lurdes e Margarida. Elas zombavam:

Olha só essa blusinha da moda! Varre o chão, Inês ou o que for preciso!

E, se a mãe comprava doces, as duas devoravam tudo, entregandolhe apenas as embalagens:

Aqui, querida, recolhe as embalagens!

Maria ouvia tudo, mas nunca os repreendia. Foi assim que Inês cresceu como cãofilhote, sempre a pedir amor a gente que a via como nada mais que um objeto de escárnio. Quanto mais se esforçava para ser boa, mais a odiavam.

Por isso, quando a mãe a expulsou no seu aniversário de dezoito, Inês encontrou trabalho como auxiliar de enfermagem num hospital. Resistência e esforço tornaramse hábito, e, finalmente, ganhava um salário embora diminuto. Mas ali ninguém a odiava. Se a gente não é recebida com malícia quando tenta ser boa, já é um progresso, pensou.

O chefe até lhe ofereceu uma bolsa para estudar cirurgia. Numa cidade pequena como Almodôvar, ainda faltavam especialistas, e Inês já mostrava talento no serviço de enfermagem.

A vida foi dura. Aos vintesete, já não tinha parentes próximos. O trabalho era a sua existência literalmente. Vivia pelos pacientes que salvava. Mas a solidão jamais a abandonava: morava num dormitório, tal como antes.

Visitar mãe e irmãs era sempre uma decepção. Inês evitava ao máximo. Enquanto todos iam fumar e fofocar, ela se encolhia na varanda para chorar.

Numa dessas tardes, o colega auxiliar, Jorge, aproximouse:

Por que choras, formosa?

Formosa? Não me tascas respondeu Inês, sem muita vontade.

Ela se via como um rato cinzento, ainda que, quase aos trinta, já fosse uma loirinha de olhos azuis e nariz delicado. O juvenil embaraço tinha desaparecido; os ombros estavam eretos, o cabelo preso num coque firme, pronto a escapar.

És mesmo muito bonita! Valorizate e não baixes a cabeça. Ainda és uma cirurgiã promissora, a tua vida tem futuro incentivou Jorge.

Jorge trabalhava com ela há quase dois anos, às vezes oferecendo chocolate, mas nunca tinham tido uma conversa assim. Inês derramou-lhe tudo.

Talvez devesses chamar o Dr. António Silva? Aquele que salvaste há pouco. Ele tratate bem e tem ligações por aí sugeriu Jorge.

Obrigada, Jorge. Vou tentar respondeu ela.

E se não funcionar, podemos casar. Tenho um apartamento, não te vou maltratar brincou ele.

Inês corou, percebendo que a piada tinha um fundo de verdade. Ele não via uma órfã desamparada, mas uma mulher que merecia amor.

Então, considerarei também essa opção respondeu, sentindo pela primeira vez que deixava de ser cavalo de pau para ser uma jovem bonita com tudo à sua frente.

Na mesma noite, Inês ligou para António:

Sou Inês, a cirurgiã. Deume o seu número e disse que podia contactar se surgisse algum problema hesitou.

Inês! Que bom que ligaste! Que tal marcarmos? Passeia aqui, tomamos um chá e conversamos como velhos amigos respondeu o médico, caloroso.

No dia seguinte, Inês, de folga, foi ao encontro dele. Contou-lhe honestamente a situação e perguntou se conhecia alguém que precisasse de uma cuidadora.

Entendo, Inês, estou cansado, mas não aguento mais

Não te preocupes, Anequinha! Posso arranjarte um posto de cirurgiã numa clínica privada e ainda ficarás comigo. Sem ti, eu não seria nada disse António, quase chorando.

Mas os teus parentes não se importam?

Eles só aparecem quando eu não estou. Só se importam com o apartamento respondeu, triste.

Assim, passaram a viver juntos. Dois anos depois, um romance floresceu entre Inês e Jorge, sempre regado a chá quente. Mas António não gostava de Jorge e, a cada oportunidade, dizia à Inês:

Lamento, querida, mas o Jorge é gente boa, só que fraco e muito influenciável. Não confies nele.

Oh, António já é tarde. Decidimos casar. Ele brincou de me pedir em casamento há dois anos. E ainda estou grávida! anunciou Inês, radiante. Mas ainda és importante para mim! Visitote todos os dias. És como família.

Minha querida não me sinto bem. Amanhã vamos ao cartório e registro a casa da aldeia em teu nome. Sempre adoraste a vida rural; talvez seja a tua quinta ou vendes, se quiseres sugeriu António, hesitante.

Ele não terminou a frase, mas Inês já sabia que a casa ficava na mesma aldeia onde o avô Domingos vivera. A casa do avô já estava demolida, o terreno vendido, estranhos lá moravam. Ainda assim, ter um cantinho ali trouxe calor ao coração.

Não mereço isto, mas muito obrigada, António! agradeceu, sincera.

Só não contes ao Jorge que a casa está em teu nome. E não perguntes por quê, está bem? pediu o médico, sério.

Inês concordou, prometendo guardar o segredo. Como explicavalhe ao Jorge? Ainda era um mistério, mas podia dizer que tinha feito as pazes com a mãe.

Mais tarde, descobriu que António, além de sofrer as consequências de um AVC, também sofria de cancro. Recusou a cirurgia. No fim, Inês organizou o funeral dele e mudouse para a casa com o futuro marido.

Problemas surgiram no sétimo mês de gravidez já estavam juntos há seis meses.

