Primavera PrematuraEnquanto as primeiras flores se aventuravam a abrir, o vento trouxe um perfume inesperado de maresia, anunciando que o verão se aproximava mais rápido do que o esperado.

Querido diário,

Hoje pela manhã, enquanto esperava a avó no quintal da nossa casa no Alfama, notei um novo vizinho que apareceu na nossa rua. Era um senhor de cabelos grisalhos, sentado numa bancada de madeira, apoiado numa bengala que parecia ter saído de um conto de fadas. Aproximamonos e eu, curiosa como sempre, perguntei:

Donaça, o senhor é um mago?

Ele sorriu, mas respondeu que não, o que me deixou um pouco desapontada.

Então, para que serve a varinha? continuei, ainda sem entender muito bem.

Ele apresentouse como Manuel da Silva e explicou que a bengala era apenas um auxílio para caminhar, pois a perna ainda doía depois de uma queda recente. Ainda não me considero velho, disse ele, mas preciso dela para não forçar demais a minha perna fraturada.

Logo a minha avó, Vera Santos, apareceu, seguroume pela mão e levounos ao parque da Estrela. Ela cumprimentou o novo vizinho, que devolveu o sorriso, porém acabou por criar um laço ainda maior com a pequena Maristela (eu). Eu costumava chegar ao quintal um pouco mais cedo, enquanto a avó ainda preparava o almoço, para contar ao Manuel todas as novidades: o tempo, o prato que a avó estava a cozinhar, e o resfriado da minha amiga Ana que tinha tido a semana passada.

Manuel nunca deixava de oferecerme um chocolate ao leite. Cada vez que eu arrancava o embrulho, mordia exatamente a metade e guardava o resto cuidadosamente no bolso da minha casaca. Ele ficava intrigado:

Não comeu tudo? Não gostou? perguntava ele.

Está delicioso, mas preciso guardar um pouco para a avó respondi, sentindo-me orgulhosa de ser generosa.

Com o tempo, ele passou a trazerme duas balas de uma vez. Ainda assim, eu partia apenas a metade e guardava o resto. Ele ficava admirado com a minha economia:

E agora, para quem é que guarda? perguntava ele, rindo.

Agora posso dar ao papá e à mamã. Eles conseguem comprar sozinhos, mas ficam felizes quando os presentamos expliquei, já a planear o próximo gesto.

Ele então concluiu:

Que linda família têm vocês! Você tem um coração de ouro, Maristela.

E a minha avó também, porque ama a todos comecei a dizer, mas a avó já estava à porta do prédio, pronta para nos conduzir ao parque.

Ah, Manuel, agradecemos os doces, mas a vovó e eu não devemos comer açúcar em excesso. Perdoenos

E então, o que posso fazer? Estou à toa O que seria adequado? indagou ele, claramente querendo ajudar.

Temos tudo aqui em casa, obrigada, não precisa de nada respondeu a avó, com um sorriso.

Não, não consigo ficar assim. Quero ainda oferecer algo. Estou a criar boas vizinhanças, não nego isso insistiu Manuel.

Então, que tal levar nozes? Comeremos apenas em casa, com as mãos limpas. Está bem? sugeriu a avó, dirigindose tanto a mim quanto ao vizinho.

Concordamos, e na próxima visita a avó encontrou duas ou três nozesdecaju no bolso da minha casaca.

Ah, que travessa! Leva nozes como se fosse uma esquilhinha Sabe que hoje em dia nozes são um luxo? O senhor precisa de remédios, vê? Está mancando?

Não é um velho manco, nem um fraquíssimo. A perna está a melhorar intervenho a defensora da amizade, eu mesma e ele quer voltar a esquiar no inverno.

Esquiar? ficou a avó surpresa então, parabéns.

Pode comprarme uns esquis, por favor? pedi, sonhando em deslizar nas colinas ao lado do Manuel, que prometeu ensinarme.

Enquanto a avó passeava comigo no parque, percebi o Manuel a percorrer a alameda já sem a bengala, passos firmes. Eu corri ao seu lado, imitandoo:

Senhor, eu também! gritei, enquanto ele sorria.

Espera por mim chamava a avó, seguindonos.

Passámos a andar juntos, três, e logo a avó começou a gostar desse ritmo animado. Para mim era pura diversão: corria, dançava, subia na bancada, acenava para a avó e para o vizinho, e ainda comandava:

Um, dois, três, quatro! Passos fortes, olha em frente!

Depois da caminhada, a avó e o Manuel sentaramse num banco e eu, com as minhas amigas, brincava enquanto recebia mais nozes antes de nos despedirmos.

Estão a mimarme demais advertiu a avó reservemos esta tradição para festas, por favor.

