Mãe, já chega! Vai ficar a lembrarme disso a vida inteira? respondeu, com a voz cortante, a adolescente de quinze anos, Inês.
Não a vida inteira, mas enquanto a avó ainda estiver entre nós. Se ela sair à rua, pode perderse e
e morrer junto ao portão, deixandonos a carregar a culpa Mãe, e se a deixarmos ir? Inês lançou o desafio de novo.
Deixar o quê? a mãe, Catarina, ficou sem entender.
Deixar que se perca. Tu própria disseste que já não aguentas mais conviver com ela.
Como podes dizer isso? Ela é a minha sogra, alguém que não é de sangue, mas para ti é avó de verdade.
Avó? Inês apertou os olhos, como fazia sempre quando se enfurecia. Onde esteve quando o teu filho nos abandonou? Quando recusou sentarse comigo? Com a sua própria neta? Não te poupou quando agarravas qualquer trabalho para ganhar uns trocos E ainda te acusava de ser a causa da partida do marido
Basta! explodiu Catarina. Já te contei tudo isto por pouco. suspirou, a voz rouca. Falhei contigo ao não conseguir despertar a tua compaixão. Tenho medo. Quando envelhecer, tratarmeás da mesma forma? O que aconteceu contigo? Sempre foste a menina boa, nunca deixavas um gatinho ou um cachorrinho à porta, levavasos para casa. Mas a avó não é um animalzinho a mãe balançou a cabeça, cansada. Ela já está castigada. O teu pai não só nos abandonou, como a deixou.
Mãe, vou trabalhar, vou atrasar. Prometo trancar a porta. Inês lançoulhe um olhar culpado.
Está bem, não queremos dizer coisas desnecessárias mas Catarina não se mexeu.
Perdoame, mãe, mas verte assim dói. A pele e os ossos Tens quarenta anos e cambaleias como uma velhinha, mal conseguires mudar de posição. Sempre exausta. Por que me encaras assim? Quem mais que eu te diria a verdade? Inês elevou a voz sem notar.
Obrigada. Vê se não liga o gás e não deixa a água a correr no banho.
Vês? Estamos presos a ela como a ferro e carvão. Nenhum de nós tem vida própria. Mãe, entreguemosa a uma casa de repouso. Lá ficará sob vigilância constante. Não entende nada
De novo? interrompeu Catarina, exausta.
Todos ficarão melhor, sobretudo ela continuou Inês, ignorando a irritação crescente da mãe.
Não te aguento mais. Não a entregarei a ninguém. Quanto tempo lhe resta? Que fique aqui
Vai sobreviver. Vainos ultrapassar. Vai ao trabalho. Eu não vou a lado nenhum, tranco a porta, prometo respondeu Inês com dureza.
Desculpa. Fui dura contigo Todos saem, e tu ainda cuidas da avó.
A conversa prosseguiu, alheia à porta da avó entreaberta. Ela, claro, ouvia tudo, mas dificilmente compreendia; logo depois, esquecia.
Catarina saiu para o trabalho, e Inês entrou no antigo quarto que agora ocupava a avó.
O que queres, avó? perguntou Inês.
O olhar da senhora não revelava desejo algum.
Vamos, doute um doce ajudou Inês a levantarse e conduziua à cozinha.
E tu quem és? a avó fitoua com um olhar vazio.
Toma um chá suspirou Inês, colocando o doce na mão da senhora.
A avó adorava açúcar. Ela e a mãe escondiam os doces, oferecendolhe só um com o chá. Inês observou a avó desembrulhar o papel colorido. Por entre o fino cabelo grisalho, a pele do crânio aparecia pálida. Inês virouse.
Antes, a avó tingia e penteava o cabelo, enfeitavase com penteados pomposos. Usava batom vivo, pintava as sobrancelhas em arco. O perfume doce que exalava lembrava Inês. Os homens sempre a cortejavam, até que a saúde lhe falhou.
Inês não sabia o que sentia por Dona Benta: piedade, compaixão ou repulsa? Um som na porta tiroua do devaneio.
Deve ser a mãe que esqueceu alguma coisa disse Inês, indo abrir.
Mas quem estava à porta era o amigo da escola, Tiago. A mãe não aprovava a amizade, por isso ele só aparecia quando ela não estava.
Olá. Por que tão cedo? A mãe acabou de sair murmurou Inês.
Eu sei. Ela não me viu.
Ema! ouviuse da cozinha a voz de Dona Benta.
Quem é Ema? perguntou Tiago.
É como a mãe chamaa, e a considera filha. Agora levoa ao quarto. Vai ao banho e fica quieta. Hoje tem um momento de clareza empurrou Inês o colega rumo ao banheiro.
