15 de outubro Lisboa
Hoje, ao chegar a casa, encontrei a camisa que eu havia deixado na cozinha ainda com uma mancha rosada. Márcio, o que é isso? perguntei, segurando a peça. Essa mancha, será batom? Ele suspirou, cansado, enquanto recolhia os seus pertences do turno noturno. Estou de plantão. Não tenho nada a ver com batom. Na nossa ala só há a enfermeira Dona Nádia. Eu só consigo sentir o peso do dia nos meus ombros.
Inês, a minha irmã, entrou na casa, puxou a camisa, amassou-a e foi direto para a casa de banho. Eu exalei um suspiro profundo.
Já fazem mais de seis meses que eu e Márcio nos conhecemos. Em quase tudo parece ser perfeito, exceto por um detalhe: a minha própria ciúmes. Eu encontro suspeitas onde não deveria haver nenhuma.
Olha aqui resmunguei, apontando para a camisa. Ele está a trairme. Olha isso.
Entreguei a camisa à minha irmã Catarina e cruzei os braços, sentindome ainda mais perturbada.
Catarina observou a peça, cheirou a mancha e soltou uma gargalhada.
Não te riás! refleti, magoada.
É só um resto de compota de fruta explicou ela.
Peguei a camisa de volta, levei o nariz à costura e o meu rosto ficou uma mistura de surpresa e confusão.
Já é hora de te acalmares, Inês. Não consigo entender de onde vem essa desconfiança tão estranha.
Senteime à frente de Catarina.
Não começámos apenas a namorar. Eu tireilhe o exnamorado, confessei, desviando o olhar. Ele enganou a exnamorada comigo. No início pensei que ele nunca sairia de mim, mas depois percebi que sairia, e com vontade.
Não é desculpa para falar de traição. Aprende a confiar.
Confio, contradisseme, ainda a tremer. Mas ainda sinto medo de o perder.
Catarina sacudiu a cabeça, sem saber o que dizer.
Onde estiveste? perguntei, cruzando os braços, às duas da manhã.
Márcio suspirou, exausto.
Inês, foste tu que me deixaste ir ao bar com os colegas. Vimos um jogo de futebol, descansámos um pouco que há de errado?
O Dima já está em casa. Liguei à Lúcia. Onde estiveste nas duas últimas horas?
O Dima saiu antes, porque prometi à esposa, e eu e o Sérgio ficámos aqui. Inês, acalmate. Vou dormir.
Ele foi para o quarto e deitouse, tentando esquecer as minhas suspeitas crónicas. Queria que tudo fosse leve novamente, como antes. Mas eu, como sempre, estraguei tudo.
Hoje, ao sair do supermercado, eu andava distraída com o telemóvel, sem notar o que se passava à minha volta. Quando virei a cabeça, vi Márcio a abraçar uma desconhecida loira na rua, rindo sem nenhum pudor.
Os meus olhos ficaram nublados; larguei a sacola de compras e corri na direção deles. Segureilhe a mão e afasteia.
Eu sabia! gritei. Sabia que me traías. És desonesto! Disse, balançando a cabeça, quase a perder o controlo.
Márcio ficou pálido, os punhos apertados. Olhou para a mulher, que continuava alheia ao drama.
Inês
Não me hables. Sei o que vais dizer. Não quero desculpas vazias.
Ele tentou explicar:
É a minha irmã, a sobrinha da tia Ina. Conhecesa. A Vânia é a minha irmã, crescemos juntas. Deves ir embora, falamos depois em casa.
Fiquei estupefata.
O quê?
Ele apenas acenou, indicando que eu deveria regressar ao lar. Saí, lançando à irmã um simples desculpa.
Quando voltei para casa, já era tarde. Eu sentiame ferida, os lábios comprimidos como se não existissem, os olhos a evitar o seu olhar.
Márcio
Canseime confessou ele, a voz rouca. Não entendo de onde vem tanto ciúme. Desde que começámos, só ouço acusações. Sempre suspeitas: pacientes, enfermeiras, médicos, até às lâmpadas da rua. Estou exausto.
Márcio! gritei, a voz a quebrar. Não queres acabar comigo? Eu amote! Perdoame, por favor. Vou mudar.
Ajoelheime, agarrandolhe as mãos, fitandoo nos olhos. Ele parecia dóido; ainda a amava, e tinha terminado relações de mais de cinco anos por mim. Eu nunca imaginei que ele fosse chegar a este ponto, mas eu, Inês, tinha conquistado o seu coração, e agora as dúvidas o corroíam por dentro.
Amote sussurrei, apertando a sua mão. Mas tudo o que fazes é insano. Não consigo viver assim.
Não irei mais chorou eu, quase desmaiando. Nunca. Fica comigo. Não consigo viver sem ti.
Ele respirou fundo e puxoume para perto. Não conseguia deixála, mesmo depois de tudo.