Manuel contou à avó que ficou viúvo há cinco anos e que, só agora, decidiu dividir o seu apartamento de três quartos em duas partes: uma casa pequena onde passou a viver e outro apartamento para o filho.

Gosto desta vida. Não sou muito sociável, mas os vizinhos são importantes, sobretudo em questões de apoio confessou ele.

Dois dias depois, alguém bateu à porta do Manuel. Quando abriu, encontrei a avó e eu, carregando uma bandeja de pastéis de nata.

Queremos partilhar consigo, disse a avó, e eu perguntei:

Há chaleira? curiosa.

Claro, venha entrar! exclamou ele, abrindo a porta de par em par.

O chá quente trouxe conforto a todos. Eu explorei a pequena biblioteca do Manuel e admirei as pinturas penduradas nas paredes, enquanto a avó observava a minha curiosidade e a paciência com que ele explicava cada obra.

Os meus netos já são universitários e moram longe sinto falta confidenciou ele. A sua avó ainda parece jovem!

Ele passoume um lápis e um bloco de papel. A avó, apontando para mim, comentou:

Só há dois anos que me aposentei, não há tempo para tédio. A minha filha espera o segundo filho, e somos sortudos por vivermos tão perto.

Durante todo o verão, vizinhámos diariamente, e no inverno a avó cumpriu a promessa e comproume uns esquis. Três de nós treinávamos na pista de esqui do parque, que o inverno traz sempre impecável.

Manuel e a avó tornaramse inseparáveis, passeando apenas juntos. Eu, que não ia à creche, passava quase todo o tempo com a avó, encontrandonos todos os dias. Mas um dia Manuel partiu para Lisboa, visitando familiares.

Sentilhe falta e perguntei à avó quando voltaria.

Vai ficar um bom tempo. Disse que ficaria um mês, e nós ficaríamos a vigiar o seu apartamento, porque somos amigos explicou a avó. A avó e eu ficámos contentes com a presença dele, sua simpatia e o bom humor constante. Manuel ajudavanos a apertar tomadas, trocar lâmpadas e pequenas reparações.

Passada uma semana, sentianos incompletos sem ele. Olhávamos para o banco vazio onde costumava sentar, esperandoo de volta.

No oitavo dia, a avó saiu do prédio apressada para me buscar e, surpresa, encontrou o Manuel já no seu lugar habitual.

Olá, vizinho querido exclamou a avó, incrédula não esperávamos que voltasse tão cedo! Disse que ficaria mais tempo.

Ah, acenou ele, cansei do barulho da capital. Todos os meus filhos estão ocupados no trabalho. Não tinha por que esperar sozinho até à noite. Então voltei, senti falta de vocês, como se fossem família.

Avó, o que deu ao netos? Doces? perguntei, curiosa.

Os adultos riram.

Não, querida Doces não são bons para eles. Já são adultos. Deilhes dinheiro, assim podem estudar e crescer admitiu Manuel.

Fico feliz que tenha regressado, parece que a sua alma está de volta. Todos estamos aqui acrescentou a avó, sorrindo.

Eu abraceio, emocionandoo ainda mais.

Hoje temos muitos panquecas com recheios diferentes. São tão leves quanto os pastéis de nata. Venha tomar chá e contenos sobre Lisboa convidou a avó.

Lisboa? Ah, que bela cidade! Está tudo bem. Trouxelhe presentes. O que mais quer saber? respondeu o Manuel, pegandonos pela mão e levandonos para casa, enquanto a primeira chuva de primavera surgia inesperada, precoce.

Por que está tão quente hoje? perguntei ao Manuel, observando a avó.

Porque a primavera está a chegar! respondeu a avó, logo será o Dia da Mulher e a avó vai preparar um grande almoço, convidandonos a todos, inclusive a ti, avô.

Amovos, minhas queridas vizinhas disse o Manuel, subindo as escadarias.

Depois da refeição, recebemos lembranças: eu ganhei uma linda matriosca de madeira pintada, e a avó recebeu um broche de prata. Saímos de novo para o parque, percorrendo o caminho já conhecido. A neve, agora cinzenta e úmida, transformouse em água que deixava as trilhas nuas. Eu saltava nas calçadas ainda úmidas, sentindo o ar quente e exclamando:

Avó, avô, apanheme! Um, dois, três, quatro! Passos firmes, olha à frente!

Assim, guardo no coração estas memórias, que reforçam o valor da amizade e da partilha no nosso cantinho de Lisboa. Até à próxima, querido diário.

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Primavera PrematuraEnquanto as primeiras flores se aventuravam a abrir, o vento trouxe um perfume inesperado de maresia, anunciando que o verão se aproximava mais rápido do que o esperado.
Излизаш от затвора и отиваш в дома на баба си… и неочаквано откриваш малко момиченце, което крие опасна тайна.