**Diário de Vasco 8 de setembro de 2026**
Você só consegue diferenciar a salsa da salsa de marca pelas etiquetas da mercearia! E as frutas, só conhece em compota! resmungou a vizinha, Rosa, irritada.
Valentim e eu chegámos à nossa quinta em Sintra no fim do verão passado. Comprámos o sítio no outono e agora, já na primavera, decidimos pôr tudo em ordem. A casa é acolhedora, mesmo no inverno, mas a terra e o resto da propriedade exigem muito trabalho.
O velho pomar precisava de uma boa limpeza, quase um milagre. Já encomendámos a nova sauna finlandesa; chega dentro de uma semana e será instalada, falta só escolher o local. Aproveitamos para colocar um alpendre ao lado da sauna para a roupa, um cobertor para lenha e uma pérgula. As crianças prometeram vir ajudar em tudo.
É um lugar calmo, dá para viver aqui o ano inteiro. Agora somos pensionistas. disse Valentim.
Eu verifiquei a adega; só precisamos mudar as portas. respondi eu, a olhar para a parede da cozinha.
Olhei a varanda de trás. Lembras-te da pérgula que falámos? Não tem fim de utilidade. Na varanda há uma mesa redonda grande, cadeiras antigas.
Só falta restaurar as cadeiras; vão durar mais cem anos. Do lá podemos olhar para o pomar, tomar chá e contemplar. Também há portas a trocar; dá a sensação de que alguém passou aqui inverno passado.
Primeiro as portas. Tudo será feito no quintal dos fundos, longe da rua, para que fique bonito. Em frente à casa, um pequeno relvado com flores.
As flores já estão plantadas, são perenes; só precisamos decidir onde reposicionar algumas. Talvez tenhamos de transplantar algumas, mas deixaremos assim por esta estação.
Na semana seguinte chegaram a sauna e as crianças. Começámos a organizar o terreno. Rosa apareceu para conhecer os progressos, e os netos dela corriam ao redor da casa.
Vocês têm netos? perguntei.
Sim, vieram visitar.
Por que esse grande portão? Entre nós vizinhos nunca tivemos cercas.
Sem cercas? O que havia aqui antes? Acabámos de demolir uma cerca que já estava caída. Você nem notou, mas para nós a ordem é essencial. Não se preocupe, não tiramos nenhum metro da sua propriedade; o portão está exatamente na linha da nossa demarcação.
Não haverá um portão secundário? Sempre tivemos passagem aqui.
Você quer dizer entre as casas? Não está nos planos. A entrada será só da rua.
E as crianças, como vão brincar? Vi que cortaram as macieiras, mas as crianças adoravam escalar por elas.
Não cortamos, fizemos a poda e a limpeza. Plantamos novas árvores. Deixem as suas crianças brincar nas nossas macieiras.
Tudo está novo por aí. Por que plantar arbustos ao longo da nossa cerca?
Só por estética!
Rosa saiu, mas voltou com mais perguntas. Os netos dela corriam pelo nosso pomar até colocarem o novo portão.
Vocês já se instalaram bem aqui disse Rosa novamente. Vão viver aqui no inverno?
O tempo dirá.
Por que fecharam o portão? As crianças costumavam jogar a bola bem ali, era prático e seguro.
Tenho tudo plantado e ainda mais do que vocês. Vocês só diferenciam a salsa pela etiqueta da mercearia e só conhecem frutas em compota. Precisamos de amizade verdadeira.
O portão está fechado para que não haja olhares curiosos e para que os vossos netos não se tornem donos da terra. Dois dias atrás perderam duas galinhas nossas, ainda não as encontramos.
Vocês têm galinhas também? Então decidiram viver aqui?
Já vivemos aqui.
No final de agosto celebrámos o aniversário do Valentim. As crianças, os netos, toda a família reuniuse. Os homens grelharam carne, as mulheres prepararam saladas e montaram a mesa na varanda.
Nós viemos cumprimentar o vizinho, como costuma ser. Sempre chegamos sem convite. Somos vizinhos, as crianças já sabem tudo logo de manhã.
Vocês se preparam, os convidados chegaram, então é festa. Vamos sentar. Assim as crianças ficam mais alegres e, acima de tudo, chegou a hora de estreitar os laços.
Não nos convidaram, então só a família vem. Nosso relacionamento é de vizinhança, não de família.
Talvez um dia isso mude. As crianças crescerão. Quem sabe nos tornemos parentes respondeu Rosa, rindo.
Mesmo tentando impedir, Rosa não parava de mudar tudo. Os netos dela escalaram macieiras e pereiras, subiram ao telhado da sauna felizmente não caíram. Depois se divertiram atirando pedras nos baldes infláveis que tínhamos instalado; demoramos a notar o alvoroço. Quando a água do balde jorrou, as crianças gritaram de alegria.
Já chega, o outono está perto, é hora de guardar o balde disse Rosa. As crianças divertiramse.
Vocês já podem ir para casa!
Ainda não sentamos, as crianças estão famintas. Vamos à mesa!
A comemoração acabou meio atrapalhada, mas outra festa se avizinhava. Na semana seguinte, voltaram as visitas para celebrar o 35.º aniversário de vida conjunta de Valentim e eu.
Alguém, rapidamente, trancou o portão. Descobriuse depois que foi o neto de sete anos, o mais novo da família, quem o fez. Ouviramse batidas no portão; todos fingiam nada, mas o perfume de chouriço assado e o frescor da brisa criavam um clima de festa. A noite esfriou.
Quando nos esperam na cidade?
Ainda vamos decidir. O outono se aproxima, vamos colher as maçãs que este ano foram excelentes. Gostamos de tudo aqui, exceto a intrusão de Rosa, mas ela não nos impede de seguir. Aprendemos a lidar com ela.
Rimos todos juntos.
Os convidados partiram; Valentim e eu ficámos sozinhos. O outono virá, depois o inverno Tentaremos tudo. Se não der, sempre podemos voltar ao apartamento no centro de Lisboa.
Rosa partiu; revelou que precisava levar os netos à escola. A filha dela está sobrecarregada, mas a avó vai ajudar. Valentim e eu suspiramos aliviados. Deus nos dê vizinhos menos intrusivos.
**Lição pessoal:** a paciência e a comunicação são as chaves para transformar vizinhança em amizade; sem elas, até a mais bela quinta pode ficar sombria.






