Na ala de maternidade, disseram‑lhe que o bebé não sobreviveu. Anos depois, descobriu que o filho estava com a família do pai biológico.

Eu, Filipe, nutria um amor silencioso por Inês desde os tempos de escola, e sonhávamos juntos de nos casar um dia.

A minha mãe, Angélica Sampaio, que dirigia a ala de obstetrícia do Hospital de São João, jamais aprovou a escolha do filho. Ela sempre preferira a enfermeira Cristina, filha de médicos respeitados, que era querida tanto pelos colegas do hospital quanto pelos pacientes.

Depois de terminar o ensino secundário, ingressei na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, enquanto Inês começou a estudar Tradução Inglesa no Instituto Politécnico de Lisboa, seguindo os passos da mãe e da avó. Os nossos colegas decidiram celebrar a ocasião ao ar livre, e fomos passar uns dias na casa de campo da família, em Sintra.

Passámos quase um mês inteiro lá, tão encantados que não queríamos regressar. Mas o regresso às aulas aproximavase, e era preciso preparar os trabalhos.

No outono, Inês aproximouse de mim e disse:

Estou grávida. Como vais reagir?

O que achas? Claro que te carregarei nos braços até ao Cartório.

Não estou sozinha, e ainda sou pesada.

Um desportista? Eu praticava luta na escola. Tu és tão leve quanto pluma, riuse eu, feliz.

Mas o que vamos fazer com os estudos?

Sobre os estudos, sim, Inês. Parece que terás que dar uma pausa de um ano depois do parto.

Vou optar pelo ensino à distância, como a minha mãe. Ela engravidou aos dezenove e conseguiu conciliar tudo. Mas vamos combinar, Filipe: depois do casamento mudaste para a nossa casa, respeitas a minha mãe à distância. Eu sei há muito que ela nunca me aceitará; é uma personagem difícil.

Só para o teu bemestar, Inês concordei.

Inês e eu apresentámos o pedido de habilitação matrimonial no Cartório e seguimos os nossos caminhos. Na casa de Inês havia convidados; um amigo do pai chegou com a esposa e o filho Alexandre, dezasseis anos, mas já parecia mais velho.

Em casa, contei aos meus pais a novidade e alerteios para prepararem o casamento. Angélica não gostou nada e, ao cair da noite, dirigiuse à casa dos pais de Inês para provocar uma cena. Batia à porta várias vezes, mas ninguém atendia. Estavam a pôr a mesa na sala e a música que tocava lembrava o som da campainha; ninguém se apercebeu da visita. Alexandre, naquele momento, tomava banho e ficou surpreso por não haver reação ao toque. Enrolou uma toalha na cintura e abriu a porta.

Angélica, inicialmente confusa, sacou o telemóvel, gravou o corredor e focou no Alexandre, ainda ainda de toalha.

És aqui para ver a Ana? perguntou Alexandre, sem perceber a ação da mulher com o telemóvel.

Já não, respondeu a mãe de Inês, descendo rapidamente as escadas.

Em casa, Angélica mostroume a gravação, insistindo que demoraram muito a abrir a porta.

Reconheces o corredor da Inês? Ainda não sabemos quem é o pai da criança.

Entendo, mãe. Tinha razão. Ela não é a pessoa certa para mim.

Enviei uma mensagem zangada ao telemóvel de Inês, depois desligueio completamente. Inês não percebia nada, mas não conseguia chegar a mim, então decidiu ir à minha porta, mesmo já tarde.

Angélica já previa que Inês viria correndo para esclarecer a situação e observavaa pela janela. Quando a viu, correu ao corredor e abriu a porta por si mesma. Sem deixála entrar, saiu ao lance de escadas.

E o que querias de Filipe? Ele já está a dormir. Tu, a jogar nos dois lados? Continua a te entreter com outros rapazes, hipócrita disse, fechando a porta da sua própria apartamento com força.

Inês, confusa, começou a chorar e sentouse nos degraus. Depois de algum tempo, regressou à sua casa. Na cozinha, Ana Maria lavava a louça, e a filha, ainda com lágrimas nos olhos, abraçoua.

Luzinha, o que se passa? O casamento se aproxima, devias estar feliz.

Mãe, não vai ser mais nada, só carrego o filho dele. Parece que a tua mãe criou alvoroço depois de saber que pedimos habilitação mostroume a mensagem do noivo, a acusarme de trair.

