Desfile nupcial quase não conseguiu parar ao lado de um cão de rua. Mas quem teria imaginado?

 Deus, por favor, não nos atrasemos!Ana olhou para o relógio pela terceira vez nos últimos cinco minutos.  Sérgio, tenho a certeza de que ainda chegaremos a tempo.

O condutor da limusine nupcial sorriu animado ao vernos no retrovisor:

 Calma, Ana. Estamos a seguir o programa ao pé da letra.

Programação, essa palavra já me fazia arrepiar. Falavam dela nos últimos dois meses: hora da cerimónia, cronograma das fotos, horário do banquetãotudo cronometrado ao minuto.

Alexandre, o futuro marido, insistia que o dia do casamento fosse perfeito. Não era problema, nem erro. Gostava de tudo correr conforme o plano, como quem tem a vida de diretor financeiro tudo sempre com um calendário bem definido.

Ana desviava o olhar para Alexandre. Sentada ao lado dele, afundada no telemóvel, verificava novamente se tudo seguia o horário previsto.

Era estranho. Quando se conheceram há três anos, ele parecia outra pessoa, mais vivaz.

O primeiro encontro foi tudo menos programado. Chegou atrasado ao trabalho e, ao entrar na pastelaria, esbarrou na porta, derramando café sobre a camisa branconeve de Ana. Em vez de zangarse, ele riu e convidoua a partilharem outra chávena.

Ana sorriu ao lembrar daquele dia. Fazia tempo que não se viam.

O silêncio foi roto pelo som de travões. A limusine avançou bruscamente; o cinto de segurança mantinhanos firmes.

 O que se passa? gritou Ana, atemorizada.

 Um cão, respondeu o condutor, ainda sem fôlego.  Não conseguimos evitálo.

O meu coração disparou. Ana saltou da viatura, ignorando o grito de Alexandre:  Para onde vais?

No asfalto, à frente da capota da limusine, jazia um grande cão castanhoavermelhado, imóvel.

 Meu Deus  sussurrou Ana, aproximandose.  Ainda está vivo?  perguntei.

O condutor ajoelhouse junto ao animal:

 Respira  mas o cão não se mexia.

 Precisamos leválo ao veterinário imediatamente!

Alexandre pôs a mão no ombro de Ana.

 Não temos tempo. A cerimónia começa dentro de quarenta minutos.

 Como pode dizer isso?  virouse para ele, o rosto em lágrimas.  Está a morrer um ser vivo!

 Não podemos fazer nada. Temos convidados à porta, secretária

 Não me importa a secretária! Ana chorava.  Não podemos simplesmente fugir!

Num instante, outros carros na fila também pararam. Os convidados começaram a dispersarse, formando pequenos grupos.

 O que se passa?  perguntavam.

 Por que ficamos aqui?  reviravase a pergunta.

 Meu Deus, o cão! Que coitado!

As vozes fundiamse num clamor geral. Uns sugeriam chamar o veterinário, outros insistiam que a festa continuasse.

 Sérgio, sabe onde fica a clínica veterinária mais próxima?  perguntou Ana ao condutor.

 Auns poucos quilómetros daqui. Mas

 Sem perder tempo! Temos de leválo agora!

 Ana!  Alexandre agarrouo pelo cotovelo.  Estás louca? Temos um casamento!

 Sim, um casamento!  estendeu a mão, ainda hesitante.  O dia em que duas pessoas juram amarse e apoiarse, apesar de tudo. Estão dispostos a abandonar um animal moribundo por um programa?

Nesse momento, ouviamse gritos vindos da rua:

 Lurdes! Lurdes!

Um senhor de cabelos grisalhos chegou a correr, a respirar ofegante. Os óculos escorriam pela ponta do nariz.

 Lurdes, minha menina,  disse ele, ajoelhandose ao lado do cão.  O que fizeste? Dissete para não fugir.

As mãos tremiam enquanto acariciava a pelagem vermelha.

 É o seu cão?  perguntou Ana baixinho.

O homem, com lágrimas nos olhos, respondeu:

 Só tenho um. Desde que a minha esposa, Maria, faleceu só a Lurdes me mantém em pé.

Voltouse para o cão.

 És um idiota?

 Vamos leválo ao veterinário disse Ana, firme.  Sérgio, pode ajudarnos?

O condutor assentiu e, com delicadeza, ergueu Lurdes nos braços. O animal pesava cerca de trinta quilos; as pernas pendiam, a cabeça baixa, e Ana sentiu um frio na espinha ao ver o sofrimento.

 Precisamos improvisar disse, olhando à volta.

