15 de junho de 2026 Diário de José
Ainda não consigo aceitar que a minha esposa se foi; os últimos partos a mantiveram atada à cama até o último suspiro. Seja como for, ainda tenho cinco filhos a cuidar. O mais velho, Nicolau, tem nove anos. Ilídio, o segundo, tem sete. Os gêmeos, Santiago e Luís, já completaram quatro. E a caçulinha, Inês, tem apenas três meses a filha que esperávamos há tanto tempo.
Quando as crianças pedem algo para comer, não dá para ficar triste. No meio da madrugada, sento-me na cozinha, acendo um cigarro e penso no futuro. No começo, eu mesmo me virava como podia. Minha cunhada apareceu de vez em quando, ajudou um pouco. Não tínhamos mais parentes por perto. Ela chegou a sugerir levar Santiago e Luís para viver com a família dela, alegando que seria mais fácil para nós. Depois, duas vizinhas de opinião forte vieram à porta, tentando convencer-me a colocar os meninos em um lar de acolhimento. Recusei-me a entregálos a estranhos. Como poderia eu, que ainda era pai, abandonar meus filhos? A vida ficou mais pesada, mas o que fazer? Eles crescem devagar, e um dia serão adultos.
Nos dias em que consegui, revisava as lições dos mais velhos. Com Inês, as preocupações eram ainda maiores. Por sorte, o vizinho Carlos e o tio Ilídio deram as mãos quando o trabalho ficou demais. A enfermeira da saúde pública, Nina Isabel, era presença constante, zelando por nós. Um dia prometeunos uma babá. É uma moça bonita e dedicada, trabalha como cuidadora no hospital, disse ela. Ainda não estava casado, mas a filha da minha irmã, Lurdes, acabou por chegar à nossa casa.
Lurdes era baixa, forte, rosto redondo, com uma trança que ia até a cintura. Era silenciosa, falava pouco, mas sua presença mudou tudo. A casa ganhou brilho; lavounos as roupas, dobrava as camisas, cuidava de Inês e ainda temperava a comida. Na escola e no jardim de infância notaram a diferença: as crianças estavam limpas, checadas, sem botões pretos costurados de forma desleixada, cotovelos sem rasgos.
Inês adoeceu um dia, teve febre alta. A médica disse que precisava de repouso e muito carinho. Lurdes passou noites ao lado da cama, sem se deitar nem por um segundo. A menina saiu do hospital, mas Lurdes ficou como se fosse parte da família.
Os mais novos começaram a chamar Lurdes de mamã. Ela não poupava afeto: elogiava, acariciava a cabeça, abraçava. Os mais velhos, Nicolau e Ilídio, primeiro não sabiam como chamála, mas depois simplesmente a chamavam de Lurdes. Não era babá nem mãe, era Lurdes, lembrandonos que tínhamos alguém que nos amava como se fosse nossa própria mãe. Na aldeia, alguns a criticavam:
Por que penduras esse manto ao teu pescoço? Não faltam rapazes aqui?
Há rapazes, respondeu Lurdes, mas eu tenho pena do José E as crianças já perceberam que alguém está sempre ao seu lado.
Assim seguimos, quinze anos passaram como um sopro. As crianças estudavam, cresciam. Não foi tudo fácil; às vezes eu me irritava, agarrava o cinto da camisa, e Lurdes puxavame de volta, dizendo: Calma, pai, primeiro pensa antes de agir. Bravávamos, reconciliações aconteciam, e Lurdes ganhou o respeito de todos, sendo chamada de Dona Lurdes.
Nicolau já estava casado, esperando o primeiro filho. Ele trabalhava na cooperativa agrícola, alternando entre o cargo de mecanizador e o de supervisor; um ano ganhava um diploma, no outro um prémio. Ilídio terminou o instituto na cidade e Lurdes sentiase orgulhosa, pois seu filho seria engenheiro. Todos ajudavamse: brincavam juntos quando eram pequenos e, agora, apoiavamse nos momentos difíceis.
