«Será verdade que essa mulher, tão feroz quanto uma fera encurralada, é a sua mãe?»as palavras dela ecoavam nos ouvidos de Alexandre como um suspiro de vento nas ruínas de um castelo antigo.
Ele só sabia de si mesmo que o encontraram, chorando de fome e medo, na soleira da porta de um orfanato de Lisboa. A mãe da criança, talvez ainda com um fragmento de consciência, envolveuo numa manta quente, sobrepôslhe um lenço de penas de cabra e colocouo, ainda a gritar, dentro de uma caixa de papelão. Não queria, ao que parece, que o pequeno congelasse.
Nenhum bilhete registrava o nome que lhe dera ao nascer, nem a origem. Só que, na mão trêmula do bebé, apertava um grande pendente de prata em forma da letra «A», como se fosse a única herança deixada pela mãe.
Aquele pingente não era da prateleira de uma joalharia comum; era obraprima de um ourives desconhecido, marcado apenas com o selo do artesão. As autoridades, agarrandose a esse fio, tentaram rastrear a mãepássara e levála à justiça, mas o caso afundou num beco sem saída. O ourives tinha partido para a idade avançada, e nos seus tomos não havia registro algum daquele colar.
Assim, o orfanato anotou o menino como Alexandre Ignó. E ele tornouse, naquele mundo, mais uma criança do Estado do que qualquer outra coisa.
A infância de Alexandre foi passada entre as paredes do lar de crianças, com a assistência social a preencher o vazio. Sentia falta do amor parental e sonhava, como todos os seus companheiros de infortúnio, em dias encontrar a mãe e o pai.
«Talvez algo terrível tenha acontecido, para que a mãe me tenha abandonado assim. Ela voltará e me tirará daqui», pensava ele, enquanto o futuro se desenrolava como um tapete sem fim.
Quando saiu do orfanato para a grande vida, a cuidadora pendurou-lhe o antigo pendente e lhe contou a história que o acompanhava.
Então a mãe queria que eu fosse encontrado algum dia? murmurou o rapaz.
Pode ser, respondeu a cuidadora, ou talvez tenhas simplesmente arrancado o colar do pescoço dela por acidente. As crianças adoram agarrarse, e o pendente estava preso na tua mão, sem corrente!
O Estado concedeulhe um pequeno apartamento, seu próprio cantinho, e ele ingressou no instituto técnico. Graduouse, encontrou emprego num garage de Porto, onde passava os dias a mexer em motores como quem tenta decifrar um sonho.
***
Alzira apareceuse ao virar da esquina, como se o universo tivesse decidido colidir duas estrelas. Primeiro, bateramse pela rua; os catálogos de moda que Alzira carregava voaram como folhas ao vento, e Alexandre, num gesto desajeado, tentou recolhêlos, espalhandoos ainda mais.
O choque foi tão forte que faíscas cintilaram nos olhos de ambos, e lágrimas escorreram como rio de prata. Ficaram ali, no meio da multidão, enquanto as pessoas os contornavam, e eles sorriram um ao outro através das lágrimas. Naquele instante, Alexandre soube que havia se apaixonado para sempre.
Preciso reparar o que fiz! exclamou ele, estendendose convidote a tomar um café comigo!
Alzira aceitou como se fosse a coisa mais natural do mundo; Alexandre lhe parecia um urso ternurento, desajeitado, quase irmão.
Sabes, Alexandre, sinto que te conheço há toda a vida! disse ela, cinco minutos depois de se conhecerem.
Não vais acreditar, mas eu sinto o mesmo!
Começaram a encontrarse, a ligarse e a escreverse incessantemente, como se cada palavra fosse um fio que os mantinha unidos. Sempre que Alexandre se cortava ou se machucava no trabalho, Alzira ligava imediatamente.
Tu és eu! E eu sou tu! Sinto que és o meu destino! disse ele, quase num sussurro que pena que não posso apresentarte aos meus pais como minha noiva! Não tenho ninguém.
Mas eu estou aqui! Tenho a certeza de que os meus pais vão gostar de ti.
***
Então, como é que esse meu rapaz do orfanato vai ficar? exclamou Lurdes, mãe de Alzira, agarrandose ao coração, e despencou na poltrona de couro.
Mãe, mas o Alexandre é tão bom, tão alegre! Não podemos julgar a todos pela mesma régua! interveio a filha, defendendo o amado.
Claro, filha! Antes de formar uma opinião sobre alguém, precisamos vêlo, conversar com ele! Trazo aqui, vamos descobrir o que o teu Alexandre do orfanato respira. Só assim saberemos se o nosso coração deve apertarse ou não! disse o pai, Ivão Ribeiro, oficial de recursos humanos.
Não, Ivão! Não criámos a nossa filha para que se casasse com um homem sem raiz, sem linhagem! E se os pais dele forem imorais? gritou Lurdes, histericamente.
Vamos descobrir quando o encontrarmos! retrucou Ivão, franzindo a testa.
Lurdes, derrotada, recolheuse ao seu quarto, batendo a porta com força.
Ivão piscou para Alzira, conspirando:
Não te preocupes, filha, vamos ultrapassar isto!
Obrigada, pai! beijouo na bochecha e perguntou então convidoo ao nosso apartamento no sábado?
Claro! Quero saber quem é a moça que faz o meu filho sonhar assim.
***
No dia marcado, Alexandre, elegante e nervoso, apareceu à porta da casa de Alzira, com dois ramos de flores (um para Alzira e outro para a futura sogra) e um bolo nas mãos.
Alzira, radiante, guiouo até a cozinha.
