Olívia odiava todos. Especialmente sua própria mãe.

Lembro-me, como se fosse ontem, de Anabela, que odiava a tudo e a todos sobretudo à própria mãe. Sabia, com a frieza dos que ainda são crianças, que um dia, ao sair daquele orfanato de Santo António, em Lisboa, encontrarseia com ela e pagaria a conta de toda a dor que lhe fora imposta.

Não pretendeu, porém, arremessarse aos braços de sua mãe e gritar:

Olá, mamã!

Queria observar, esperar e, então, vingála. Durante os anos que passou nas alas cinzentas daquele lar, enquanto lágrimas escorriam pelos seus olhos, a mãe, numa casa alheia, vivia a seu belpleite. Anabela nunca duvidou que assim fosse.

Ela sempre fora do orfanato; o tempo que tinha memória, era o mesmo que o tempo que ali vivera. Transferiama de ala em ala porque se metia a bater; não lhe importava se à sua frente havia um menino ou uma menina.

Castigavama, trancavama no quarto de isolamento, privavama de doces, mas ela continuava a odiar os cuidadores, as crianças e o mundo inteiro. Aos quatorze anos, cessou as brigas, não porque se tivesse afeiçoado a alguém, mas porque a todos temia.

O tédio começou a apertar-lhe o peito. Foi então que se recolheu num canto afastado do pátio e, ali sentada, sonhava com o dia em que encontraria a mãe e lhe infligiria a tão esperada vingança.

Numa tarde, ouviu uma melodia estranha, que lhe pareceu ao mesmo tempo bela e melancólica, quase um lamento que não conseguia decifrar. Curiosa, aproximouse dos arbustos de acácia e afastouos com delicadeza. Encontrou ali um velho varredor de caminhos, já com o chapéu gasto, que ainda tentava tocar um instrumento.

Que fazes? exclamou o homem, ao perceber que o seu instrumento tinha sido interrompido.

Quer aprender? perguntou, num tom inesperado.

A menina arregalou os olhos. Eu? Conseguir tocar assim? Pensou que nunca seria possível. O varredor, que se chamava Manuel Pereira, parecia ter cinquenta e poucos anos, mas ainda guardava energia para varrer e tocar.

Dia após dia, Manuel mostravale a técnica da flauta doce, que ele mesmo esculpia em madeira de amoreira, finas e elegantes como o próprio vento. Quando os primeiros acordes genuínos brotaram dos lábios de Anabela, ela o abraçou, e foi então que realmente conversaram.

Manuel vivia numa casinha pequena, nos fundos da instituição. Quando lhe perguntou por que não tinha família, ele respondeu:

Tinha tudo, Anabela. Casa, parentes Há dez anos perdí a minha Catarina. Pensei que não sobreviveria, mas o filho, o Sónio, deume esperança. Caseime depois, porém a esposa era gananciosa, só importava que agradasse ao Sónio. Cinco anos depois, o Sónio morreu num acidente de carro e o apartamento, que eu já havia passado para o seu nome, ficou vazio. A nora acabou por me mandar as malas para as quatro esquinas da cidade.

Por que nunca lutou? indagou Anabela, num suspiro.

Porque não há quem me faça falta aqui. Todos os que amei já se foram. Só me resta viver até que chegue a minha hora. Não preciso de mais nada.

A raiva que Anabela sentia pela nora de Manuel tornouse ainda maior que o ódio que nutria pela própria mãe. Primeiro pensou em vingarse dela, depois da mãe.

Quando Manuel percebeu que aquela menina era tão feroz quanto um lobo, ficou aterrorizado. Como pode uma criança carregar tamanha amargura? questionavase. Conversavam frequentemente; sentiase o gelo do ódio a derreter. Ela deixara de cortar o cabelo dos meninos, tornarase mais suave. O desejo de impor a sua justiça com punhos desaparecera.

Um dia, ele lhe perguntou:

Anabela, dentro de um ano vais partir. Já sabes o que queres fazer da vida?

Não Nem sequer pensei nisso. Só pensava em como arrancar a vida da minha mãe.

Imagina Se a vingança for o teu objetivo, primeiro terás de encontrála. Não sei quanto dinheiro será preciso, mas isso podemos ignorar por agora. O que farás depois?

Ela calouse, levantouse e saiu. Durante uma semana não voltou, mas regressou:

Quero construir.

Passaramse doze meses a estudar planos e projetos para o Instituto de Construção de Coimbra. Anabela sabia que a universidade era um caminho longo demais para ela, mas talvez fosse o futuro. No dia em que partiu para o norte, para estudar e viver, chorou pela primeira vez em muitos anos.

Manuel, prometo que voltarei a verte. Só preciso de aprender primeiro.

