Tenho 58 anos. Na caixa do supermercado reconheci uma mulher cujo marido eu a levei, e percebi quanto pagou por minha felicidade.

Tenho cinquenta e oito anos. Na fila do supermercado, reconheci a mulher que um dia levou embora o meu marido e vi quanto custou a minha felicidade.

Primeiro notei as mãos, finas, secas, com as veias à mostra. Enquanto colocava no conveyor o pão, o leite, um pacote de arroz, sobrecoxa de frango, requeijão barato e um pequeno bombom de chocolate.

O bombom acabou por ser retirado.

A caixa anunciou o total; a senhora abriu a carteira, recontou as notas e, baixinho, disse:

Não preciso do bombom.

Quando se virou, reconhecia.

Catarina.

A primeira esposa do meu marido.

A mesma mulher de quem, há trinta anos, eu dizia a mim mesma: «Agora acabou, o amor não pede licença».

Tenho cinquenta e oito anos.

Trinta anos atrás eu tinha vinte e oito. Trabalhava no departamento de projetos, pintava os lábios com batom vermelhocereja e acreditava que a vida estava apenas a começar.

António era nove anos mais velho que eu. Não era um galã de capa, mas tinha um charme diferente: serenidade, confiança, a habilidade de ouvir como se eu fosse a única mulher na sala.

Ele já era casado.

E eu soube disso desde o princípio.

O anel no dedo. A foto da filha na carteira. As frases masculinas de sempre: «há muito que a casa está vazia», «vivemos como vizinhos», «Catarina não me entende», «aguento só por causa da criança».

Hoje me dá nojo lembrar quão fácil eu acreditava naquela versão.

Mas então pensei que a nossa história fosse especial. Nem suja, nem vulgar, nem «fugida». Apenas dois destinos que se cruzaram.

Catarina, para mim, não era uma pessoa viva, mas um obstáculo, um personagem das narrativas dele. A esposa fria. Cansada. Sempre insatisfeita. Desleixada com a própria aparência. Incapaz de compreender a alma sensível de um homem que ansiava por calor.

Nunca a tinha visto, mas já a culpava.

Conveniente, não?

Se a esposa fosse má, eu não seria a responsável pela ruína da família. Parecia que eu lhe salvava.

Um ano depois ele partiu para mim.

O escândalo foi horroroso, mas eu só conhecia a versão dele. Catarina chorava, gritava, a filha se trancava no quarto, a sogra amaldiçoava-o ao telefone.

Ele chegou à minha casa com duas malas e o rosto de quem finalmente escolheu viver.

Naquele instante senti-me vencedora.

Não disse em voz alta, claro. Mas dentro de mim ecoava: ele me escolheu. Logo, devo ser melhor.

Casámosnos oito meses depois.

E a felicidade existiu. Não vou mentir.

Amávamosnos de verdade. Fomos ao litoral, reformámos a casa, tivemos um filho. António trabalhava, trazia o dinheiro, construía a casa de campo, reparava o carro, comprava-me botas quando via que as minhas já estavam encharcadas.

Com a filha do primeiro casamento a relação piorava. No início ele a visitava aos domingos, depois com menos frequência, e finalmente ela deixou de atender ao telefone.

Eu dizia:

Ela precisa de tempo.

Mas interiormente estava aliviada.

Porque os domingos passaram a ser só nossos.

Quase nunca falávamos de Catarina. Quando o fazíamos, era apenas de passagem.

Ela voltava a pedir dinheiro.

Tentava manipular o filho.

Não aceitava que a vida tivesse mudado.

Eu assentia.

Conveniente pensar que Catarina fosse apenas a exesposa rancorosa. Se fosse rancorosa, eu não tinha culpa.

Passaramse trinta anos.

António morreu há dois anos, um infarto, em casa, de manhã. Ainda coloco duas chávenas na mesa e depois retiro uma.

O filho já é adulto, mora sozinho. Tenho um apartamento, uma casa de verão, uma pensão, um trabalho avulso. Não é luxo, mas é vida normal.

A mesma vida que António e eu construímos.

Num dia, entrei no supermercado só para comprar leite.

E vi Catarina na caixa.

Estava muito mais velha. Embora fôssemos quase da mesma idade, parecia ter envelhecido não pelos anos, mas por uma fadiga longa que marcava os ombros, a postura, o olhar.

