Sofia quis comemorar o jubileu connosco e exigiu desocupar o apartamentoAo chegar, Sofia encontrou o corredor iluminado por velas cintilantes, os vizinhos aplaudindo e uma mesa repleta de doces típicos, pronta para celebrar o jubileu em grande estilo.

Inês, o Tiago já te contou? disse a sogra, entrando na cozinha como quem anuncia uma tempestade. Ouve bem! Vai ter até vinte convidados, então vamos começar a preparar já à noite. Eu chego antes, por volta das seis da tarde.

O quê? De noite? replicou Inês, desconfiada. Nem fui eu que concordei com isso.

Espera, ainda não terminei. Já mandei ao Tiago a lista de compras; ele prometeu pegar tudo.

Tiago sempre foi o braço direito da irmã mais velha, Sílvia. Até os trinta anos ela já se casou duas vezes e se divorciou duas, e sempre foi culpa do marido não era o cara certo. A mãe deles, Madalena Alves, dizia ao filho desde pequeno:

A irmã tem que ser ajudada.

E Tiago ajudava. Seja com dinheiro quando a Sílvia ficava temporariamente desempregada, seja consertando o apartamento alugado dela, ou transportando as malas depois de cada divórcio.

Depois, ele se casou.

Catarina, a esposa, aguentava no silêncio. Mas quando, no quinto ano de casamento, Sílvia pediu uns poucos dias do carro porque o deu a volta, Catarina, firme mas suave, disse:

Tiago, já chega! Também precisamos do carro neste fimdesemana. Eu achava que tínhamos planos

O que? Não dá pra ir a pé?

Nem a pé nem a cavalo. Até a casa dos meus pais a pé não dá. Eles juntaram dois baldes de pepinos para a gente. Eu achei que terias ouvido quando eu falei.

É ouvi, mas sabes que a Sílvia tem uma situação urgente.

De novo? Qual?

Não sei ao certo resmungou Tiago mas ela precisa de mais alguma coisa.

Não, Tiago. Desta vez não vai dar! Ou recusas a irmã, ou compras-me um carro. Cansei de apanhar o comboio quando podia ser o marido a dar a carona.

Tiago, pela primeira vez, pensou em ligar para a irmã e recusar, mas Madalena rapidamente pôs tudo nos trilhos:

Vais largar a irmã por causa da esposa? Ela é a única! Quem a vai ajudar senão tu?

E Tiago voltou a ajudar, apesar das discussões com a esposa. Passaramse dias sem se falar e Tiago, já sem paciência, gritou:

Por que estás calada? Te magoaste?

É? Só precisaste de três dias pra perceber? retrucou Catarina.

Eu não consigo entender entender o quê?

Catarina riu da incompreensão:

Sério? Não percebeste? A tua irmã te levou para o fimdesemana porque precisava ir à casa da amiga. Pensei que só a estivesses a levar, mas acabaste lá dois dias. Não te incomoda nada?

O que te poderia incomodar? Só bebi um copo. O exmarido dela estava lá, e eu estava a conversar normalmente. Precisava de alguma comemoração. Não posso ser idiota e ir embora, não seria elegante.

Poderias ao menos telefonar.

Tu também podias atirou Tiago.

Eu liguei! Só que o teu telemóvel estava desligado. Imagina? Eu, toda nervosa, sem saber onde está o marido. E ele resolve descansar de mim desabafou Catarina.

Não inventes disse Tiago, afastandose e fazendo um gesto como se o telefone tocasse.

Tiago saiu para a varanda e só lá atendeu. Sabia bem que a esposa não ia apreciar outra conversa com a irmã.

Olá, mano! estalou Sílvia ao telefone. O meu jubileu é dentro de duas semanas! Trinta anos! Sabes o que isso significa, não é?

Tiago olhou cautelosamente para Catarina, que ainda derramava sopa.

Então o que queres? perguntou ele.

Como sempre me entendes! gargalhou Sílvia. Quero celebrar na vossa casa! A tua sala é enorme. Na minha casa alugada é apertado, e a patroa vai ficar irritada. Restaurante está caro.

Talvez num café? Eu pago o que for preciso.

És sério? indignou Sílvia. É um jubileu! Queres que eu pague o aluguer quando tu tens um apartamento? E ainda vais ter de acrescentar o resto. Eu não sou filha de milionário!

