Vera, no fim de contas, nada de grave aconteceu! Às vezes os homens se deixam levar e não conseguem travar a tempo diz a sogra, tentando acalmarse. Seja mais sábia. Vai mesmo ceder ao teu marido por causa de uma garota? Ela vai pensar que te venceu! Luta pela família! insiste Nina Vítor.
No sábado de manhã, Vera leva o filho Dinis à casa dos pais. Ela combina que Joaquim ficará ali por uns dias.
De volta ao apartamento, Vera abre as caixas de papelão no balcão e começa a organizar as coisas, primeiro as que vão para o quarto da criança. Empilha roupas, brinquedos, livros, fecha as caixas com fita adesiva e rotula tudo. Falta pouco para que fique apenas o mobiliário, que ela não pretende levar.
Por volta das doze horas o telefone toca. É a sogra.
Bom dia, Nina Vítor.
Boa tarde, Vera. O Joaquim contoume tudo. Sei que estás magoada, mas será que não devias respirar fundo e refletir? Não será que estás a destruir a família tão depressa? pergunta Nina.
Não sou eu quem destrói a família, é o Joaquim responde Vera.
Vera, não lhe tiro a responsabilidade! Mas, talvez, na primeira ocasião possas perdoálo?
Que primeira ocasião é essa? O teu filho tem um caso há seis meses com a colega, enganame, e tu dizes perdoar? Não diz Vera, firme.
Pensa bem, por favor. Estás a privar o Dinis do pai. E o Joaquim ama muito o filho!
Nina Vítor, Joaquim pode ver o Dinis, eu não vou impedir. Mas não quero mais viver com ele. Vamos acabar aqui conclui Vera, enquanto coloca as duas últimas caixas no carro e passa ao quarto para dobrar as roupas na mala.
A sogra aparece na porta exatamente uma hora depois. Nina Vítor acha que, numa conversa a sós, convencerá a nora a não destruir o casamento.
A discussão dá a volta ao mesmo ponto:
Vera, nada de grave aconteceu! Às vezes os homens se deixam levar e não conseguem travar a tempo.
Seja mais sábia. Vai ceder ao marido por causa de uma garota? Ela vai achar que te venceu! Luta pela família!
Nina Vítor, Joaquim não é um troféu que eu tenho de lutar por ele! Queremme colocar a cara a cara com a Jana? Ou num ringue de boxe? Que importa a Jana? Se não fosse a Jana teriam aparecido a Elisa ou a Catarina.
Sabes, confessote um segredo: o Ivo, pai do Joaquim, também pecou na juventude. Eu fui mais prudente que tu e mantive a família. Vês? Já há quase trinta e cinco anos que estamos juntos. Dentro de pouco celebramos o aniversário de coral.
Qual foi a tua sabedoria? sorri Vera.
Não criava escândalos. Ao contrário, fui carinhosa, preparava os pratos favoritos dele, interessavame pelos projetos, cuidava de mim troquei o corte de cabelo, emagreci, saía do trabalho com um sorriso explica a sogra.
Às vezes sabia que ele vinha da amante e queria apenas arrancar-lhe a cabeça, mas mantiveme calada e sorri. Conseguio. O filho cresceu ao lado do pai, e eu tenho o neto a cuidar.
Nina Vítor, és uma mulher incrível. Eu não seria capaz. Eu tenho um instinto de repulsa muito desenvolvido. O que sugeres pareceme tão apetitoso quanto comer água suja responde Vera, irritada.
A sogra levantase abruptamente, sai do apartamento sem se despedir.
Vera continua a empacotar. Sabe que ainda não acabou; Joaquim e Nina Vítor ainda lhe darão cabo dos nervos. Por isso quer sair o quanto antes.
No domingo seguinte chega o pai de Vera. Eles, juntos, carregam as malas e as caixas num carro pequeno e põese a caminho.
No percurso, Vera pede ao pai que pare à casa da sogra para entregar as chaves do apartamento.
Imaginas conta Vera à amiga Margarida no dia seguinte ontem a sogra passou uma hora a tentar convencerme a perdoar as pequenas travessuras do Joaquim e a não pedir o divórcio.
E que argumentos usou? pergunta Margarida.
Os de sempre: estás a privar a criança do pai, todos os homens traem, as mulheres devem ser mais sábias. Depois contoume como ela mesma, numa situação parecida, trouxe o marido de volta ao lar.
E como foi? quer saber a amiga.