Um dos convidados estendeu uma manta.

 Segue, tem cuidado.

Desdobraram a manta sobre o banco de trás da limusine e, com a ajuda de Sérgio, Ana, Alexandre e o velho Manuel, transportaram o cão para o carro. À luz interior, a pelagem vermelha parecia opaca.

 Querido, querido sussurrou o velho, acariciando o animal com as mãos trêmulas.  Não chores.

Ana sentouse ao lado, segurando a cabeça de Lurdes no colo. O vestido de noiva, alvíssimo como a neve, ficou salpicado de pelos vermelhos, mas ela nem se apercebeu.

 Sérgio, sai daqui!  ordenou, enquanto o carro avançava lentamente.  Cuidado nas curvas, por favor.

Já à porta da clínica, Ana não deixava de acariciar o cão, os dedos deslizavam pela pelagem macia. Sentia o coração do animal bater de forma irregular, as patinhas tremiam no sono.

 Espera, querida. Já chegámos. Só fica calma.

Manuel chorava silenciosamente ao lado, enxugando as lágrimas com as mãos trêmulas.

 Não se preocupem estendeu Ana a mão.  Tudo vai ficar bem. Conseguiremos.

Alexandre, de pé à sua frente, a fitou com surpresa e admiração. Ainda não acreditava no que via.

Lurdes mexeuse levemente e, quase sussurrando:

 Silêncio, silêncio, meu bem disse Ana, acariciando a cabeça do cão.  Estamos quase lá.

 Ana reclamou Alexandre, irritado. Chegaremos atrasados.

 Então chegaremos atrasados replicou ele aos convidados.

 Desculpem, mas a cerimónia terá de ser adiada. Espero que compreendam.

Para surpresa de todos, ninguém se opôs. Muitos assentiram, compreensivos.

 Vou com o Sérgio disse Ana.  E avisa a secretaria que vamos chegar depois.

 Não interveio Alexandre de repente. Vou contigo.

Ela ficou surpresa.

 É verdade

Ele sorriu de canto, aceitando o improviso.

Passada uma hora, a procissão do casamento chegou ao destino, quarenta minutos depois. Ninguém se importava mais da hora.

Lurdes ficou na clínica com uma leve concussão e algumas contusões, mas sobreviveu e está a recuperar. Manuel permaneceu ao seu lado.

 Sabes, disse Alexandre ao descermos as escadas,  não te via assim há muito tempo.

 O quê?

 Quando discutimos por causa do cão. Insististe em fazer o que querias. Foste tão vivo, tão sincero como na pastelaria.

Ana riu.

 Foste sempre tão chato.

 Ei, ei! brincou ele, apertandoa no ombro.  A propósito, fui à clínica!

Ela o olhou sério.

 Obrigada.

 Por quê?

Porque ele não tinha sido chato até ao fim.

Riuse e levantouo.

 É um sinal.

 Que sinal? perguntei.

 Algo aconteceu. Talvez devesses descansar um pouco. Não tenta controlar tudo.

 Quem és e o que fizeste ao meu futuro marido? Ana se assustou.  Falo a sério!

 É só uma paragem respondeu Alexandre, ainda aliviado.

 Mas não devíamos dar o dinheiro ao abrigo de animais? Para lembrar este dia?

Ana sentiu novamente as lágrimas a subir. Agora, felizmente, tudo se esclarecia.

 É por isso que te escolhi sussurrou.

 Porque sou tão simpático?

 Não. Porque podes mudar. E não tens medo disso.

A cerimónia avançava lentamente. O vestido da noiva já mostrava algumas rugas; a gravata do noivo tinha desaparecido.

Mas quando trocaram votos, cada palavra soou sincera e honesta. Para o bem ou para o mal, juraram.

Uma semana depois, de regresso da lua de mel, visitaram primeiro Lurdes e Manuel.

Não tinham ainda um plano para a visita.

Porque às vezes os melhores momentos surgem espontaneamente, sem planos nem programas.

E a Lurdes? Agora tem novos amigos um casal jovem que a visita com doces e a leva para passear.

Manuel diz que nunca viu o seu cão tão feliz. Ele próprio nunca esteve tão contente. Afinal, tem companhia.

Às vezes há de parar, mesmo quando se corre contra o relógio. Pare e ajuda. Porque assim o mundo fica um bocadinho melhor.

O casamento acabou por ser perfeito, ainda que fora do roteiro.

Passouse um ano.

Na pequena casa de Manuel, reuniramse uma gente estranha, mas calorosa. À mesa festiva estavam ele, Ana, Alexandre e, claro, o herói Lurdes.

