**Diário 12 de janeiro**
Vivi quase metade da minha vida a sola. Não, já fui casada, mas o marido, o João, saiu do lar um ano depois do casamento. Na altura acabara de nascer a minha filha. No fim, o João deixounos um apartamento de três quartos no centro de Lisboa, como forma de cumprir a sua palavra. Não pensei em casar de novo. Nem eu nem ele estávamos à procura de novas alianças. A minha menina, a Lurdes, foi crescendo e precisava de apoio. Era preciso ensinála a sustentar-se; os problemas se acumulavam até ao ponto de não aguentar mais.
Faziame sentir que dava tudo de mim, mas ainda assim a Lurdes sentiase carente daquele ombro paternal que já não podia oferecer. Não podia mais preencher esse vazio. Com o tempo, a minha filha começou a aferrarse a todos os rapazes com quem se aproximava, quer fossem amigos ou parceiros. Nem todos apreciavam tal dependência. Eu tinha de acalmara, curar o coração despedaçado dela. Por boa graça de Deus, acabou por conhecer o seu futuro marido.
O Rui era trabalhador, generoso e de boa índole. Eu só desejava que a Lurdes se casasse com ele. Ele demonstrou respeito tanto por mim quanto pela minha filha. O que mais poderia querer? Por isso, consideravao o genro ideal. Contudo, nem tudo é um conto de fadas. Seis meses depois da festa, o Rui mudou bastante.
Enquanto isso, cuidava da minha mãe, a Ana, que ainda estava viva. Ela deume à luz cedo, tal como eu fiz à Lurdes, e chegou a conhecer a neta. Mas então a saúde da Ana começou a declinar. A fadiga tomoua de tal forma que precisei trazêla para casa e cuidar dela constantemente. Não havia outro lugar onde a levar, pois a mãe vivia comigo. Essa ideia desagradou profundamente o genro.
Não sei o que lhe causou tanto desagrado. Eu nunca lhe impus a responsabilidade de cuidar da idosa; pelo contrário, todo o fardo repousou nos meus ombros. Além disso, a Ana não era uma pessoa exigente, nem mesmo na sua idade avançada. Não consigo entender o que o incomodava.
Com o passar do tempo, a situação só piorou. Lurdes passou a ficar do lado do Rui. Agora, ambos evitamme. Antes partilhávamos refeições à mesa da cozinha, hoje os filhos se recolhem aos seus quartos. Tentei conversar com a Lurdes, mas só recebo silêncio e evasivas.
Os netos também não me trazem alegria. Dizem que, enquanto não houver pressa, vivem à sua maneira. No início insisti, depois desisti. Isso são problemas deles, que devem resolver por si. Contudo, o Rui tem-me irritado cada vez mais. No nosso lar, ele age como se fosse o dono da casa, embora não tenha levantado sequer um dedo para reparar o apartamento ou comprar algo que faltasse. Em vez disso, desaparece frequentemente nos clubes com os amigos. Não reconheço mais o genro maravilhoso que eu via no início.
Talvez só agora tenha revelado a sua verdadeira natureza.
A cada semana o Rui se tornava mais insuportável. Chegou o Ano Novo e ele recusouse a celebrálo connosco em família. Levou a Lurdes para o quarto e festejaram separados da mãe e da avó. À meianoite, a filha apareceu para nos cumprimentar, mas o marido nem sequer levantou o nariz para falar.
No dia seguinte, o Rui declarou: Vamos vender a casa da sua mãe e comprar um apartamento só para nós. Nem sei como reagir. E ainda vivem comigo há seis meses, à minha custa! Não é suficiente?
Não, não acho que seja justo. Consegui o teu próprio apartamento, se quiseres. Esta é a casa da minha mãe. Não vamos vender nada. É propriedade dela e ela mesma decidirá o que fazer exclamei, indignada.
O Rui ficou ofendido. Na mesma hora, arrumou as suas coisas, pegou a Lurdes e foi viver à casa dos pais dele.
Fiquei triste ao ver que a filha nem protestou, mas era a vida dela. Se acredita que assim será melhor, que viva com o Rui.
Será que a mulher fez o que era certo?
E tu, o que farias no meu lugar?
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