-Você é quem?

Quem é? Dona Maria da Silva, acompanhada de Tiago, saiu para a varanda e fitou o visitante. Sou a neta, melhor ainda, a bisneta dela. Sou filha de Alexandre o filho mais velho de Dona Maria.

Dona Maria sentava-se numa bancada de azulejos banhada pelo sol, saboreando os primeiros dias de primavera. Finalmente, a estação das flores chegou. Só o destino sabia como ela sobrevivera ao inverno rigoroso que se passou.

Não aguentarei mais outro inverno! pensou Dona Maria, soltando um suspiro de alívio. Não temia mais a caminhada; ao contrário, aguardava aquele momento com ansiedade. Já tinha colhido muitas ervilhas. As roupas novas já estavam dobradas no armário.

Nada a prendia mais neste mundo.

***

Um tempo atrás, sua família era numerosa marido, Joaquim António, alto e forte, e quatro filhos três rapazes e uma menina. Viviam em harmonia, ajudavamse mutuamente, raras eram as discussões. Aos poucos, cada filho cresceu e seguiu seu caminho.

Os dois mais velhos ingressaram na universidade e depois espalharamse por cidades como Lisboa, Porto e Coimbra, em busca de trabalho. O filho do meio, sempre esquivo na escola, acabou criando um negócio de sucesso que o pôs a viver no estrangeiro, onde acabou por ficar. A filha, Anita, também abandonou a aldeia, voou para a capital e, não tardou, casouse.

No início, as visitas eram frequentes. Escreviam cartas, e, quando o telemóvel chegou, as chamadas também. Um a um, os netos foram nascendo. DonaMaria, de vez em quando, levantava a velha mala gasta e viajava para a casa de algum filho como babá improvisada.

Com o tempo, os netos cresceram e deixaramse à parte da atenção da avó. As chamadas tornaramse raras, os convites ainda mais escassos. O trabalho, as famílias próprias, os filhos a crescer, tudo isso ocupava o espaço onde antes havia visita.

O único motivo que trouxe alguém de volta à casa da avó foi a notícia do falecimento do pai de Joaquim, o avô António. Acreditavase que um homem tão robusto viveria até cem anos, mas a realidade foi outra.

Depois do funeral, os filhos dispersaramse novamente. Primeiro ligaram à mãe, depois o silêncio se instalou.

DonaMaria tentou ligar sozinha, mas percebeu que já não havia quem atendesse ao outro lado. Assim viveram os últimos dez anos. Uma vez por ano, algum filho lembravase dela, faziase uma chamada, e então a senhora passava a semana inteira sorrindo para si mesma.

Num entardecer nebuloso, um jovem apareceu à porta da cerca, sorrindo alegremente.

Olá, tia Maria! gritou. Não se lembra de mim?

DonaMaria entrecerró os olhos.

Tiago! És quem és?

Sim, tia Maria! respondeu o rapaz, entrando no quintal.

Tiago era filho dos vizinhos que nunca conseguiam ficar sem uma refeição à mesa. DonaMaria lembravase dele como a criança eternamente faminta que sempre lhe pedia um pedaço de pão. De coração generoso, ela lhe dava o pouco que sobrava, partilhava a roupa que os filhos já não usavam e deixavao dormir quando os pais organizavam outra festa.

Os pais de Tiago não viveram muito tempo. Quando faleceram, levaram o menino para um orfanato e depois para o serviço militar. Desde então, DonaMaria não via Tiago e sentialo falta como se fosse uma sombra que se afastava.

Onde estiveste todo esse tempo, Tiago? exclamou a avó.

Primeiro no lar de infância, depois servindo ao país, depois estudando. Agora voltei à minha pequena terra. Vou levantar o pátio da aldeia!

Levantar o quê? gesticulou DonaMaria, incrédula. Todos se foram.

Não importa! Não desaparecerei!

E assim começou uma nova vida para DonaMaria. Tiago arranjouse ao senhor Álvaro, o maior agricultor da vila.

Nos momentos de folga, reparava a casinha de pedra que lhe restara dos pais e, sem nunca esquecer a avó, ajudava nas tarefas da horta. DonaMaria ria e brincava, chamandoo como se fosse um filho. Os três anos passaram como um sonho.

Estou a partir, tia Maria disse Tiago, como se pedisse perdão Álvaro está cada vez mais exigente, não paga o que deve. Vou procurar trabalho em outra parte. Não fique magoada!

Vai com Deus, Tiago! respondeu DonaMaria, sorrindo.