Se Filipe age assim, vai continuar a obedecer aos pais. Deus afastoute de ti. Iremos criar a criança nós duas consoloume a mãe.

Depois da ruptura com Filipe, Inês lutou para superar a situação e teve uma gravidez complicada. Foi levada à ala de obstetrícia do Hospital de São João enquanto os pais trabalhavam. O parto foi realizado sob anestesia, a única alternativa viável. No pósoperatório, informaramnos de que o bebé havia nascido morto.

Após a burocracia, o corpo do recémnascido foi entregue aos pais e sepultado. Inês ainda estava na maternidade, por isso perdeu a cerimónia.

Esse episódio fez com que os meus pais vendessem rapidamente o apartamento e se mudassem para outra zona.

É o melhor, filha. Tiveste tantos encontros inesperados com Filipe, e ele passoufácálo com ar de soberbo.

Também espero, mãe, que o tempo me faça esquecêlo mais depressa.

Oito anos se passaram.

Inês trabalhava como tradutora numa pequena empresa de Lisboa, quando, inesperadamente, Filipe entrou no seu escritório.

Por que é que reapareces na minha vida? Já tinha-te esquecido há muito.

Lamento, mas a tragédia trouxeme até ti.

É estranho ouvir isso, Filipe. A tua mãe tem recursos aqui; fala com ela se precisas. Eu não tenho tempo para ti. Sai da minha oficina.

Inês, imploro que me escutes. É importante também para ti. Esperarei no café da esquina depois do trabalho.

Só irei por curiosidade respondeu Inês, voltandose para o ecrã do computador, sinalizando o fim da conversa.

Ao cair da noite, Inês e Filipe encontraramse.

Lamento, Inês, mas o meu filho está doente e precisa de doador.

Chegaste ao endereço errado, Filipe. A tua mãe tem mais recursos nesta zona.

Temos esperado, mas ainda não há doador. Até coloquei o meu apartamento à venda. Tu és mãe, tens mais hipóteses de ajudar o nosso filho.

É uma piada? O nosso filho nasceu morto. Os meus pais já o enterraram.

Ele está vivo, tem oito anos.

Como?

Lembraste do dia em que pedimos habilitação?

Nunca esquecerei a tua mensagem odiosa.

Filipe repetiume a história que a mãe lhe contara sobre o que viu no apartamento.

Inês explicou quem era o Sasha, e Filipe pálido ficou. Ainda a amava e nunca se casou. Ela também permaneceu solteira, temendo não suportar outra gravidez e não querer reviver a dor.

Filipe, volta ao nosso filho. O que fez a tua mãe?

Quando estavas na maternidade, a minha mãe estava lá e viute a ser levada pelo corredor para a sala de cirurgia. Ela suspeitou, 50/50, que eu fosse o pai. O teste confirmou a paternidade, mas ela não queria entregarte o filho. Sou culpado por aceitar isso. O meu ressentimento contra ti perseguiume. Parece que Deus castigounos, pois o nosso filho Sérgio está doente.

Vamos leválo ao hospital. Verifiquem a compatibilidade. Se não fores compatível, então ele terá o mesmo grupo sanguíneo que eu.

Sim, Filipe, tenho o terceiro.

As mãos de Inês tremiam, o coração a disparar quando viu o menino na ala da clínica.

Sérgio, encontrei a nossa mãe. Perdemosnos muito tempo, mas as pessoas ajudaramnos a reencontrarnos disse Filipe, enquanto Inês ficava muda.

Mãe, esperava por ti e imaginei assim, embora não tenhamos fotos tuas em casa murmurou o filho.

Filho, tudo vai ficar bem. Estou aqui e farei tudo para te curar chorou Inês, abraçandoo.

Filho, deixa a mãe ir. Precisas de falar com o médico disse o médico.

Inês revelouse compatível; Sérgio curouse. Filipe vendeu o apartamento e pagou a clínica pelo tratamento. Hoje vivem num apartamento ao lado dos pais de Inês, em Lisboa.

Luzinha, perdoame, mas precisamos casar e ter outro filho. Quero o melhor para o nosso menino, mas o médico disse que irmãos são doadores melhores que pais.

Li sobre isso, Filipe, e pelo bem dos nossos filhos aceito tudo.

Filipe e Inês casaramse e, além de Sérgio, agora criam dois filhos: um rapaz e uma rapariga.

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