Nos meses seguintes, a nossa relação parecia estável; eu já não demonstrava ciúmes, e ele apreciava a minha companhia, não se ausentava mais tanto do trabalho. O outono chegou, trazendo mais doentes ao hospital. Márcio estava cada vez mais cansado, jantava em casa e adormecia cedo.
Mas eu voltei a desconfiar. Comecei a questionaro sobre o perfume da sua camisa. A equipa era quase toda feminina, então não havia razão para alarmarme. Ainda assim, a suspeita crescia; eu observavao, reviao as camisas, tentando descobrir algo.
Depois do turno, ele foi direto ao duche, gastando o mínimo de tempo para voltar à cama. Quase silenciosamente, abriu a porta e viume a percorrer o telemóvel rapidamente.
Inês o que fazes?
Eu estremei e devolvi o telefone ao peito.
Só precisava de fazer uma chamada.
Ele apontou para o telemóvel rosa na cama.
E o teu?
Está descarregado.
A ecrã do telemóvel de Catarina acendeuse; alguém escreveu:
Está mesmo descarregado? Então estás a mentir Márcio arqueou as sobrancelhas, surpreso. Talvez ainda haja algo que eu deva saber.
Desculpa, baixei a cabeça.
Encontraste o que procuravas? ele perguntou, irritado.
Eu balancei a cabeça.
Márcio recolheu as roupas do armário, enquanto eu, desesperada, seguravalhe a mão.
Por favor, não! Não quero mais isso. Eu confio em ti, Márcio!
Não, Inês, perdoeite uma vez, mas não quero cair de novo numa armadilha. Cansei. Quero viver tranquilo, confiar e ser confiado. Isso não é viver.
Em meia hora, ele arrumou tudo e saiu da casa que eu tinha alugado. Sentada na cama, com os joelhos abraçados, sussurrei:
Amote, de verdade. Mas não posso continuar assim. E tu? Não mudas?
Ele deixou o apartamento e dirigiuse à casa dos pais. Estava realmente exausto.
A desconfiança destrói tudo, por mais forte que seja a relação. Talvez eu sentisse que um dia Márcio me trairia, como fez com a ex. Mas foi eu quem o escolheu, quem o trouxe para a minha vida. Sem confiança, não há amor, nem amizade, nem nenhum outro laço. Essa foi a minha maior falha.
(Escrevo isto para tentar entender, para lembrar que o ciúme não tem lugar numa vida a dois.)Na manhã seguinte o sol entrou tímido pela fresta da cortina, espalhando um brilho dourado que parecia querer desfazer as trevas que eu mesma cultivara. Levantei-me lentamente, ainda sentindo o peso da noite anterior, mas com uma clareza que há muito não experimentava. Dirigime ao pequeno balcão da cozinha, coloquei a água para ferver e, enquanto a chaleira cantava, deixei que o silêncio me contamasse o que as palavras não conseguiam.
Abri o caderno que mantinha ao lado da cama e escrevi, não como um relato de culpa, mas como um mapa de reconhecimento. Cada linha descrevia um fragmento de mim que ainda precisava ser curado: o medo de ser abandonada, a necessidade de validar-me através do outro, a ânsia de controlar o que não podia. Quando terminei, o papel estava manchado de lágrimas, mas também de esperança.
Naquela tarde, vesti um casaco leve e caminhei até o parque onde costumávamos sentar nos fins de semana. O banco vazio sob a velha oliveira parecia esperar por nós, mas eu não procurei por ele. Em vez disso, senteime no gramado, fechei os olhos e deixei que o vento soprasse as folhas secas sobre o coração cansado. Sintamse livres, pensei, como as folhas que se desprendem sem temer a queda.
Poucos dias depois, recebi uma mensagem de Márcio. Não havia acusações, nem promessas vazias; apenas uma frase curta que carregava um peso inesperado: Encontrei a paz que eu mesmo precisava. Obrigado por me mostrar o caminho, mesmo que tenha sido áspero. Não respondi imediatamente. Em vez disso, deixei que as palavras se acomodassem, reconhecendo que, embora a jornada ao nosso lado tenha sido turbulenta, ambos havíamos aprendido a importância de respeitar a própria integridade.
Com o tempo, voltei a frequentar a clínica onde eu trabalhava, mas agora com um olhar mais gentil para mim mesma. Os pacientes notavam a mudança na minha voz, no meu sorriso, e eu percebia que a confiança que eu buscava nos outros começara a nascer do interior. A cada dia, cultivar a própria segurança tornouse um ritual tão essencial quanto o toque de um estetoscópio.
Hoje, ao fechar o diário que começou como um grito de desespero, sinto que a história não termina em perda, mas em renascimento. O ciúme já não ocupa espaço na mesa; ele foi substituído por curiosidadecuriosidade sobre quem sou quando ninguém me observa. E, na última página, escrevi apenas duas palavras que ainda ecoam em mim: grato, sempre.