Novamente ficou só. Às vezes a solidão a fazia quase chorar. Passava os dias à espera de um adeus que nunca chegava, mas algo ainda a segurava ao mundo.

****

Olá, tia Maria! ouviuse uma voz familiar. DonaMaria voltou o olhar para a cerca e viu um rosto conhecido.

Tiago! És tu mesmo?

Eu, tia Maria! entrou no quintal um jovem alto, bemvestido. Voltei! De verdade!

Oh, que alegria! exclamou DonaMaria, agitada. Entra, entra, Tiago! Já trago a chaleira! Já volto!

Chaleira, ótimo! sorriu Tiago. Estou a caminho de casa, não esperava encontrarte, mas trouxete um mimo!

Meiahora depois, a feliz avó e o radiante Tiago sentavamse à mesa, bebendo chá em chávenas de porcelana antiga, trocando histórias sem fim.

Já sinto que o fim está próximo, Tiago enxugou uma lágrima DonaMaria.

Não sejas! brincou o rapaz, abanando o ar. Cheguei, vamos viver juntos, tia Maria! Todo mundo vai invejar a nossa fazenda! Ganhei dinheiro, agora vou expandir! Nunca mais deixarei este lugar!

Há alguém em casa? interrompeu uma voz juvenil, aguda como sino. DonaMaria olhou pela janela e viu no pátio uma jovem de casaco curto e sapatos de salto alto.

Quem é? perguntou DonaMaria, ao lado de Tiago, ao ver o visitante.

Sou Violeta respondeu a menina, apresentandose sou a bisneta de Alexandre, filho mais velho de DonaMaria.

A mulher e o rapaz trocaram olhares cúmplices.

Liguei, mas o telemóvel estava desligado! Resolvi vir a pé, à sorte!

Entra, entra! convidou, meio hesitante, DonaMaria, enquanto Tiago pegava a mala da moça.

Violeta se acomodou, espalhando pequenos quitutes que trazia, falando da sua vida.

Não gosto da cidade. Quero viver no campo! Mas os pais não entendem. O avô Alexandre sugeriu que eu ficasse aqui alguns meses. Ele acha que, se eu viver na aldeia, o desejo de voltar à cidade desaparecerá. Ele ligou, o pai ligou, eu também. Só que nunca conseguimos conectar. Perdoemme! Não serei apenas uma ajudante! Tenho dinheiro! E o seu pai e o avô enviaramnos hospitalidade! Vou ficar até ao fim do semestre estudo à distância e depois partirei!

Fica o tempo que quiseres! concluiu DonaMaria. Só me traz felicidade!

Passouse um mês. DonaMaria observava Violeta a trabalhar na horta, e não parecia nem um pouco urbana.

Com a ajuda de Tiago, Violeta revirou novamente a horta abandonada, dividiua em canteiros, ergueu uma estufa, comprou mudas aos vizinhos e começou a plantar com prazer.

Tiago, por sua vez, usou o dinheiro ganho para iniciar a construção de uma quinta moderna. Contratou operários para reparar o telhado da casa de DonaMaria e, em vez de uma simples lareira, instalou aquecimento individual.

DonaMaria radiante, o sorriso jamais deixava o rosto. Já não estava mais sozinha.

Só de vez em quando uma sombra de melancolia escurecia seu semblante, ao lembrarse de que Violeta em breve partiria para a cidade. Já se afeiçoara à bisneta. O tempo voava, e Violeta preparavase para partir.

Como vou ficar aqui sozinha, Violeta? suspirou DonaMaria, embalando pastéis para a viagem da neta.

Não te esqueças de encher o barril de água. Tiago rega o campo! Eu volto, prometo! respondeu Violeta, sorrindo.

Voltarás? alegrouse a avó.

Claro! Não consigo sair daqui! Querote bem, avó, com todo o coração. Tiago propôsme casamento no outono! Quem se casa sem marido? Mas ele é um homem do campo!

Um ano depois, DonaMaria aqueciase ao sol, balançando o berço do bisneto que dormia serenamente. Violeta e Tiago estavam na quinta, e, juntos, fizerama prosperar, trazendo bemestar a toda a aldeia.

Observando o pequeno que dormia, DonaMaria pensou:

Ainda não chegou a hora de partir! Preciso ainda ajudar as crianças!

E assim a história continuava, como um sonho que se repete nas noites de primavera, onde as memórias se misturam com o aroma de flores e o canto distante das galinhas.

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