– Então, vais me mandar de volta ao orfanato?

Então, vais devolverme ao orfanato? A tia disse que agimos depressa, pegounos antes de saber que havia um bebé a chegar. E eu não sou da família

Recordome de Maria Duarte, à beira do fogão, a fritar panquecas de farinha de milho. O marido ainda faltava chegar do trabalho e a família iria jantar junta.

Estranhavame o silêncio de Tiago naquele dia, no seu quarto. Costumavase que, enquanto eu virava as panquecas, o menino girava ao meu lado, metia o nariz nos meus olhos e pedia:

Mamã, posso mais uma panqueca?

Eu davalhe, ele parecia já saciado, mas, pouco depois, voltava a aproximarse, esticandoa boca com prazer, e repetia:

Mamã mais uma?

Percebialhe que Tiago já estava cheio; o que ele realmente queria era escutar outra vez aquela palavra ternurenta e preciosa mamã. Quando ainda era pequenino, deixavaa de lado a espátula e o levantava nos braços; ainda não pesava muito, tinha apenas cinco anos. Dizia-lhe:

Então, meu filho, vamos buscar o pai no fim do dia?

E Tiago respondia, com os olhos a brilhar de entusiasmo:

Sim, mamã, vamos encontrar o pai! Aquela palavra ainda lhe era nova; nunca antes tivera mãe e pai. Agora, enfim, tinham.

Ele já tinha o seu quarto, a sua cama e ainda um cantinho de jogos com escorregas que o pai lhe tinha comprado. Também havia carrinhos, um robô, blocos de montar e dezenas de brinquedos, tudo só dele, de Tiago, e de ninguém mais. À noite eu lia-lhe histórias, acarinhava-lhe a cabeça e dizia que o amava. Tiago absorvia aquele amor e, aos poucos, quase esquecia o que tinha sido antes.

Quis chamaro, mas o miúdo empurroume de repente no estômago.

Apanhei a mão e a menina, outra vez, empurroume.

Ó Senhor, eu rezava todos os dias por esse presente inesperado, para que tudo fosse bem entre nós. Já lhe tínhamos escolhido o nome: o pai, Nuno, disse que seria Filomena. A avó do marido chamavase Catarina.

Contavamme que eu não poderia ter filhos e que, com Nuno, Tiago nos levara ao orfanato, e, um ano depois, seria preciso e agora a menina estava quase a nascer!

Fiquei distraída e quase deixei a panqueca queimar. Chamei o filho:

Tiago, meu filho, anda logo, por que estás tão calado hoje?

Mas só o silêncio. Será que não me ouvia?

Desliguei o fogão e fui ao quarto da criança.

Mesmo com a luz apagada, onde será Tiago?

De repente ouvi um barulho. Liguei a luz e vio sentado no sofá, com casaco e gorro. Carregava uma mochila cheia dos seus carrinhos favoritos.

O que fazes aí na escuridão? espanteime, sorrindo, Levantate e vestete, vais à viagem? Venha, vamos comer as panquecas com natas e leite condensado, vamos, Tiago, que fazes assim?

Ele não sorriu; fitava um ponto distante com olhos adultos e, então, perguntou:

Posso levar estes brinquedos comigo? Não vão precisar de carros?

Que dizes, Tiago? O que se passa? Para onde vais? as palavras saíramme trêmulas, as mãos caíram ao peito. Será que eu fosse uma má mãe? Ele não sentia o meu amor? Talvez fosse ciúmes da irmã que estava a chegar? Estranho, pois ontem ainda estava radiante.

Então, vais devolverme ao orfanato? A tia disse que agimos depressa, pegounos antes de saber que havia um bebé. E eu não pertenço

Os olhos de Tiago estavam úmidos; mal se sustentava, olhando para o lado.

Tiago, filho, que foi? Que tia? lembreime então da vizinha que encontrei alguns dias antes. Falei, quase sem pensar, que graças a Deus o bebé já estava a caminho, e fiz um gesto à cara de Tiago. Apresseime, Mariquinha, apresseime!

Mas eu sabia que Tiago ainda não compreendia a coisa toda. Não quis discutir com a vizinha sem tato; deixeio em paz. Contudo, Tiago percebeu tudo.

Pensou de repente que era estranho, que se sentia só, talvez perdido.

Abraçeio rapidamente; inicialmente afastouse, mas logo desabou em lágrimas.

Filho, não percebeste, essa tia não sabe nada. O teu pai e eu amamoste e nunca te entregaremos!

Tirei-lhe o gorro e o casaco; abraçados, ficámos sentados, silenciosos, no sofá.

Quando Filomena nasceu, Tiago e o pai ficaram sozinhos a cuidar da casa, e depois foram ao lado da mãe e da irmã.

Tiago temia não agradar à irmã.

Mas ao vêla tão pequenina, sorriu indulgente. Mãe, onde a trago, tão pequena e sem irmão maior? Vou ensinála a brincar com os carrinhos, será divertido para nós dois!

Desde então Tiago não larga Filomena, espera ela crescer, e os pais vão mudar a sua cama para o quarto dele.

Por agora, ele é o primeiro ajudante da mãe

Naquela noite a mãe chamouo: Filho, Tiago, já tenho Filomena pronta, vamos encontrar o pai ao voltar do trabalho.

Tiago já vestido estava à porta, pronto: Mamã, seguro a porta, sai com a cadeirinha!

Descemos de elevador, saímos, e, ao mesmo tempo, entrou no corredor a mesma mulher.

Tiago agarroume a mão com mais força, como se a sua ansiedade fosse um nó.

Filho, tu és o homem da casa, ajuda a tia, chama o elevador, tem as malas pesadas.

Sim, mamã! Tiago, orgulhoso, acenou para a senhora com sacos, chamou o elevador e correu atrás da mãe.

No dia seguinte era fim de semana; toda a família iria ao parque. Lágrimas por Filomena ainda ser tão pequena, mas logo cresceria e juntos iríamos aos brinquedos. Tiago, como irmão mais velho, seguraria firme a irmã se ela se cansasse. Afinal, éramos irmãos para a vida inteira.

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– Então, vais me mandar de volta ao orfanato?
Сватбата, която се превърна във финал