Natália, não vou viver com o seu filho, diga isso a ele afirma Lurdes, a sogra, sem pestanejar. E com quem vais viver? A quem precisas com a criança? Não vejo aqui fila de príncipes à espera lançalhes um olhar de soslaio.
Lurdes está a arrumar as coisas da filha. Já colocou no saco o que realmente importa: o casaco quente da pequena Sofia, os sapatos, mais um par. Não há lágrimas nem ansiedade; a noite em claro bastou para decidir que ela e Ciro precisam separarse.
Ouvese a porta de casa a fechar quando Ciro chega. Vaise ao quarto, não encontra a esposa e abre a porta do quarto da criança; Lurdes finge que dorme.
Logo de manhã, enquanto Ciro se prepara para o trabalho, hesita à porta do quarto de Sofia, mas não entra, preferindo adiar a conversa para a noite.
A conversa nunca chega, porque Lurdes, dentro de meia hora, chama um táxi e parte, junto da menina de dois anos, para a casa dos pais, em Sintra.
O que aconteceu ontem a faz recusarse a falar ou até a olhar para Ciro. Já se habituou à visita de quintafeira, mas ontem era quartafeira. Na manhã anterior, pediu ao marido que chegasse mais cedo e ficasse com a filha enquanto encontrava a amiga Vera, que prometia uma vaga de trabalho remoto.
Não se sente segura para deixar Sofia ao cuidado de Ciro e liga a Vera para adiar o encontro. Ciro reage irritado:
A quem estás a ligar? Que encontro é esse? exclama.
Estou a falar com a Vera. Marcámos um encontro, mas não posso deixar Sofia contigo.
Por quê?
Olhate no espelho, a quem pareces. Vai dormir, amanhã tens trabalho responde Lurdes, dirigindose à cozinha.
Espera! grita Ciro, agarrandoa pela mão. O que há no meu estado que não te agrada? Vais ficar a conversar com os miúdos, hoje o Vítor faz anos. Pensa que és princesa! Eu decido quando e como volto para casa, está bem?
Soltame! tenta Lurdes libertarse. Dáme um tempo, já estás a perder a razão!
Ciro vacila, quase cai, mas recuperase e, num impulso, dá um soco na face de Lurdes. Ela cobrese o rosto, ele, surpreendido pelo próprio gesto, larga a mão e tenta dizer algo. Ela virase e vai para a filha.
Princesa! grita Ciro novamente e sai do apartamento.
A sogra chama Lurdes de princesa. Natália, a mãe de Ciro, nunca gostou dela.
Tem vinte e um anos e ainda depende dos pais. Eu já tinha um filho e outro a caminho nessa idade. diz Natália. Marido, casa, horta, tarefas domésticas e ela ainda estuda! Vai ser um fardo, Ciro. Escolhe uma mulher mais simples!
Os pais de Lurdes também não aprovam o genro.
Lurdes, para onde vais? Ciro não é o último homem na Terra! Apaixonada? Bem, podem até morar juntos, mas sabes que sou contra. aconselha o pai. Não te cases logo. Pensa: queres passar a vida com ele? Olha a família dele, depois decide.
Lurdes decide. Meio ano depois percebe que a decisão não foi a melhor. Poderia ter ido embora, mas era vergonhoso admitir que os pais tinham razão e, ao mesmo tempo, ainda nutria esperança.
A chegada de Sofia não muda Ciro. Continua a achar que as tarefas domésticas e os cuidados da criança são responsabilidade da esposa.
Doente, a filha, ou qualquer outro imprevisto nunca servem de desculpa para ele. Se não houver jantar pronto ou a casa limpa, ele a culpa:
Com uma criança não consegues? As outras mulheres conseguem tudo! Quando eu vou trabalhar, tu já estás a dormir!
Sofia está a nascer os dentes, está de mau humor, e eu não consigo cozinhar com ela nos braços. Pedi entrega. Consegues fazer nhoque? Ou fica com a filha, eu preparo o jantar.
Já não há mais óculos cor de rosa. Cada vez mais Lurdes pensa que a mãe estava certa ao aconselhara a não se apressar no casamento e a investigar a família de Ciro.
Algumas vezes tentou partir, mas Ciro prometia mudar, e ela acreditava. Ainda esperava por ele, mas ontem, quando ele estendeu a mão pela primeira vez, percebeu que não aguentaria mais.
