A Felicidade da Velha Casa ComunitáriaNaquela manhã de primavera, os moradores acordaram para encontrar o telhado da varanda decorado com flores, símbolo de uma nova era de união e alegria.

Esperava o Rui chegar do trabalho, sentada à mesa da cozinha, a beber um chazinho de tomilho devagar, a saborear cada gole como quem aproveita o fim de tarde. Quando ouvi o tilintar da chave na fechadura, levanteime, fiquei parada na porta, a observar a entrada. Apareceu o Rui, sério e calado, como sempre.

Olá fui a primeira a dizer, mais uma vez atrasado, já fiz a janta, esperavate aqui

Olá respondeu o Rui. Podias até não esperar, não estou com fome e nem nada, só vou deixar as minhas coisas aqui e partir falou ele, ainda sem tirar os sapatos. Foi para o quarto, abriu o armário e começou a enfiar numa mala as primeiras coisas que lhe cabiam.

Fiquei ali, boquiaberta. Não entendia nada, a observar enquanto ele atirava roupa, livros e até o relógio para a mala.

Rui, explicame o que se passa?

Não percebes? Estou a deixarte disse ele, sem sequer me olhar nos olhos.

Onde vais?

Para outra mulher

Ah, então para uma miúda, não é? Ainda por cima, tu próprio ainda tens quarenta anos disse eu, meio sarcástica, a tentar perceber o que se passava. Não vou chorar, ele nem vai notar as minhas lágrimas convencime, mas em voz alta acrescentei e há quanto tempo isso corre entre vocês?

Quase um ano respondeu ele, tranquilo. E ao ver a minha surpresa, acrescentou se não viste nada, se não adivinhaste, foi porque eu fiz tudo a esconder.

Vais embora de vez ou lancei a pergunta de repente.

Benedita, não percebes nada? Escuta bem disse ele, vou para outra, a nossa filha ainda está a caminho. Eu e ela vamos ter um bebé; a Catarina vai darme um filho. Doute um mês para saíres do meu apartamento. O resto, para onde ir, é da tua conta. Nós vamos viver com a Catarina e o filho, enquanto ela ainda mora num aluguer.

E, com isso, o Rui saiu. Eu fiquei sozinha, as paredes pareciam apertar, a casa ficou num silêncio mortal. Liguei a televisão, a ver se alguém falava. Doze anos de casamento se foram num piscar de olhos, e só depois de uma semana consegui recomporme.

Dos meus pais, que faleceram cedo, herdei uma casa de campo numa aldeia do interior. Mas viver sozinha naquela zona, longe de tudo, parecia um pesadelo.

Não consigo ficar lá pensei longe da civilização, sem conforto, sem trabalho. Aos trinta e cinco anos não quero viver no campo. Vou vender a casa e, com o dinheiro, comprar um quarto numa habitação social ou num albergue estudantil. Depois a vida vai-me dizer o que fazer.

Resolvi vender a casa assim que cheguei à aldeia. A vizinha, a Dona Vera, já estava à porta a esperáme.

Minha querida, que bom que chegaste, já íamos à cidade procurarte.

O que se passa? perguntei.

É que os meus primos do Norte querem comprar a tua casa. Precisam de um bico de construção que não pese demais. Querem estar perto de nós, a minha irmã e o marido

Meu Deus, Vera, era por isso que vim, tudo bem, vamos fechar negócio, só precisamos de acertar o preço. O meu número é

Tudo correu bem, dez dias depois já tinha o dinheiro na mão, embora fosse pouco só o que se consegue de uma casa meio caída. Com ele comprei um quarto num pequeno albergue tipo dormitório. A cozinha era partilhada, dois quartos já tinham outras pessoas, e eu o último. Por isso chamavao de habitação social.

Os vizinhos são gente tranquila, gente decente. Eu mal os via, o trabalho ocupavame do amanhecer ao anoitecer. Foi então que, no trabalho, nasceu um romance com o colega Nuno. Parecia que tudo corria bem, pelo menos eu achava.

Pouco antes do dia da mulher, 8 de março, ele deu-me a conhecer a verdade:

Preciso de pensar, não tenho certeza dos meus sentimentos, vamos dar um tempo ao nosso relacionamento.

Dános um tempo vá lá, anda lá para o mato! respondi, ofendida.

Voltei a casa na mesma noite, a cabeça a mil, tinha trinta e seis anos e não tinha tempo para pausas. Decidi aliviar o stress a comer algo. Abrái a geladeira e vi um pedaço pequeno de presunto que tinha guardado, mas não consegui encontrar. O coração bateu rápido.

Quem pegou o meu presunto? gritei na cozinha.

Benedita, eu já o tirei há dois dias estava a ficar verde e a cheirar mal achei que não ia comer, não vale a pena arriscar a saúde respondeu calmamente a vizinha Vera, um pouco sorrateira.

Não sabe que não se mexe nas coisas dos outros! retruquei. Não é da sua conta o que eu como.

Fiquei furiosa, despejei toda a raiva na Vera. Já tinha perdido o marido, a casa, e ainda o colega decidiu darme um tempo, tirandome a última esperança de felicidade; ainda por cima a vizinha mexia nas minhas coisas.

Vera, não se zangue interveio o vizinho do outro quarto, o José Ilhéu.

Ele era um senhor de sessenta anos, grisalho, intelectua­l, de óculos, sempre sentado num cantinho da cozinha numa cadeira velha, com um jornal ou um livro. A Vera estava visivelmente chateada.