Inês passou para o nono ano, tornandose a orgulho de Lurdes. Cantava, dançava, e nenhuma festa ocorria sem a sua presença. Eu, mais uma vez, agradeci à enfermeira Nina Isabel por ter me “escolhido” uma companheira assim.
Neste verão, Lurdes sentiu algo estranho no organismo. Nunca tinha adoecido; os olhos escureceram e um mal-estar a invadiu. Eu a empurrei para fora da casa, achando que o ar fresco a ajudaria. Ela insistiu que passaria, mas acabou indo ao médico. Quando voltou, estava pensativa, evitava minhas perguntas, dizia que tudo estava bem.
Naquela noite, quando todos já dormiam, chamoume à varanda:
Senta, pai, preciso conversar O médico disse que vou ter outro filho. Já é tarde demais para mudar, mas cobriu o rosto com as mãos. Que vergonha
Fiquei atônito. Não tínhamos crianças há tanto tempo! Que vergonha, mãe? Os mais velhos já quase se espalharam, vamos ficar só nós dois? A natureza já fez seu plano, então vamos nos preparar! respondi. Ela hesitou:
Como contar às crianças? Dirão que estou velha
Quantos anos tens? Trinta e nove, não é? brinquei. Não sei o que fazer, mas vergonha não vai nos ajudar.
Decidimos que eu contaria aos meninos no jantar. Quando todos se reuniram à mesa, anunciei: Meus queridos, em breve terá um novo irmão ou irmã entre vocês. Lurdes abaixou a cabeça, corando até às lágrimas. Nicolau, que visitava com a esposa jovem, riu:
Que ótimo, mãe! Vamos ter outro! Assim a gente não fica só.
Santiago, animado, exclamou:
Quero um irmãozinho!
Luís, porém, pediu:
Não, uma irmã! Temos muitos meninos, mas só uma menina. Vamos mimar a princesa!
Inês, ainda pequena, olhou para Luís e respondeu:
Você mimou demais! Vai ser uma menina, mamã! Vou fazer laços e comprar vestidos lindos!
Ilídio, meio irritado, rebateu:
Vestidos? Você acha que é uma boneca? Ainda temos que criar a criança, não só comprar roupas.
Eu afirmei:
Vamos criar, sem dúvidas.
Lurdes, ainda envergonhada, cobria a barriga que já mostrava sinais de crescimento, usando um lenço ou um casaco para esconder o calor.
Os meses passaram sem perceber. Nicolau comemorou a chegada do primeiro filho, um menino chamado Tiago. Ilídio foi para a universidade, as férias acabaram. Santiago e Luís ingressaram no Instituto Técnico Agrícola. Inês começou o novo ano letivo; a casa ficou silenciosa, vazia. Ela dividia o tempo entre a escola e as amigas, e um rapaz de dança acompanhavaa pelos fins de semana.
Lurdes não dormia, esperava por Inês. Um dia, Inês sentiu uma dor aguda, como se a luz se apagasse nos olhos. Chamoume:
José, acho que está começando
Eu, pálido, não conseguia colocar os sapatos a tempo. Inês gritou por socorro; dois minutos depois, o carro de Tomás, o filho do vizinho, chegou com o pai. Tomás correu para dentro, gritando:
Mãe, o carro do pai vai buscar você, espera!
Enquanto isso, a dor aumentava. Uma criança que a acompanhava, João, ofereceuse a levar Inês ao hospital. Eu, arrancando o casaco da parede, gritei:
Não temas, Lurdes, estou contigo
Passei a noite na varanda do posto de partos, fumando um cigarro atrás do outro. De manhã, a porta se abriu e saiu uma enfermeira não tão jovem.
Está a fumar, pai? Vai ter que reduzir Primeiro filho ou quê?
Tenho cinco, respondi, atordoado.
Cinco? Não, são sete! A tua linda trouxe dois!
Dois? gaguejei.
Um menino e uma menina! O menino choroso riu a enfermeira e a menina, uma beldade! Volta para casa, papá. Ela ainda tem pouquíssimos dias de descanso. Precisa ganhar peso. Traga o que for preciso, entendeu?
Sim, acenei, ainda sem acreditar.
