15 de novembro Diário
As pessoas passam ao meu lado: umas apressamse, outras vagam devagar, mas quase ninguém se detém. Contoos os dias? Não faz diferença; se cada manhã começa como a outra, os números perdem sentido. Aqui, à sombra da velha cerca de ferro enferrujada, o amanhecer só difere do crepúsculo pela forma como a luz se infiltra entre as fendas. Chuva e vento já são rotina, tão familiares quanto a fome e o silêncio. E ainda assim não fujo. Aquela cerca é o único lugar que não me empurra para fora. Por vezes sintome ligado a ela como antes me sentia à casa onde nasci. Talvez ainda espere por quê? Nem sei.
A estreita faixa de terra onde a cerca balança entre o muro e a calçada está coberta de lama misturada com água; a chuva escorre lentamente pelos pregos oxidados. Os transeuntes atravessam apressados; se me lançam um olhar, dura apenas um instante, cansado ou indiferente. Para eles, sou apenas mais um cão abandonado na rua.
Mas eu lembro de outro mundo. Um mundo onde o manhã começa com o perfume do pão quente. Uma cozinha pequena, onde minhas patas giravam em círculos, tentando alcançar a mesa. O calor do fogão no inverno, o riso da dona quando tropeçava nos próprios sapatos. A mão suave que acariciava a minha cabeça.
Tudo mudou aos poucos. Primeiro foram apenas olhares frios e raros. Depois, a tigela que ficava vazia com mais frequência. Gritos, palavrões, empurrões. E, de repente, encontrei-me fora do limiar, sem despedida, sem explicação. A porta simplesmente fechouse, e eu fiquei do lado de fora.
Pensei que fosse um engano. Pensei que logo me chamariam. Mas a porta não se abriu, lembro-me a murmurar ao vento.
A rua tornouse minha escola, onde as lições eram dadas à base de tapas e arranhões. Aprendi a desviar dos postes, a rodear as pedras, a farejar migalhas diante das lojas. Às vezes consegui um pedaço de pão ou um osso de um estranho que teve um coração mole. Mas, sempre que cruzava o olhar de um transeunte, esperava em silêncio: Talvez seja ele quem diga: Vamos para casa?
Aquele dia estava frio e úmido. Desde o amanhecer a chuva não cessava, o vento arrancava folhas das azaleias. Encolhido, sentia o frio a percorrer cada osso. Foi então que ouvi passos. Uma mulher de sobretudo gasto arrastavase devagar, como se não soubesse para onde ir. Quando me viu, parou.
Meu Deus menina, quem te fez sofrer assim? sussurrou ela.
Olhas para mim diferente. Não como aqueles que passam apressados. Os teus olhos são quentes, como os da senhora que um dia chamei de dona.
Ela se aproximou, mas não me tocou de imediato. Tirou lentamente um pedaço de pão e uma linguiça de um saco.
Por favor, come.
Hesitei, como se o chão fosse desaparecer sob meus pés. Peguei a comida e mastiguei cada bocada com cuidado, como se temesse que fosse desaparecer. Ela não apressou, apenas sentou ao meu lado e observou.
Vamos murmurou, quase num sussurro. Dentro está quente. E ninguém mais te ferirá.
Vaime chamar Mas será que posso crer? E se amanhã a porta fechar novamente?
Mesmo assim, seguia. O portão rangiu, e entramos num pequeno quintal de Lisboa, onde a velha cerca já não rangia mais, e um macieiro deixara apenas galhos despidos. A casa exalava cheiro de caldo e pão. Esse aroma golpeoume a memória com tal força que parei, imóvel, no limiar. A mulher estendeu um pano velho ao chão, encheu um tinco com água limpa e preparou uma tigela de papas quentes.
Este é o teu lar disse, acariciando-me a cabeça com delicadeza.
A noite quase adormeceu comigo. Deiteime, ouvindo o ranger do chão, o tilintar das panelas. Ela entrava e saía, ajeitando o pano, sussurrando:
Está em casa, ouvi?
Em casa Quantas vezes temi não ouvir mais esta palavra.
Os dias passaram de outra forma. Na porta, ela esperavame com a bola gasta que eu costumava perseguir. Deitouse ao meu lado enquanto tomava o seu chá, e eu escutava a sua voz, mesmo sem entender todas as palavras. Meu pelo ficou macio outra vez, meus olhos claros.
Às vezes, ao passar por aquela cerca ainda balançante, paro e encaro o vazio, como se o velho eu, faminto e molhado, ainda estivesse ali. Ela se aproxima, coloca a mão no meu pescoço e diz:
Vamos para casa.
Sim agora sei exatamente onde é.
Hoje, ao fechar o caderno, sintome grato. O barulho da rua ainda ecoa, mas dentro de mim há um farol que nunca se apaga. Cada passo que dou agora tem um destino: o lar que encontrei, mesmo que fosse inesperado.