Não há ninguém aqui. Inês entrou na cozinha e viu uma chávena vazia e o papel de doce sobre a mesa.
Quero chá murmurou a avó.
Mas Inês percebeu a inutilidade das explicações.
A avó esquecia tudo rapidamente, sobretudo o que acabara de acontecer. Lembravase bem do passado distante, confundia as pessoas, não reconhecia a mãe. Contudo, tinha raros lampejos de lucidez, breves e escassos.
Inês não sabia se a avó fingia para conseguir mais um doce ou se realmente tinha esquecido o chá. Quem poderia dizer? Inês suspirou, pôs outra chávena à mesa e mais um doce.
Dona Benta desdobrou o embrulho com dedos trêmulos. Quando a chávena esvaziou, Inês conduziua ao quarto, deitoua na cama.
Agora dorme sussurrou, fechando a porta.
Do banheiro, Tiago apareceu.
Posso sair?
Sim, vai à cozinha respondeu Inês, lançandolhe um olhar para confirmar se a porta estava trancada, e seguiuo.
Sentaramse próximos, cada um com um auricular, a ouvir música no telemóvel. Inês fechou os olhos, balançava a cabeça ao ritmo. Não reparou quando a avó atravessou o corredor
Quando Inês saiu para levar Tiago ao hall, viu a porta escancarada. Correu ao quarto, mas a avó já não estava lá.
As portas Não as tranquei. Ela saiu. A mãe vai pensar que fiz por despeito quase chorou Inês.
Por que ela pensaria isso? indagou Tiago.
Não percebes. Hoje mesmo eu dizia que seria melhor se ela se perdesse. A mãe vai achar que deixei a porta aberta de propósito.
Tudo bem, vestete e vamos procurar. Ela não deve ir muito longe sugeriu Tiago.
Inês olhou para o cabide; o casaco de lã da avó ainda pendia, os chinelos ainda no chão.
Ela saiu de roupão e casaco? perguntou, confusa.
Talvez tenha ido ao vizinho, subido as escadas e não reconhecido o apartamento Eu vou ao exterior, tu vas pelos apartamentos disse Tiago, correndo as escadas.
Nos andares, ninguém respondeu ao toque. Inês não continuou a bater nas portas, saiu para a rua. Tiago percorria o pátio, espreitando por trás dos arbustos, sob o escorregador do parque
Não há sinal. Vamos aos recantos vizinhos. Tu corres para a direita, eu para a esquerda. Quem achar primeiro chama o outro. Encontramonos aqui ordenou Tiago, disparando.
Inês chegou até ao ponto de ônibus; a avó não aparecia em lado nenhum. Quanto tempo já tinha passado? Trinta minutos? quarenta? Como poderia percorrer tanto em roupão e chinelos?
Temos de chamar a polícia disse ela.
Espera. Lembrate onde ela costumava dizer que gostava de ir? interpelou Tiago, vasculhando a memória.
Inês pensou, mas nada veio à mente. Encolheu os ombros.
Vamos ampliar a busca. Tu vas para a escola, eu fico aqui gesticulou ele para o lado oposto.
As luzes da rua piscavam intermitentes; trechos escuros forçavam Inês a andar depressa, como se algo se ocultasse entre as sombras. Aproximandose da escola, lembrouse de uma história que a avó contava: certa vez, ao deixar um caderno na sala, o vigilante trancou a porta; a senhora saltou pela janela do résdosolo e quase quebrou a perna.
Embora nunca houvesse estudado ali, a avó repetia a história sempre que passavam. Inês empurrou o portão do pátio aberto. O edifício da escola tinha a forma da letra P. Contornou um ala e viu um grupo de rapazes a rir.
Avó! exclamou Inês, correndo até eles.
A senhora estava no meio do pátio, vestida com o seu casaco azulcinzento. Um dos rapazes lhe ofereceu um pedaço de papel vazio, fingindo ser um doce. Quando ela esticoua a mão, ele recuou, e os colegas explodiram em gargalhadas.
Ela não entende nada. De que asilo fugiste? Queres um doce? repetiu o rapaz, oferecendo outro pedaço de papel.
Larguema! gritou Inês, a voz a rasgar o ar.
Os rapazes se viraram para ela, surpresos.
Olha, mais um!
Quem és tu? Netinha?
Tu fugiste da ala psiquiátrica com a avó?
E netinha nada. Queres mesmo um doce? avançou o rapaz em direção a Inês.
Os outros o seguiram.