Durante a alta, toda a família veio. Os três primos estudantes pediram licença na escola e chegaram. A enfermeira entregounos duas embalagens, uma amarrada com fita azul, outra com rosa. Lurdes, ainda envergonhada, ficou atrás.
Eu peguei uma das sacas, mas hesitei quanto à outra.
É difícil dividir duas perguntei, sem saber o que fazer.
Nicolau pegou a segunda:
Vai, papá Não é a primeira vez!
Inês espiou dentro da caixa rosa e exclamou:
Que fofinha! abraçou a nova irmã, Minha lindinha.
Depois de entregarmos flores e um bolo à enfermeira, todos embarcaram no ônibus da cooperativa, cedido pelo diretor. Vamos todos juntos, disse o motorista, o meu velho amigo de infância.
Nicolau, sorrindo, comentou:
Mamã, tudo ficou bem! enquanto Lurdes segurava a outra sacola, sorrindo suavemente.
Ela olhou para mim, firme, dizendo:
Vamos criar esses meninos e meninas, Deus nos ajudará a ser bons.
Perguntounos que nomes daríamos ao novo bebê. Cada um lançou sugestões que lembravam a nossa história, as raízes e as esperanças.
O motorista, ouvindo a conversa alegre, pensou que Lurdes não era realmente sangue da família, mas talvez a própria vida a tornasse parte deles.
Hoje, ao fechar este diário, lembrome de tudo que passou. Aprendi que a família não se mede em sangue, mas em presença, carinho e sacrifício. O amor que Lurdes trouxe à nossa casa provou que, mesmo quando a vida parece desabar, um coração aberto pode reconstruir tudo.
**Lição: a verdadeira família nasce do afeto que oferecemos, não da origem que carregamos.**Quando o sol tingiu o céu de laranja, a casa despertou com o choro do recémnascido que a gente chamara deMateus, e o suave soluço da menina que, para todos nós, seriaAurora. Lurdes, com os olhos ainda úmidos, segurou os dois nos braços como se o mundo inteiro estivesse ali, dentro de seu peito.
Nicolau, ainda de gravata ainda engomada da reunião de pais, sussurrou ao irmão mais novo: Agora temos um novo começo, e você será o tio que eu sempre sonhei. Ilídio, que ainda carregava livros de engenharia, largou o caderno, aproximouse e, com a voz trêmula, prometeu construir a primeira casinha de madeira que a Aurora poderia chamar de seu refúgio.
Santiago, que já sonhava com tratores, puxou o carrinho de brinquedo e disse: Vou ensinar o Mateus a dirigir, mas só depois que a Aurora aprender a andar. Luís, ainda guardando lembranças de ser o único menino, abraçou a irmã recémchegada e jurou: Sempre vou defender você; nenhum dragão que eu imaginei será grande o bastante para nos separar.
Eu, sentado à mesa, vi o reflexo das luzes da cozinha nos olhos de cada um e, pela primeira vez em quinze anos, senti que o peso que carregava havia se transformado em asas. Lurdes, ao meu lado, sorriu e, numa voz que misturava firmeza e ternura, declarou: Esta casa nunca mais será só minha ou sua; ela será de todos nós, um refúgio onde cada história tem seu lugar.
O relógio da torre da aldeia bateu oito vezes, marcando o início de um novo capítulo. As crianças correram para o quintal, espalhando risos que subiam como fumaça ao céu, enquanto eu e Lurdes, de mãos entrelaçadas, observávamos o futuro se desenrolar como um pergaminho antigo, reescrevendose a cada passo.
E assim, quando a noite finalmente chegou, as estrelas pareceram brilhar mais forte sobre a nossa lareira, como se o universo reconhecesse que, apesar das perdas e das dúvidas, o amor que plantamos naquele chão endurecido floresceu em um jardim que jamais deixará de crescer.
Fecho este diário com a certeza de que, enquanto houver alguém para segurar a mão do outro, não há fim que não possa ser reescrito, nem dor que não encontre sua cura no calor de um lar verdadeiramente escolhido.