 Saúde! ergueu Ana o copo de sumo.  Um ano atrás o destino juntounos.

 E eu ainda estou aqui sorriu Manuel.  Depois da perda da Maria, vivi só. Falava só com a Lurdes.

Acariciou a cabeça do cão. Este, feliz, abanou a cauda.

 Agora tenho família. Vocês vêm sempre, e eu aprendo a usar as redes sociais!

 Vamos criar um grupo de proteção animal propôs Alexandre.

 Já ajudámos três cães a encontrar lares, contando as suas histórias!

 Lembraste de quando ajudámos o orfanato? recordouse Ana, sonhadora.

 Não me lembro revirouse Alexandre, rindo.  Mas há três meses eu e o Manuel investimos parte das poupanças num pequeno abrigo para animais. Ele tornouse um visitante assíduo, ajudando os cães e partilhando experiências.

 Aliás, trouxe alguns documentos disse Alexandre, tirando papéis do seu portfólio.  Lembraste do terreno ao lado do orfanato?

 Sim acenou Ana.  Tinha problemas com as licenças.

 Já está resolvido! anunciou Alexandre.  O abrigo vai poder receber ainda mais animais.

 Sério? Ana envolveuo pelos braços.  És incrível!

 Eu? rise ele. Tu és o milagre. Sem a tua persistência não estaríamos aqui.

 Se não fosse a Lurdes corrigiu Ana.

O cão, ao ouvir o nome, latiu alegremente.

 É verdade, sem a Lurdes concordou Alexandre.  Na altura estava tão nervoso. Pensei que ia arruinar tudo por causa de um cão, mas aprendi que às vezes é preciso quebrar o plano para melhorar a vida.

 Exatamente acertou Manuel.  A Maria sempre dizia a mesma coisa.

Começou a contar outra história da sua vida. Ana escutava, apoiandose no ombro do marido. Alexandre mexia nos cabelos, pensativo. A Lurdes repousava aos seus pés.

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Desfile nupcial quase não conseguiu parar ao lado de um cão de rua. Mas quem teria imaginado?
Devia ter avisado, eu não preparei nada! Sabe quanto custa receber visitas?! – gritava a sogra Eu sou a nora: comum, trabalhadora, sem corona na cabeça. Eu e o meu marido vivemos num apartamento próprio em Lisboa, que sustentamos sozinhos – crédito, contas, trabalho de sol a sol. A sogra mora numa aldeia do interior, tal como a cunhada. E tudo seria tranquilo, se não tivessem decidido que o nosso apartamento era um resort de fim de semana. Ao início, até parecia simpático: – Vamos aí no sábado! – É só uma visitinha rápida. – Somos família… Pois… “visitinha rápida” significava dormir cá; “vamos aí” vinha com malas, tachos vazios e olhares a pedir banquete. Todos os fins de semana era igual: depois do trabalho, eu corria aos supermercados, cozinhava, limpava, punha a mesa, sorria e, à noite, lavava loiça e arrumava tudo. Dona Valentina sentava-se a comentar: – Que falta aqui milho na salada… – Eu gosto mais do caldo de cozido mais forte… – Na aldeia não se faz assim… E a cunhada acrescentava: – Ai, estou cansada da viagem… – Não há sobremesa? E nunca ouvi: “Obrigada”, “Precisas de ajuda?” Um dia, não aguentei e disse ao meu marido: – Não sou empregada doméstica, não quero passar todos os fins de semana a servir a tua família. – Se calhar, temos mesmo de fazer alguma coisa… E tive uma ideia. No fim-de-semana seguinte, a sogra liga: – Vamos aí sábado! – Olhe, temos outros planos… – respondi calma. – Que planos? – Nossos… E sabem que fizemos? Fomos sim “aos planos”, mas diretamente à casa da Dona Valentina. No sábado de manhã, lá estávamos à porta. A sogra abriu e congelou: – Mas o que é isto?! – Viemos visitá-la. Só um bocadinho. – Deviam ter avisado, não preparei nada! Sabe quanto custa receber visitas?! Olhei para ela e disse serenamente: – Vê como é? Eu passo por isto todos os fins de semana. – Quiseste dar-me uma lição?! Que atrevida! Ela gritou tanto que os vizinhos olharam… e fomos para casa. O mais engraçado? Nunca mais houve visita sem convite. Nada de “aparecer” e fim-de-semana na minha cozinha. Às vezes, para sermos ouvidos, basta mostrar aos outros como é calçar os nossos sapatos… O que acha, agi bem? O que faria numa situação destas?