Inês recuou. Os rapazes formaram uma parede, isolando a avó. A ameaça deixavaos arrogantes, sentindo o medo dela. Inês encostouse à grade do muro; o portão ficou aberto. Como se fosse ordem, avançaram.
Ela ergueu os braços, tentando manter a distância, mas eram três. Um agarroulhe os braços, os outros pressionarama contra o muro, impedindoa de se mover. Palpavama, decidindo quem seria o primeiro a machucála.
Larguema! gritou Tiago, a poucos metros.
Dois recuaram, mas o terceiro ainda segurava Inês. Os rapazes então se envolveram numa briga com Tiago. Inês deu um pontapé no que a segurava; ele soltoua, uivando. Encontrou no chão um pedaço de tábua, agarrouo, correu em direção aos que brigavam e tentou acertar um na cabeça, mas a altura faltou e o golpe caiu nas costas.
O rapaz se levantou e avançou contra Inês. Ela correu para o portão da cerca.
Menina, venham aqui! Chamámos a polícia viuse um homem e uma mulher do outro lado da cerca. Esses moleques não têm futuro
O aviso à polícia fez os rapazes fugir. Inês voltou para Tiago.
Agora ajudame a limpar tudo isso. Nenhum agradecimento resmungou o homem, ainda abalado.
O importante é que tudo acabou bem disse a mulher.
Inês ajudou Tiago a levantarse, aproximaramse da avó assustada, que ainda pensava que eram outros delinquentes.
Baba. Sou eu, Inês. Vamos para casa disse Inês, abraçandoa.
Que Inês? Eu espero o Borel Ele acabou as aulas
Borel já terminou a escola há tempos. Vamos embora.
Eu ouvi tudo, disse de repente a avó.
O quê? perguntou Inês, já pressentindo a resposta.
Talvez a avó percebesse mais do que eles imaginavam.
A Mila quer que eu vá para a casa de repouso. Não me entregues soluçou a senhora.
Tudo bem, vamos, está frio e vais de roupão. Vais adoecer e acabarás no hospital
Não quero o hospital resmungou a avó.
Inês, Tiago e a senhora voltaram para o apartamento. Inês vestiua com roupa limpa, serviu chá quente com um doce e a acomodou na cama.
Como vais voltar para casa? Toda suja, coberta de sangue Inês e Tiago ficaram na porta do apartamento.
Não importa, o essencial é que a avó foi encontrada. Fizeste bem, não te assustaste sorriu Tiago.
Quase fiquei em pânico. Se não me tivesses ajudado
Tudo está resolvido. Desculpa, foi culpa minha a porta não ter ficado trancada
Inês fechou a porta atrás de Tiago e sentouse à mesa da cozinha. O tremor já não a abalava, mas não conseguia acalmarse. Pensou que, se não tivesse encontrado a avó, teria vivido com a culpa que a mãe lhe descrevera. Pelo menos, tudo acabou bem
Sentia vergonha da briga com a mãe. A situação era ainda mais pesada: cuidava da avó e da própria mãe, que havia lutado dois anos contra o cancro. O exmarido da mãe pediu ajuda Inês tinha apenas quinze anos, toda a vida à sua frente, podia ainda brincar. E a avó? Quantos anos lhe restavam? Que viva feliz no seu próprio esquecimento, na infância que ainda lhe pertence.
Inês não conseguia imaginar a mãe, envelhecida, a não reconhecer mais. Pensou que seria melhor perder a saúde física antes de perder a razão. Melhor ainda se não houvesse doenças incuráveis; que as pessoas morressem simplesmente de velhice.
Reflitia sobre a injustiça da vida. Será que a avó foi castigada por algo, enquanto ela e a mãe sofriam sem entender? Será que eram merecedoras? Talvez fosse para ensinar a Inês compaixão, piedade, para a provar, preparála para a vida, impedir palavras e atos impensados?
Pela primeira vez, Inês ponderou questões que seus colegas jamais imaginariam. Sentiase amadurecida, como se tivesse vivido uma vida inteira naquela noite. Quando a mãe chegou, Inês ainda não tinha ido para a cama.
Já acordaste? Está tudo bem? a mãe, cansada, sentouse na cadeira ao lado.
Tudo bem. Quer um chá? ofereceu Inês.
Quero.
Inês colocou duas chávenas na mesa, duas balas ao lado. Elas trocaram um olhar, riram, e não conseguiram parar
«Talvez o desatino da velhice chegue como misericórdia a quem não tem força para encarar o próprio passado»
Colin McCauley
«Todos querem viver muito tempo, mas ninguém quer envelhecer»
Amigos, se quiserem ler mais histórias, deixem os comentários e curtam. Isso nos incentiva a escrever mais!