É vergonhoso perante os pais, mas viver com quem levanta a mão contra a mulher não é uma opção. Muito menos deixar Sofia numa situação assim.
A mãe de Lurdes vê da janela o táxi que chegou à porta da casa e a filha com Sofia nos braços.
Miguel, olha, a Lurdes chegou com as malas. Ajudaa a levar a sacola diz ao marido.
Lurdes entra, tira os óculos escuros e os pais notam o olho esquerdo inchado, um roxo a escurecer.
É o Ciro? surpreendese a mãe.
Lurdes assente.
Vou trataro agora corre o pai para a porta.
Pai, não, deixame intervém a filha. Vou puniro de outro modo. Ajudame a buscar as coisas e o berço da Sofia do apartamento dele.
O pai e o tio, irmão mais velho de Lurdes, vão buscar as malas; depois o pai levaa ao posto de saúde.
Se quiserem queixa contra o Ciro, o atestado do posto não basta; tem de ir ao instituto de medicina legal explica o tio. Amanhã marcamos a consulta.
Ciro chega do trabalho com um buquê para a esposa e um brinquedo para a filha. Mas a casa está vazia; nem as malas, nem o berço da Sofia. Liga para Lurdes, mas o telemóvel está desligado. Então liga para a sogra; ela responde:
Sim, a Lurdes está aqui com a Sofia. Melhor não apareceres, ainda sinto o nó nos punhos. Ela mesma vai pedir o divórcio.
Ciro tenta ligar novamente à esposa, até a esperta ao fundo da casa dos sogros, mas ela não responde. Quando sai a passear com Sofia, só aparece no quintal.
Uma semana depois Ciro recebe a documentação do divórcio. A bomba explode: a sogra, Natália, aparece à porta.
Mãe, não quero falar com ela diz Lurdes.
Mas acho que devemos conversar, esclarecer tudo responde Natália. Vamos, não a convidamos para dentro, a Sofia está a dormir; falamos no pátio.
Vais divorciarte? avança a sogra. Se não for à tua maneira, já preparas a petição?
O Ciro me violou diz Lurdes.
Então provaste! Chegoute o marido debaixo da mosca, não te afogas nele, espera que se acalme.
E tu meteste-te a descobrir a relação, e agora recebes um soco. E então, divorciar? Deixar a criança órfã?
Natália, não vou viver com o seu filho, transmitamlhe isso afirma Lurdes.
Com quem vais viver? Quem precisa da criança? Não vejo fila de príncipes à porta comenta a sogra, desviando o olhar.
Eu dou conta sozinha.
Então não contas com o apartamento do Ciro nem com pensão, resmunga Natália.
Não preciso do apartamento dele. Mas a pensão vai ser cobrada, e o tribunal está do meu lado.
Assim, o divórcio é concluído; o relatório de lesões corporais pesa a favor de Lurdes. A pensão é fixada em quatro mil euros mensais, até que a Sofia complete três anos.
Passamse cinco anos. No primeiro de setembro, à porta da escola, há uma cerimónia: alunos do ensino secundário, crianças da primeira classe com grandes flores. A avó e o avô de Sofia, e a própria mãe, vêm despedira.
E o pai vai vir? pergunta a menina, virada para a mãe.
Vai, com certeza. Já ligou, está a chegar responde Lurdes. Olha, lá está!
Lurdes acena para o homem alto que tenta localizar a família na multidão colorida.
Mas não é Ciro. Três anos atrás, Lurdes casouse com Alexandre, colega de trabalho. Agora esperam um filho.
Ciro continua só. Já teve várias namoradas, e também foi desejado por outras, mas sempre que a relação se tornava séria, alguém revelava a razão pela qual a primeira esposa o deixou.
Na pequena vila, todos se conhecem. Ciro ganhou o apelido de boxeador do sofá.
Talvez um dia encontre alguém que ignore esse passado, mas ainda não aconteceu. A lei do boomerangue funciona, ainda que nem todos acreditem.
E vocês, o que pensam? Deixem os comentários. Curtam se gostaram.
Amigos, se querem ler mais histórias nossas, comentem e não se esqueçam dos likes. Isso nos incentiva a continuar a escrever!