Primeiro falo com a Catarina. Também é a casa dela. Talvez tenha planos diferentes.

É tarde! interrompeu a irmã. Já avisei a todos que a festa será na vossa casa. Liberta o apartamento o dia inteiro, ok? A mãe disse que vai cozinhar tudo.

Tiago suspirou e cobriu o rosto com a mão, enquanto tentava imaginar uma saída. O telemóvel vibrou outra vez, desta vez com uma mensagem da mãe.

«Sílvia pediu para montar o menu. Aqui vai a lista de pratos. Também precisamos de comprar os ingredientes. Diz à Catarina para ajudar, e a preparação não vai ser um bicho de sete cabeças.»

Nesse meiotempo, Catarina, alheia ao jubileu da Sílvia, acomodouse no sofá com o telemóvel, pronta para maratonar a série preferida. Quando Tiago entrou na sala, baixando os olhos, ela percebeu tudo de imediato.

E então? perguntou, pausando a série.

Inês, ouve A Sílvia tem jubileu, trinta anos, entende? É uma data

Catarina ergueu a cabeça.

Então deixa-a festejar. Não vamos proibir nada.

Tiago coçou a nuca.

Não é isso. Ela quer comemorar aqui.

O quê? levantouse Catarina. Na nossa casa? Só um fimdesemana? Diz que o restaurante é caro e a casa dela está apertada

E então? Aceitaste?

Eu disse que falaria contigo primeiro! Mas a Sílvia já convidou a todos. E a mãe está a escrever o menu

Catarina fechou os olhos, respirou fundo.

Tiago, tens a certeza de que és um adulto? Ou só um megafone das vontades da Sílvia?

Que é que estás a começar?

Estou a começar? disse Catarina, ironizando, apontando o telemóvel. E nada, ninguém sequer me ligou? Esta é a minha casa, não um ponto de trânsito para os teus parentes. A Sílvia quer festejar aqui, eu devo ajudála, ainda devo ajudar a tua mãe e nem me perguntaram!

Nesse instante o telemóvel de Catarina tocou.

Ah, a cereja no topo do bolo murmurou, balançando o aparelho. A tua mãe fez um gesto dramático com a mão para Tiago.

Inês, o Tiago já te avisou? interrompeu a sogra, como se fosse a primeira vez. Olha! Vai ter até vinte pessoas. Começamos a preparar à noite. Eu chego por volta das seis, no dia anterior.

De noite? soltou Inês, cética. Não assinei nada assim.

Espera, ainda não terminei. O Tiago já tem a lista de compras, prometeu comprar tudo.

E o dinheiro? Onde vamos arranjar?

O Tiago prometeu ajudar respondeu sucintamente Madalena.

Ah, então querem transformar o meu apartamento num restaurante, e ainda pagar o banquete? começou Catarina, já sem paciência.

A Sílvia não é estranha a vocês! Só um dia, cortas algo na cozinha, fazes umas saladas, uns canapés Tu és a dona da casa!

Madalena, interrompeu Catarina, acabei de descobrir a festa. Não dei permissão para a Sílvia fazer aniversário aqui.

Tu dizes minha casa. Vocês são casados, tudo é de ambos! rebateu a sogra.

Não digas isso. Se fosse a casa do Tiago, não dirias isso. Eu seria apenas uma dependente.

Não digas disparates. Acabou, conversa terminada. Até sextafeira precisamos das compras concluiu Madalena, desligando o telefone.

O que foi isso? perguntou Catarina ao marido, ao ouvir o toque final.

Já chega de fazer o papel de vítima! exclamou Tiago. Já te disseram que não tens razão. Reconhece o erro e deixa de te apoiar.

Catarina ficou boquiaberta. Levouse ao armário, tirou uma grande bolsa de ginásio e, silenciosa, foi ao quarto, abriu o cós e começou a dobrar camisolas e jeans de Tiago.

Enquanto isso, Tiago, sentindose o vencedor, abriu a geladeira com estrondo, tirou uma garrafa de cerveja, bateu a porta e foi sentar no sofá, como se nada tivesse mudado.

