Lembro-me, como se fosse ontem, dos tempos em que eu, Cláudia, e Vítor nem sabíamos como tínhamos conseguido um filho tão brilhante. Ambos só tínhamos concluído o nono ano da escola, e isso graças à generosidade dos professores. Cada um à sua maneira, como dizem, mas eu, Cláudia, fazia brotar qualquer semente ou rebento em uma semana, enquanto Vítor tinha as mãos de ouro.
Fizemos quatro filhos a mais velha, Margarida; a segunda, Inês; e dois rapazes, nascidos no mesmo dia, Sérgio e Paulo. Paulo foi a laranja que nasceu ao relento ainda não tinha três anos e já falava melhor que a média da Inês. Quando entrou à escola, os professores ficavam boquiabertos lia, escrevia e multiplicava números com tal destreza que o enviaram direto para a segunda série.
Talvez isso fosse injusto para as outras crianças, mas Paulo era para mim um caso especial estava livre das tarefas domésticas e tudo o que pedia eu lhe comprava: livros variados, um microscópio. Mesmo quando os difíceis anos noventa chegaram, quando o país se despedaçava e a minha vida se ruía num só ano perdendo o marido Vítor e a velha ajudante Marta ainda assim não deixei de cuidar do filho, permitindo-lhe estudar, e depois enviandoo à cidade para prosseguir os estudos.
Em que estás a pensar, Cláudia? diziam as vizinhas, que viam Sérgio a carregar água da bomba, Inês a capinar a horta, e Paulo a sentarse à sombra num banco a ler um livro achas que um dia ele te devolverá o favor, trazendo um copo de água na velhice? Vai embora e a história termina.
Ainda me ensinareis! respondia eu, firme. O que quero, faço.
Os filhos também repetiam as minhas palavras.
Por que é que eu corto lenha e ele resolve equações? reclamava Sérgio.
Então senta e resolve, se queres, dizia eu, sorrindo.
Sérgio pegava o livro, ficava nele cinco minutos, fechavao com desdém e dizia:
Que disparate, é melhor eu ir cortar lenha!
Mas a que mais magoava era a Inês. Ela se rebelava contra o tratamento privilegiado do irmão, tentando de tudo para lhe aprontar alguma travessura jogava o caderno dele na lareira, metia um ovo podre nos sapatos.
Sempre lhe dás o melhor pedaço, gritava ela. E ele vai embora e te abandona repetia a vizinha.
Quando Paulo partiu para estudar, a casa ficou mais tranquila e silenciosa, mas eu sentia-me ainda mais só, aferrada ao filho mais novo.
Nos primeiros meses ele enviava cartas detalhadas, descrevendo a vida escolar, um mundo estranho para mim. Com o tempo, as cartas diminuíram, e as visitas tornaramse raras as vizinhas tinham razão. Sentiame amarga, mas não deixava transparecer. Ainda assim, o filho formouse, tornouse homem.
Inês casouse num vilarejo vizinho. O genro não me agradava muito era sonhador, inventava sempre um novo jeito de enriquecer e nunca acertava. Agora sonhava abrir uma padaria; felizmente, o banco não lhe concedeu crédito.
Sérgio ficou comigo e ainda não se apressava a casar, embora houvesse muitas moças adequadas.
Ó mãe, queria ainda passear um pouco! Penso em comprar um carro. Não um bólido velho, mas um modelo estrangeiro. Imaginame numa carrinha nova, hein?
Eu suspirava:
Que carro, Sérgio? Já estás como o nosso Arsenio. Não sonhes, trabalha
Foi então que, por necessidade, Sérgio entrou no ofício do pai, reformou a casa como se fosse uma pintura, trabalhou como tratorista e fazia o melhor que podia, encontrando sempre algum jeito de melhorar. Não me queixava; tinha um filho bom.
Quanto ao outro onde está? Não sabia. Fazia um ano que nada ouvia dele; a última carta dizia que tinha ido buscar trabalho, mas para onde, ninguém sabia.
Quando um carro brilhoso e novo parou à porta da casa, pensei que fosse um viajante perdido a pedir caminho. Mas o som forte do motor fez meu coração acelerar. Abri o portão e fui ao encontro.
Era Paulo. Reconhecio de imediato, embora não o visse há dois anos. Recordeime do Vítor, meu querido, alto, ombro largo, com cabelos dourados ao vento. Que belo! As vizinhas espiavam das janelas, dizendo que Paulo não tinha esquecido a mãe, vinha visitar.
Corri ao filho, abraçandoo ao peito. Aqui está a minha própria carne, não foi em vão tudo isso, pensei.
Sérgio recebeu o irmão com um ar taciturno.
O carro é bom, comentou, com inveja.
Não é meu, respondeu alegre Paulo.
Então, a quem pertence? indagou Sérgio, aliviado.
Ao teu, entregou Paulo as chaves. Fica à vontade, já achei a escritura, iremos ao notário depois.
Sérgio olhou para mim, confuso. Eu sorri.
Obrigado, irmão, disse ele, tímido. Mas é caro!
Não tem preço, disse Paulo. E a Inês, onde está?
A Inês casouse, expliquei rapidamente. Num vilarejo ao lado. O marido é trabalhador, logo terão aumentos
Casada, é? Então vamos à sua casa. Sérgio, levanos com o carro novo.
Inês recebeunos, rechonchuda e tímida. O marido, Arsenio, já começava a exibir o seu sucesso, falando da futura padaria que abririam.
Falastrão, exclamou Inês. Não te deram crédito, padaria não será. Não lhe dês ouvidos, Paulo, ele é um sonhador.
Paulo sorriu e respondeu:
Com a padaria resolveremos tudo, sem problema. Dizes quanto precisas, eu envio.
Arsenio, atônito, olhava desconfiado para Paulo. Já ouvira da esposa que o irmão dela era um ingrato sem talento.
Paulo então tirou do bolso uma pequena caixa vermelha e entregoua à irmã.
Isto é para ti, Inês.
Ela abriu o estojo e encontrou delicados brincos de ouro com esmeraldas, da cor exata dos seus olhos. Ficou boquiaberta, experimentouos diante do espelho e exclamou:
Obrigada, Paulo! Eu tão só pedi brincos ao Arsenio, e ele trouxeme um moedor de carne!
Eu, sentada, silenciosa e feliz, pensei que talvez o filho lhe trouxesse algum presente brincos ou pulseira. Melhor ainda, uma máquina de lavar.
Mas o filho nada deu, e só quando Inês comentou que a mãe, após o parto, seria internada, Paulo disse:
Só um pouco, Inês. Levo a mãe comigo, se ela quiser.
Olheio, surpresa. Comigo? Onde? Como?
Não sei E a casa?
E a casa? Sérgio ficará lá, com nova esposa. Eu fico sem ti, mãe, sintote falta. Vens comigo? Se não gostares, volta.
Fiquei sem saber o que pensar. Toda a minha vida, de Vítor e Marta, jazia naquele lar Mas lá, o filho que amava oferecia uma vida inteira e desconhecida. Pergunteime o que Vítor diria.
Na minha imaginação apareceu o marido, à porta, chapéu inclinado, mãos calejadas ao peito.
Por que pensas tanto, Cláudia? Por que o criaste assim? Para uma vida melhor. Chegou a hora de veres o teu próprio caminho, senão nunca saberás se tudo valeu a pena.
Sorri e respondi:
Por que não partir?






