Querido diário,
Hoje não consigo tirar da cabeça a forma como sigo de perto o passo de Óscar, sem que ele perceba. Depois de tantos anos a trabalhar em cargos de confiança, sei que ainda sou um profissional experiente. Até agora não houve nenhum indício de conflito; Óscar não trouxe ninguém para casa e nada suspeito aconteceu. Mas eu sei que não se pode esperar para sempre; a intuição insiste que, mais cedo ou mais tarde, ele vai escorregar.
Isso tem um peso pessoal enorme, pois envolve a minha família. Recordo-me dos tempos em que a pequena Eulália ainda era um bebê. Quando soube que teria uma menina em vez de um filho, senti uma pontada de decepção mas nunca deixei transparecer. No fundo, porém, o coração ainda rangia ao pensar que seria uma menina. Perguntavame quem seria o homem com quem eu poderia conversar francamente quando a vida se tornasse pesada. Quem lhe ensinaria a ser verdadeiramente humano?
Casarme tarde foi inevitável; o trabalho sempre ficou à frente e as mulheres que conheci não suportavam a minha agenda atribulada. Então apareceu Lúcia, minha companheira de vida. Já com quase quarenta anos, os sonhos de ter um filho masculino começaram a parecer distantes, mas a felicidade chegou em forma de sorrisos.
Foi inesperado quando percebi, quase sem notar, que a minha pequena dominava o meu mundo. Na primeira vez que Eulália me sorriu e, com a sua mãozinha, puxoume delicadamente pelo nariz, sentime vencido. Quando, de passos tímidos, correu até mim gritando Papai, papai!, eu a segurei nos braços, apertando-a contra o meu peito. Naquele instante compreendi que o que mais importa na minha vida é a felicidade daquela criança, da minha estrelinha. Jamais a deixarei magoada.
Eulália, com a sua risada contagiante, dizia: Vítor, tu mimas a gente! Eu, então, comprava pequenos presentes às meninas da família, e ao ver seus olhos brilharem sentia-me completo.
Como foi que Eulália cresceu tão rápido? Ainda ontem a vi agarrada à minha mão enquanto a levava ao jardim da infância, lançando olhares curiosos ao céu e dizendo: Papai, és tão grande! Vais comprarme um ursa de peluche?. Aquele olhar me fazia sentir invencível. Hoje, já terminada a escola, ingressou no ensino à distância e começou a trabalhar por vontade própria. Ao me dizer: Papai, preciso ser independente. No trabalho ganharei experiência imediatamente, senti novamente orgulho da minha filha, tão inteligente e determinada.
Recentemente Lúcia preparou um bolo, e eu comecei a imaginar que as meninas talvez quisessem comprarme algo. Mas o que realmente aconteceu foi diferente. Eulália acabou de completar vinte anos e, sorrindo, lançoume um pó mágico do ombro, dizendo: Pai, quero apresentarte a alguém. Não te preocupes, não há pressa. O Óscar é muito bom e queremos fazer uma proposta. Convideio para um chá hoje. Olha, já está a chamar!
Lúcia, a primeira a abrir a porta, recebeu Óscar com a mesma hospitalidade de sempre: Boa noite, entre, Óscar, eu sou Lúcia Gonçalves. Este é o Vítor. Cumprimenteio apertando a mão, mas senti a garganta secar. Um estranho sentimento invadiume: aquele homem estava a tentar levar embora a minha única filha. Uma voz interior questionoume: O que queres? Não desejas a felicidade da tua filha? Ele é um bom rapaz, forte e carinhoso. Por que impedir que ela viva ao lado da mãe e do pai?
Recuseime a ouvir a razão. Decidi imediatamente que Óscar não era digno da Eulália e tracei um plano para o testar. Passei semanas observandoo discretamente, seguindoo de carro depois que ele a levava a casa, tentando descobrir se havia algo de errado.
Finalmente, vio chegar ao seu prédio com uma mulher e uma menina pequena. Tomou a bolsa da mulher, segurou a mão da menina e desapareceu dentro da porta do edifício. Era a prova de que Óscar não era quem dizia ser. Apesar disso, algo nele lembrava-me do jovem que eu fui: aberto, simples, talvez até um pouco ingênuo. Pergunteime se não estava a ser demasiado suspeito.
No dia do casamento, Eulália chegou radiante: Pai, dentro de uma semana vamos casar! Fizemos reserva no café com o Óscar, estou tão feliz. Eu a observava, sentindo vergonha por ter seguido o futuro marido dela como um detetive. Ela continuou: Pai, os pais do Óscar vão chegar amanhã à noite para nos conhecer. A irmã dele, Natália, vem de outra cidade com a filha; o marido está em viagem de negócios e depois aparecerá.
No próprio casamento, dancei com Lúcia como se ainda fossemos jovens. Decidi que bastava de suspeitas; misturar trabalho e vida pessoal era insensato. Um ano depois, a minha neta, a pequena Sérgia, nasceu. Chorei ao segurara nos braços; os meus sonhos pareciam finalmente realizados. Agora tenho alguém com quem conversar como homem e ainda posso contar com o genro Óscar, que se revelou um rapaz excelente.
A Sérgia cresce a passos largos, já grita os primeiros sons e, em breve, começará a falar. A vida tem sido um mar de alegrias. Quanto ao que fiz para investigar Óscar, decidi guardar tudo para mim. Confio apenas nas pessoas mais próximas.
Até amanhã, querido diário.







