Querido diário,
Hoje, depois das aulas, Lurdes e a sua amiga Rita decidiram fugir da rotina e dar uma volta no Parque Eduardo VII, ali em Lisboa. Vamos aproveitar enquanto o sol ainda nos mostra o rosto! exclamou Rita, e eu só consegui imaginar a gargalhada das duas a ecoar entre as árvores.
Enquanto caminhavam pela alameda, os pares de namorados que passavam lançavam olhares de inveja mas ninguém prestava atenção nas duas meninas. De repente, elas esbarraram num casal que se abraçava ao pé de uma fonte. O homem, já com alguns fios de prata, sussurrava algo ao ouvido da mulher, que sorria como quem acaba de descobrir um tesouro. Lurdes ficou com os olhos bem abertos, parecia hipnotizada.
Lurdes, o que foi? gritou Rita, surpresa.
Nada, vamos embora respondeu Lurdes, tentando disfarçar a ansiedade que sentia.
Saíram do parque, e Lurdes voltou para casa com a cabeça abaixada, como se o peso de um segredo a esmagasse. Dentro, a mãe, Maria, a recebeu com o tom típico de quem prepara o jantar: Desce logo para a ceia, que o teu pai ainda não chega. Lurdes, ainda atordoada, respondeu tímida, Já vou, só preciso lavar as mãos.
O silêncio na casa era quase ensurdecedor. Enquanto Lurdes sentava-se ao computador, a imagem do casal no parque lhe martelava a memória. Pensou no pai, Vítor, e no que aquela cena significava. Será que a traição é algo comum entre os adultos? O que falta à vida dele? questionava-se, enquanto o relógio marcava a madrugada.
O som da porta a abrir quebrou o gelo. Vítor entrou, cansado, com a voz rouca: Desculpa, minha querida, o dia foi longo. A mãe, sem perder o tom, replicou: Os dias difíceis já não são só no fim do mês. Trocaram gritos baixos, mas Lurdes, ainda a observar, sentiu o coração a disparar.
Mais tarde, Vítor saiu para o trabalho, embora fosse sábado. Lurdes, já vestida, saiu de fininho da cozinha e, ao ouvir a mãe chamar: Onde vais? Ainda falta a lição de casa!, respondeu com um suspiro: Preciso estudar.
A mãe resmungou, mas deixoua ir. Lurdes encontrou Vítor no corredor e, num impulso, pediu-lhe um café. Ele, com um sorriso meio culpado, serviulhe. Sentaramse à mesa, e ele lhe perguntou, meio hesitante: Estás a magoarte comigo por alguma coisa? Ela, sem saber bem o quê dizer, respondeu: Não, pai, é só sintote falta. Ele, com os olhos brilhando, respondeu: Eu também, minha filha.
Depois, ao sair da casa, Vítor recebeu uma chamada no telemóvel. Uma mulher, de nome Ana, apareceu pouco depois, com um sorriso que Lurdes nunca tinha visto antes. O casal entrou num pequeno pátio, sentouse numa banca e começou a conversar a sussurrar, como se o mundo fosse só deles. Lurdes, escondida nos arbustos, viuos beijaremse apaixonadamente, e a dor lhe apertou o peito.
Quando a mulher se levantou para levar o lixo, Lurdes decidiu intervir. Espera!, gritou, bloqueando o caminho. Ana, surpresa, devolveulhe o olhar: O que queres? Lurdes, sem hesitar, tirou o telemóvel do bolso e disse: Liga para o teu namorado. Digalhe que não queremos mais vero. Digitei o número, ouvi a voz do pai no outro lado: Vítor, o que se passa? E, antes que eu pudesse terminar, Ana lançou: Já não nos vemos mais, Vítor. Tenho a minha vida. O pai, confuso, acabou por terminar a chamada com um Adeus.
Quando voltei para casa, os pais estavam a jantar em silêncio. Maria, com a voz ainda irritada, perguntou: Então, está tudo bem contigo? Vai comer? Vítor respondeu, com um leve sorriso: Sim, mãe, tudo bem. Perguntei-lhe, sem muita esperança: Pai, ainda me amas? Ele, num suspiro, respondeu: Amote, filha. E a mãe? perguntei. Ele hesitou, mas então disse: Amo também a tua mãe. Maria, aliviada, exclamou: Então, eu também vos amo!
Ao fechar o diário, penso no que aprendi: as aparências podem enganar, mas a verdade tem um jeito de aparecer, mesmo que seja dolorosa. O mais importante é não ficar a observar de longe, mas enfrentar o que nos magoa, porque só assim podemos curar as feridas do coração.
Até amanhã,
João.