Mãe, pai, apresentovos o meu Alexandre!
O pai apertoulhe a mão, Lurdes recebeu as flores e, de repente, empalideceu como se tivesse perdido a voz por um instante. Recuperouse, porém, e convidou todos a sentarem à mesa.
Desculpem, acho que exagerei um pouco. disse, tentando justificar a sua reação.
Durante o almoço, Lurdes questionou:
Alexandre, esse pendente é muito singular. Não parece algo produzido em massa.
É a única lembrança que tenho da minha mãe. Quando me encontraram na porta do orfanato, eu seguravao no punho.
Lurdes, até ao fim da noite, não disse mais nada. Passavaa a comer apenas ervilhas verdes, empurrandoas para longe da tigela.
Ivão, porém, achouo um futuro genro ideal; descobriram afinidades futebol, esqui, pesca.
Um rapaz ótimo! exclamou ele quando Alexandre se despediu.
Ótimo? gritou Lurdes, irritada sem postura, sem educação, incapaz de conversar!
Lurdes, estás a perder a razão? O que ele lhe fez? perguntou Ivão, confuso.
Lurdes, implacável, virouse para a filha e ordenou:
Deves romper com ele! Agora!
Fechouse novamente no seu quarto, como se a porta fosse um portal para outro mundo.
***
O que fazer? ecoavam na sua cabeça ideias caóticas e ardentes. Como podem duas almas cruzarse sob este céu imenso? Levantouse, com os olhos cheios de lágrimas, e fitou um retrato antigo que jazia entre as portas de vidro da estante.
Na foto pretoebranco, uma jovem de olhos travessos lhe lançava um sorriso orgulhoso. No pescoço, um colar idêntico ao de Alexandre pendiase como um espelho do passado.
Então eu não o perdi! O pequeno ladrão de pendentes arrancouo de mim! murmurou.
Guardou a foto no bolso:
Não pode a Ivão nem a Alzira ver isso agora! Preciso inventar algo!
Lurdes não dormiu a noite inteira. A única solução que lhe veio à mente foi convencer Alexandre a deixar a cidade para sempre.
Filha, perdoame, agi mal ontem! Quero pedir desculpas ao Alexandre! Podes darme o número dele?
Alzira, inocente, entregou o contato do namorado à mãe, sorrindo ao sair de casa.
Lurdes, sozinha, discou o número.
Alexandre, bom dia! Poderias passar aqui hoje? Dentro de uma hora?
Claro, estarei aí.
Dentro de uma hora, Alexandre apareceu como um baluarte na soleira do apartamento de Alzira. Lurdes, que abriu a porta, parecia enferma, os olhos inundados.
Temos que conversar! disselhe, conduzindoo ao quarto.
Alexandre, deves terminar com Alzira. É o meu segredo. Jurame que nem eu nem o Ivão descobriremos.
Está bem, juro! respondeu o jovem, sentandose no sofá, as pernas a tremer.
Alexandre, Alzira é tua irmã! declarou Lurdes, mostrando-lhe a foto onde o colar reluzia no seu próprio pescoço.
Mãe? perguntouele, os olhos a encherse de lágrimas. E o pai?
Lurdes balançou a cabeça negativamente:
Ivão não é teu pai. Eu e Vano (o antigo namorado) estávamos juntos. Depois ele entrou para a academia militar. Eu era jovem, insensata. Quando descobri que esperava um filho, ele abandonoume. Fizo desaparecer, leveio para outra cidade, contei à avó que o bebé havia nascido morto, mas entregueite ao orfanato. Anos depois, Ivão voltou e casámos.
E eu? implorou Alexandre, a voz a quebrar.
Tu és apenas o meu erro de juventude! Não tens direito a destruir tudo o que construí com esforço! Apareceste sem ser convidado, quando ninguém te esperava! Vai! Escondete! Deixa a minha família em paz!
Alexandre ficou mudo, incapaz de responder.
«Será verdade que essa mulher, tão feroz quanto uma fera encurralada, é a sua mãe?». As palavras dela ainda ressoavam nos seus ouvidos.
Com um suspiro pesado, Alexandre levantouse do sofá:
Adeus, Lurdes! Nunca revelarei o teu segredo.
Mas eu contarei tudo ao Ivão! ouvise uma voz.
De repente, na porta, apoiada no batente, estava Alzira, os braços cruzados, o rosto marcado por raiva e desprezo.
Sempre te achei boa pessoa, mãe gritoulhe, mas tu és uma vergonha!
Perdão, irmã! murmurou Alexandre, abaixandose, tentando esconder as lágrimas.
Correuse para onde os olhos o levavam, sentindose como uma bolha de ar que se rompe, espalhandose em fragmentos que desaparecem no infinito.
Alguns dias depois, Alexandre alistouse no recado militar, pronto para o front. Ivão e Alzira foram ao despedirse; Ivão o abraçou firmemente, como um pai.
Segurate, meu filho! Sabes que nós, com a Aliza, somos a tua família. Estamos à tua espera, volta quando puderes!
Alzira acariciouo nos ombros e sussurrou:
Volta, irmão, amamoste.
O coração de Alexandre aquecia. Não tinha mãe, mas ganhara um pai e uma irmã. Lamentou apenas terlhe amado mais do que à própria irmã.
Lurdes ficou sozinha. Ivão separouse dela, dizendo que nunca esperara tal traição. Ela continuou a culpar tudo e todos sobretudo o Alexandre que aparece sempre na hora errada.
A vida, como um sonho que se dissolve ao amanhecer, prosseguiu.