Talvez devesses trabalhar um bocadinho antes do bebé nascer sugeriu Jorge.

Inês já tinha deixado o consultório onde António a tinha colocado. Pensava em viver das poupanças, contando com o apoio de Jorge. As palavras dele ferirama.

Bem talvez respondeu, incerta. Era desconfortável, pois ela fazia as compras, e Jorge mostravase mesquinho. O bebé crescia dentro dela, e não queria desistir do casamento.

A uma semana da festa, quando Jorge não estava em casa, uma mulher desconhecida entrou com a própria chave.

Olá, sou a Lena. O Jorge e eu gostamos um do outro, ele só tem medo de dizer. Então, já não precisas declarou a alta loira, confiante.

O quê? O casamento é daqui a poucos dias! Já pagámos tudo! exclamou Inês, atônita. Ela tinha arcado com quase todas as despesas do pequeno evento num café.

Não há problema. O Jorge vai casarse comigo. Tenho contactos no registo civil; tudo será feito rápido afirmou Lena, como se fosse o plano já traçado.

Quando Jorge chegou, apenas murmurou:

Inês, desculpa É verdade. Vou ajudar com o bebé, mas não posso casarte.

Vamos fazer um teste de paternidade acrescentou Lena, colocando a mão no ombro de Jorge.

Teste de paternidade?! És a primeira e única! gritou Inês, avançando com os punhos.

Ela vai racharte, miúda! Tem quase trinta e age como criança! zombou Lena.

Jorge ficou mudo, sem defender Inês, apenas a olhar para o chão. Ficou claro: tudo girava em torno de Lena; ele era apenas um espectador passivo.

Inês começou a arrumar as malas. Não adiantava lutar por um homem que desistia tão facilmente. Lena explicou que ela e Jorge tinham sido namorados há anos já casados, mas agora livres. Inês era apenas uma substituta temporária até a mulher dos sonhos aparecer.

Poderia ter exigido explicações a Jorge, mas para que? Ele deixava Lena entrar e fazer o que quisesse.

Então a casa acabou por ser útil refletiu Inês.

A casa era simples, sem água corrente, mas com um fogão excelente Domingos ensinara tudo sobre a vida na aldeia. Era habitável. Como dar à luz sozinha? Ainda havia tempo para descobrir.

O lenho estava empilhado, a cabana era robusta e até a neve já acumulava na porta, pronta a ser limpa. Pilhas de lenha era um verdadeiro tesouro no inverno!

Era bom que António a tivesse apresentado aos vizinhos como a nova senhora e esposa do filho. Nenhuma pergunta inoportuna.

Inês, claro, telefonou à mãe e às irmãs. Como era de costume, não desapontaram: aconselharamna a entregar o bebé ao orfanato e da próxima vez não se envolveres com qualquer pessoa antes do casamento. Também fofocaram sobre o dinheiro do casamento, metade do qual ela própria pagara.

Mas ninguém sabia da casa. Agora Inês podia esconderse de todos e recomporse.

O frio era terrível; nem tirou o casaco de plumas. Ao apanhar o carvão para o fogão, percebeu que a colher bateu em algo duro.

Tirou as luvas e tirou do lenho uma caixa de madeira, selada, com letras grandes na tampa: Inês, isto é para ti. Reconheceu a caligrafia imediatamente era de António.

Dentro havia fotos, uma carta e uma pequena caixa. As mãos tremiam ao abrir o envelope:

Querida Anequinha! Sou irmão do teu avô, Domingos. Ele pediume que cuidasse de ti.

A carta revelou que, há muitos anos, houve uma grande rixa entre Domingos e António. Antes de morrer, o irmão encontrouo e pediulhe que procurasse Inês quando completasse dezoito. Também lhe deixou uma herança que a filha de António jamais entregaria à neta.

António não conseguiu localizar Inês a mãe e as irmãs esconderam o endereço. Mas o destino uniuos no hospital, quando ele era paciente e ela a médica. Queria contar tudo antes, mas o tempo faltou, por isso deulhe a casa que o avô comprara dele em vida, sabendo que a filha nunca lhe daria nada.

Um outro choque: a mãe não era a sua mãe biológica. Inês era filha da irmã falecida que tanto invejava. Na foto mãe e pai jovens, abraçando uma menina. Inês sobreviveu porque estava com o avô no dia do acidente.

No interior da caixa encontrava notas de cinco mil euros deixadas pelo avô. O toque delas aqueceu o coração. Lágrimas escorreram. Agora ela e o bebé estavam seguros!

Quando acendeu o fogão, pareceu-lhe que todas as dores, traições e ressentimentos se apagavam nas chamas. Iba recomeçar por o bebé e por si mesma.

Claro que, com o tempo, perdoaria quem a magoou. Mas já não tinha mais energia para eles. Aquela casa seria o seu refúgio.

António dizia sempre que uma boa casa deve pertencer a quem a valoriza. Construíra a casa na juventude, com as próprias mãos, dos melhores materiais.

Não é só uma casa, é uma maravilha! Vai durar doiscentos anos! repetia.

A aldeia fica a dois autocarros de Almodôvar.

Sim, o salário era baixo e a ajuda ao bebé ainda incerta. Mas tinha um teto, poupanças, e a profissão. Era jovem, bonita e estava à espera de um filho.

Pela primeira vez, Inês sentiuse verdadeiramente feliz.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

15 + 8 =