Não te conto tudo, mas foi um completo desastre. Não vais fazer isso.
Já apresentaste a petição? indaga Margarida.
Sim, na sextafeira passada responde Vera.
Então, finalmente vais livrarte desse Don Juan. Estava a doer olhar para ele, todo cheio de charme comenta Margarida.
O que significa doer olhar? Sabias que ele estava com a Jana? protesta Vera.
Não sabia ao certo, mas suspeitava admite a amiga.
Então por que não me disseste? Pensava que éramos amigas diz Vera, levantandose para sair.
Espera! interrompe Margarida. Primeiro, eu realmente não sabia nada. Vi o mesmo que tu, só tirei conclusões diferentes. Lembrate do jantar de empresa?
Recordo a Jana a circular à volta do Joaquim. Viste isso, não? Quantas vezes ela pediu deslocação para viajarem juntos?
Trabalhas no controlo de contas, sabes bem como funciona a coisa. Se a Jana substitui alguém no último minuto, pode ser sinal. Suspeitava, mas não te falei porque não tinha certeza.
Poderias ter insinuado.
E se eu estivesse errada e tudo fosse só imaginação? O que pensarías de mim? Querias que nos dessem de bater? Lembras da Sílvia Bentes?
Ela contou a uma amiga que viu o marido com outra mulher, até mostrou a foto do abraço.
Obviamente houve escândalo, mas reconciliaramse e a Sílvia acabou culpada de querer destruir o casamento por ciúmes.
Depois saiu da empresa. Não te zangues. Se tivesse provas irrefutáveis, teria dito. Agora dizme onde vais viver.
O apartamento não é meu, está a nome da sogra, por isso o Dinis e eu saímos. Estamos a morar na casa dos meus pais.
Dentro de uma semana, vamos reformar o apartamento da avó conta Vera. Os pais o alugavam, mas os inquilinos foram embora há um mês. São só duas divisões, mas basta para nós.
Ainda falta resolver a questão da creche prossegue Margarida. A antiga fica longe, mas a mãe de Dinis conhece alguém que pode transferir para a creche ao lado da nossa casa. Vou pedir o divórcio e solicitar pensão. É tudo.
O Joaquim aceita o divórcio? pergunta Margarida.
Ele diz que não quer o divórcio, que já aprendeu a lição e que não vai acontecer de novo. Eu já não quero mais nada. Pedi que não pedisse pensão, ele disse que vai pagar sozinho.
E tu?
Estou contra. Não quero encontrálo de novo. Quero tudo oficial. Ele chegou a dizer que vai ficar com o filho: Tenho apartamento melhor e salário maior.
Eu não respondi, só fiz as contas das viagens de trabalho dele no último anoconta Vera. Foram oito.
E o que ele te disse? indaga Margarida.
Guardei essa informação para o tribunal. Quando ele quiser levar o Dinis, vou perguntar quem fica com a criança quando ele está fora. Tenho emprego e casa, então ele não terá nada.
Joaquim realmente apresentou um pedido de definição da guarda, alegando que a exesposa não pode garantir o nível de vida necessário para o Dinis.
Nina Vítor, por sua vez, afirmou que a exnora esconde o filho:
Ela saiu do apartamento, levou o menino da creche. Pensávamos que ele ficaria na casa dos pais da Vera, mas só ficou uma semana e depois desapareceu.
Tenho testemunhos dos vizinhos. Onde está o filho? A criança deve ir à creche, não se esconder em locais duvidosos!
Vera tem de explicar que ela e Dinis vivem num apartamento de dois quartos que lhe pertence, que o menino frequenta a creche ao lado da casa e que o trabalho de Joaquim, com deslocações frequentes, impede que ele assuma a educação diária.
No fim, a sogra e o exmarido não conseguem nada.
Vera evita qualquer contacto com Joaquim e, depois do divórcio, encontra um novo emprego é uma boa profissional e a transição não lhe traz dificuldades.
Alguns dias depois, Margarida traz novas notícias:
A Jana demitiuse e foi para a capital.
O quê? surpreendese Vera.
As tias dela organizaram tudo. Ela deu um tempo, percebeu que não tinha futuro aqui e mudouse para Lisboa. Só ficou o teu exmarido sozinho.
Então já não me incomoda responde Vera.
E assim, como quem bebe água de um poço já seco, percebe que não há solução mágica. O que acham? Agiu a Vera corretamente? Deixem os vossos comentários.