A Benedita está zangada porque alguém a magoou explicou José, sem largar o jornal.

E quem é que sabe disso? retrucou eu, ainda irritada. Ninguém te perguntou nada.

Acredite, eu sei um bocado.

Se é tão sábio, por que vive aqui, numa habitação tão humilde? eu já não conseguia parar.

Resolvi pedir desculpas à Vera. Ela me lançou um olhar, encolheuse e voltou ao seu quarto. Eu fechei a porta com força e senteime no sofá, ainda a mastigar a amargura.

Mais um filósofo da cozinha a dar lições, a tentar ensinarme a viver pensei, faminta e irritada.

Passouse cerca de uma hora. Aos poucos, comecei a acalmarme, a olhar para o portátil, a lembrar que comprei aquele presunto há muito tempo e a imaginar o que teria feito com ele. O embaraço bateu.

Ofendi a Vera à toa, e ainda por cima ela me ajudou a pagar o arrendamento Estou a perder o controle, a transformarme numa dramaqueen. Eles devem estar a pensar assim de mim. Preciso pedir perdão decidi.

Encontrei a Vera na cozinha.

Desculpeme, Vera, não sei o que me deu. Foi tudo de repente E tem razão o José.

Ela sorriu, abraçoume:

Acontece, minha querida, eu percebi. Sentate, vamos beber um chá com bolachas. Pede desculpas ao José, ele merece um pouquinho de reconhecimento. Ele era professor na universidade, tinha um apartamento grande no centro, um trabalho que adorava. Mas fez uma pausa, olhando para o fundo dos olhos tudo mudou quando a esposa adoeceu, descobriram um tumor no cérebro. Os médicos disseram que era tarde demais. Ele tentou uma clínica em Israel, precisou de um empréstimo enorme, foi lá com a esposa. A operação correu bem, mas a melhora foi mínima. A esposa viveu mais um pouco, depois acabou por falecer. Ele largou o emprego, ficou a cuidar dela, e depois de a perder, vendeu o apartamento e pagou as dívidas. Acabou por viver aqui.

Fiquei quase a chorar ao ouvir tudo.

Obrigada por partilharem isso comigo disse, amanhã peço desculpas ao José.

No dia seguinte, depois do trabalho, bati timidamente na porta do quarto do José, com um pequeno presente nas mãos. Ele abriu.

Boa noite, José ofereci o presente, por favor, aceite o meu pedido de desculpas. Ontem fui injusta contigo, tens razão.

Ele me ouviu, não interrompeu, e quando terminei, respondeu:

Que surpresa agradável. Aceito o presente e as tuas desculpas, se quiseres celebrar comigo, hoje é o meu aniversário.

Oh, parabéns! O presente chega a tempo respondi, contente. Como posso ajudar?

Juntamente com a Vera, preparamos a mesa. Enquanto montávamos tudo, eu contei à vizinha a história da minha vida: como, jovem e ingenua no instituto, acreditei num marido casado, engravidei, ele levoume ao hospital, pagou tudo, depois se afastou. Não consegui ter filhos depois, e talvez seja por isso que o Rui me abandonou.

A mesa já estava posta quando tocaram à porta. Um homem alto, de quarenta anos, sorridente, apareceu.

Olá, sou o filho da Vera, o Ricardo apresentouse.

Olá, Benedita, sou eu, moro aqui. Entrem, por favor.

A conversa à mesa foi animada, brindámos ao José, desejámos-lhe saúde e tudo de bom. O Ricardo revelouse um excelente conversador, cheio de histórias. Foi geólogo, agora é motorista de longa distância, e tem sempre alguma anedota para contar.

Tudo aquilo era tão estranho ainda ontem, não conhecia essas pessoas, e hoje estávamos a rir como se fôssemos família.

Depois de algumas horas, José e a Vera voltaram aos seus quartos. O Ricardo disse:

Vamos dar um passeio, contame mais de ti. Eu não sou muito frequente por aqui, mas a minha mãe não quer mudar de casa. Segredo: ela está um pouco apaixonada pelo José, e eu acho que ele também tem os mesmos sentimentos riuse.

Se és tão esperto, por que vives nesta habitação humilde? lancei, sem conseguir parar.

Ele riu, e eu percebi que ainda tinha muito que pedir perdão.

Acabámos por nos despedir. Três dias depois, o Ricardo partiu numa viagem de trabalho.

Vai ficar muito tempo? perguntei.

Só uma semana, volto. Vais esperar por mim?

Claro que sim, fico a contar os dias.

E assim começou o nosso romance, que acabou por se transformar num grande amor. Casámos, mudeime para a sua casa, e um ano depois nasceu o pequeno Arturinho. Quando o Ricardo tem de ir em longas viagens, eu e o filho voltamos à habitação social.

Os dias de espera são curtos quando se tem companhia. A Vera e o José ajudam-me muito e adoram o neto. Não precisaria procurar melhores babás para o Arturinho já tenho os melhores ao lado.

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A Felicidade da Velha Casa ComunitáriaNaquela manhã de primavera, os moradores acordaram para encontrar o telhado da varanda decorado com flores, símbolo de uma nova era de união e alegria.
Шестгодишно момиченце почти всяка седмица в продължение на година оставяше хляб върху гроб – майка ѝ вярваше, че то просто храни птиците…