Tânia, não fiques zangada comigo, não vou viver contigo.

Não fique zangada comigo, Inês, não pretendo viver contigo.
Mas e se tentássemos, Tiago? respondeua Inês, quase sem piscar, o rosto a corar.
Já te contei tudo, Teresa

Inês Lurdes nasceu quando Tiago ainda estava na primeira classe. Lembrouse bem da mãe dela, a famosa e formosa Lurdes, reconhecida em toda a comarca, com a barriga larguinha, e do pai orgulhoso, Joaquim. Quando Lurdes empurrava a carruagem da porta da vila, Tiago ficava a admirara como se fosse um milagre.

Tiago ia crescendo, e Inês também. Ela saiu correndo da porta da casa dos pais, vestida com um vestido colorido e um grande laço nos cabelos loiros. Brincava com as amigas, construindo uma cabana ao lado da horta. Tiago observava tudo da janela da casa que ficava do outro lado da rua, bem em frente à morada dos Sousa.

Tiago, acompanha a Inês, por favor! pediu certa manhã Lurdes.
Ele não recusou; quase um ano depois passou a cuidar da menina de primeiro ano. No início foram à escola em silêncio, mas Inês logo se cansou de calarse e começou a lhe contar as histórias das aulas. As lições terminavam antes para ela, e aguardava pacientemente o momento em que Tiago fosse libertado.

Às vezes Tiago voltava para casa acompanhado dos colegas, e Inês caminhava ao lado deles. Já estava habituado a esperála na porta ao amanhecer; ao sair, agarravaa pela mão e seguiam juntos até a escola. No setembro do ano seguinte, Inês pediu baixinho que a deixasse ir com as amigas. As meninas avançavam, Tiago ficava um passo atrás, pronto a socorrer a qualquer instante. E o momento chegou.

Um dia, no caminho, apareceu um ganso que bufava e batia as asas, assustando as meninas. Tiago colocouse entre elas e o ave, e, num grito, a ave afastouse. No ano seguinte, Tiago partiu para estudar numa aldeia maior, na qual havia uma escola de dez anos, e só regressava nos fins de semana e feriados. Inês parecia não o reconhecer, baixava a cabeça e não lhe dava o cumprimento de costume.

Depois Tiago entrou no Instituto de Navegação e raramente voltava a casa.

Mãe, quem é aquela menina? interrompeu Tiago o jantar, quando uma alta e elegante jovem saiu da porta da casa dos Sousa.
É a nossa Inês! respondeu a mãe, sorrindo ao olhar pela janela.
Quando é que ela chegou? perguntou Tiago, genuinamente intrigado.
O tempo trouxea suspirou a mãe com ternura, e eu fico feliz por tudo o que os pais lhe deram.

Ele viu Inês de vez em quando, escondida atrás das cortinas de linho. Ela surgia carregando baldes sobre um cabresto, ao lado da bomba de água, enquanto o vento balançava as cortinas como se fossem bandeirolas num baile.

Certa manhã, Inês, vestida num austero fato cinza, foi fazer exames. Tiago sentiuse impelido a acompanhála novamente, mas a última gota foi a voz que ouviu ao ajudar o pai a reparar a cerca: «Com uma voz assim, irias até ao fim do mundo!»

Saindo da porta da casa dos pais, balde na mão, encontroua junto à bomba.

Olá! cumprimentou Inês primeiro, tocando o coração de Tiago.
Olá, Inês respondeu ele, com a voz embargada.

Enquanto enchia o balde, Tiago não sabia de que assunto falar. Partiu então com uma saudade silenciosa, acreditando finalmente estar apaixonado. Depois veio o juramento e a designação; Tiago foi para o remoto norte, para a cidade de Viana do Castelo.

***

Na volta ao lar, Tiago já trazia esperanças; sonhava confessar o amor a Inês, que agora tinha a idade adequada. No primeiro dia chegou cansado da viagem, e logo começou a rotina de trabalho. O pai, como sempre, traçou um plano para usar a mãodeobra extra. Na manhã seguinte foram à floresta cortar lenha para a lareira, depois partiram os troncos e guardaramos no celeiro.

Apressado para cumprir todas as tarefas antes das férias, o pai substituiu as vigas inferiores da sauna, ajustou a soleira da porta e ainda refazse o piso. Por fim, decidiu trocar o chão da estrebaria. Duas semanas passaram num borrão.

Tiago, de vez em quando, espiava os portões vizinhos, habitualmente trancados. De lá saíam ora Lurdes, ora Joaquim, mas Inês não aparecia.

Mãe, por que não vejo a Inês? ousou Tiago um dia.
Ela foi estudar. Está na cidade, em Lisboa respondeu a mãe.

Assim, Tiago regressou ao norte, ao seu posto em Viana. Um ano depois, viu Inês só uma vez, e isso desagradouo. Voltou a observara de esconderijo, por trás da cortina de linho. Ela caminhava ao lado de um rapaz alto e magro, do vilarejo, que falava de graça, rindo das próprias piadas, enquanto Inês lhe lançava um sorriso condescendente e um olhar que deixava Tiago desconfortável.

Descobriu então que Inês casarase com aquele rapaz e viviam agora num centro de retiro. Tiago, ao visitar os pais, às vezes a via, e ainda pior, ouviaa ao longe.

Tiago, deixa de sofrer, já não és mais um rapaz dizia a mãe, percebendo que o coração do filho ainda carregava a saudade.

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