Concordamos então. Não desaparecerei; tu precisas terminar os estudos, firmar os teus passos, e depois visitarme quando quiseres.

Mas que velho és tu?

Ele entregoulhe uma flauta doce como símbolo da amizade.

Quase quinze anos se passaram. Anabela casouse tarde, sem nunca encontrar alguém que a compreendesse de verdade. Aos trinta, teve uma filha, a pequena Catarina, e logo se separou. Toda a sua alegria era a menina.

Hoje, com uma renda que lhe permite comprar o que quiser, finalmente pôde procurar a sua mãe. Descobriu que a mulher, uma viúva pobre, soubera dois meses antes do parto que estava gravemente enferma. Recebera diagnóstico de cancro, e, apesar dos esforços, os médicos previram apenas um ano de vida. Em desespero, a mãe decidiu abandonar a filha recémnascida no hospital. Na altura, nenhum médico a condenou.

Anabela, então, encontrou o túmulo da mãe, onde ergueram um enorme monumento com um anjo. Recordavase sempre de Manuel Pereira, mas ao regressar a Lisboa já não encontrou o velho varredor; o diretor do orfanato mudara, assim como quase todo o pessoal.

Nos poucos momentos de folga, Anabela e Catarina iam ao parque. A pequena, de sorriso contagiante, gostava de salvar o mundo. Até os seis anos, já era esperta o suficiente para persuadir a mãe a comprar tudo o que desejava antes de irem ao parque.

Mãe, comprame por favor salsichas, pão e um refresco.

Anabela fitoua.

Tenho medo de perguntar quem é o responsável desta vez.

Mãe, talvez fosse melhor não saberes. Por que te preocupas demais?

Catarina, não vamos a lado nenhum assim.

Mãe, é um senhor sem casa perto do lago, ele parece precisar de ajuda.

Quem?!

Anabela quase desmaiou; Catarina sorriu, como se dissesse te avisei.

Mãe, calma. É só um velho, não tem ninguém.

Ele não pedia como os outros, pois envergonhavase. Sabia tantos contos e poemas que ninguém mais conhecia. Tem medo das salsichas? perguntou ele, com voz rouca.

Sem saber o que dizer, Anabela comprou tudo o que a filha pedia e seguiram ao parque. Catarina sentouse num banco e disse:

Mãe, espera ali, eu vou ao lago. Vês o senhor? Está sentado ali.

Anabela viu realmente um idoso mal vestido, rodeado de crianças. Sentiuse aliviada; o importante era que a filha estava segura.

Ao cair da noite, Anabela deitouse no sofá com um livro. De repente, uma melodia familiar ecoou na sua cabeça. Silêncio. De novo a mesma melodia do início. Correu ao quarto de Catarina, mas a encontrou assustada.

Mãe, acordeite?

Catarina! O que foi isso?

O senhor do lago ensinounos a tocar flauta. Eu consigo, mas não consigo passar do começo.

Catarina suspirou. Na mão trazia a flauta. Anabela, com os olhos cheios de lágrimas, disse:

Deixa, eu mostrote. Também levei algum tempo a aprender

Tocou a melodia inteira e chorou. As lembranças inundarama, impossibilitandoa de conter o pranto. Catarina, assustada, perguntou:

Mãe, por que estás tão triste? A música te entristece? Queres que eu pare de tocar?

Anabela balançou a cabeça negativamente, saiu e voltou com a mesma flauta, agora um pouco escurecida pelo tempo.

Catarina, sabes onde mora o senhor?

Mãe, ali, perto do lago. Ele tem caixas atrás dos arbustos.

Vamos, filha.

Encontraramo imediatamente. Catarina gritou:

Dadi!

Ele saiu dos arbustos.

O que aconteceu, pequena? Por que não estás em casa?

Manuel Pereira, bonjour.

Ele estremeceu como se fosse atingido por um golpe. Olhou devagar para o rosto dela.

Anabela, não pode ser.

Abraçouo fortemente.

Tudo pode acontecer. Basta deixar de alimentar os mosquitos e vamos para casa.

Para onde?

Para casa, Manuel. Se não fosse por ti, nada teria sentido. Minha casa será sempre a tua casa.

No caminho de volta, Manuel enxugou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Eram lágrimas de alívio, de um fardo que já não pesava tanto. Se não fosse a firme mão de Anabela, ele teria caído há muito.

Agora, porém, sentiase seguro: não seria mais um velho abandonado à beiradomar, sem ninguém que o lembrasse.

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Olívia odiava todos. Especialmente sua própria mãe.
As crianças vêm até mim para descansar e nem sequer se preocupam em perguntar se preciso de ajuda