Ele achava que Catarina iria esfriar e tudo voltaria ao normal. Um pouco de irritação, um resmungar, e depois a calma. Até ligou a televisão e pensou que ela viria chamálo para o jantar. Mas estava enganado.

Meia hora depois, Catarina apareceu no corredor com um saco na mão, ao lado da bolsa cheia de pertences de Tiago. Tiago levantouse da cozinha para pegar outra coisa, mas ficou cara a cara com a esposa.

O que é isto? bufou. Que espetáculo estás a montar?

Catarina o fitou, fria:

Não é um espetáculo, Tiago. É o fim. Já não quero ser só sombra na minha própria vida, nem a acompanhante da tua mãe e irmã. Se queres ser um bom filho e irmão por favor volta para a casa da tua mãe. Preparai a festa juntos. Tenho a certeza que ela te vai dar um cantinho na própria sala.

Estás a brincar? deu um passo em direção a ela. Eu não volto.

Absoluta seriedade, assentiu Catarina. Não quero que voltes. Aguentei tanto que agora até me pergunto quem sou. Mas já chega. Se em três anos ainda não me aprendes a respeitar, nada vai melhorar.

Inês não podes destruir tudo assim! Num instante!

Não se destrói o que já está em ruínas.

Tiago fez uma careta, sem entender que Catarina tinha decidido de vez.

E então, acrescentou ela, todas as tuas camisolas e jeans aqui. Não precisas agradecer. Sai já.

Ele tentou dizer algo, mas Catarina abriu a porta da entrada. Tiago ficou parado, vermelho de raiva. As bochechas inflamavam, os lábios apertados. Ainda esperava que Catarina cederia, mas a tranquilidade dela irritavao ainda mais.

Então, é isso! exclamou ele. Achas que vais encontrar alguém melhor? Ainda há muitos por aí!

Catarina deu um suspiro e recuou um passo:

Pessoas como tu ainda dá para achar graças a Deus.

Vais arrependerte! gritou Tiago, agarrando a bolsa. Vais rastejar quando perceberes que ninguém quer nem falar contigo! Sem mim, és ninguém!

Se ninguém significa alguém que tem casa própria, trabalha e não serve de criado aos familiares do marido, então adoro ser ninguém.

Tiago saiu, e Catarina ficou sozinha. Respirou fundo, aproximouse da janela, puxou a cortina e viu o exmarido empurrar a bolsa para o portamala de um táxi.

Passaramse alguns meses.

O processo de divórcio foi doloroso. Tiago tentou pintar Catarina como avarenta e interesseira. O ponto central foi a disputa pelo carro comprado durante o casamento. Ele alegava ter pago tudo, Catarina que o usava, dizia que o carro era dela.

Meritíssimo, eu paguei todas as prestações, o carro está ao meu nome! defendia ele. A minha esposa nem um cêntimo deu!

Catarina, fria, abriu a pasta de documentos, espalhou extratos bancários, comprovativos de transferências, o contrato de sinal que ela própria assinara.

Não reclamo a metade do carro. Mas a minha parte também não entrego afirmou serenamente.

O juiz decidiu a favor da justiça.

Tiago não gostou. O carro agora era dele, mas teria de ser vendido e o dinheiro dividido. Saiu da sala do tribunal com o rosto vermelho de fúria.

Em casa, não encontrou apoio, mas uma avalanche de reclamações.

És um idiota? gritou Madalena. Devolveste tudo! O carro! O apartamento! Ainda não conseguiste um bom advogado!

Além disso, Tiago ainda tinha um crédito para cobrir a festa da Sílvia num restaurante, porque prometeu que ela teria o local. Agora só lhe restava um canto apertado o sofá da casa da sogra.

Catarina, pela primeira vez em muito tempo, dormiu tranquila. Decidiu que ainda era jovem demais para ficar presa a alguém como Tiago. Homens decentes há por aí; basta saber quem é quem e quando é a hora de abrir a porta.

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Sofia quis comemorar o jubileu connosco e exigiu desocupar o apartamentoAo chegar, Sofia encontrou o corredor iluminado por velas cintilantes, os vizinhos aplaudindo e uma mesa repleta de doces típicos, pronta para celebrar o jubileu em grande estilo.
— Щом си купиш своя апартамент, тогава ще настаняваш в нея когото си пожелаеш! А сега излитай оттук заедно със сестричката си!