Ela retirou o bombom, pegou a sacola e já se preparava para sair.

Quis virar o rosto.

Honestamente.

Fazer de conta que não a reconhecia, sair, esquecer.

Mas ela me encarou.

Boa tarde, Inês disse.

Fiquei sem saber o que dizer.

Boa tarde respondi.

Ficámos à porta do supermercado. As carrinhas contornavamnos, um menino pedia chiclete à mãe, alguém discutia junto ao caixa ATM.

Eu observava aquela mulher, cuja vida eu havia partido ao meio, sem saber que dizer.

Como tem passado? a pergunta mais óbvia que se podia fazer.

Ela sorriu levemente.

Vivo.

Depois contou que soube da morte de António, da filha.

A filha dele.

Aquela mesma menina que se trancara no quarto quando o pai saía com as malas.

Perguntei como estava.

Catarina me fitou:

Quer saber mesmo?

Eu não respondi.

Ela tem deficiência após um acidente. Há anos. Caminha com dificuldade, mal consegue trabalhar. Nós moramos juntos.

Não sabia. António nunca falava. Ou falava e eu não ouvia. Ou eu nunca perguntava de forma a ouvir.

Oferecilhe dar uma boleia.

Não sabia por quê. Talvez quisesse aliviar algo. Talvez fosse a primeira vez que eu me sentisse não vencedora, mas simplesmente humana.

Ela recusou, depois aceitou. O cansaço se lia no rosto.

No carro, o silêncio era total. Eu observava furtivamente o casaco limpo e desgastado, a sacola surrada, os cabelos presos num nó.

E lembreime das palavras de António, há trinta anos:

Ela já não é mulher. Só faz tarefas, só reclama.

Pensei então que talvez ela não tivesse deixado de ser mulher. Talvez apenas sustentasse a casa, o filho e um marido que já a olhava para o outro lado.

Chegámos ao seu prédio. Estacionei o carro.

Um prédio antigo, de cinco pisos, porta descascada. Na escadaria, duas velhinhas na banca. No primeiro andar, cortinas nas janelas.

Disse, quase sem querer:

Sempre pensei que devia ter falado consigo.

Catarina não se virou.

Quando?

Eu não sabia o que dizer.

Não sei. Então.

Ela respondeu, calma:

Naquela altura não queria conversar. Queria vencer.

A frase foi tão certeira que fiquei muda.

Abriu a porta, fechoua novamente e olhoume.

Sabe, eu odiavaa por muito tempo.

Assenti.

Entendo.

Não. Não entende.

Segurava a sacola com ambas as mãos.

Naquele dia você não tirou um homem. Tiroume a vida normal.

Aquilo tirou o ar de mim.

Queria contraargumentar. Que não se tira pessoa se ela não quiser, que ele era adulto, que ele partiu por escolha própria, que se tudo fosse bem na família ele não teria ido. Sabiaas frases de cor, usavaas como escudo há trinta anos.

Mas a mulher que tinha acabado de retirar o bombom por falta de dinheiro estava ali, falando num tom calmo, sem gritar. Isso feria ainda mais.

Contou que na época cuidava da mãesogra após um AVC, levava a filha ao médico, fazia dois turnos. E ele chegava a casa perfumado, com o meu cheiro na camisa, e ela ainda tinha de ser leve, compreensiva, interessante.

Quando ele foi embora, ela tinha trinta anos.

Não era velha. Não era monstro. Apenas uma mulher com filho, crédito e sogra doente, que ele também lhe deixou por alguns meses enquanto eu construía a nova vida.

Sussurrei:

Eu não sabia.

Ela virouse bruscamente:

E queria saber?

Fiquei sem resposta.

Porque não queria.

Precisava de uma versão onde o amor fosse maior que as circunstâncias. Onde eu não fosse culpada. Onde a primeira esposa fosse a responsável por tudo. Onde o homem fugisse não da responsabilidade, mas para a felicidade.

Catarina saiu do carro. Eu também, sem saber bem porquê.

Catarina, perdoeme disse.

Ela me olhou cansada:

Não precisa.

Por quê?

Porque isso lhe ajuda agora, não a mim.

Fiquei ali, com a chave na mão, como uma aluna perante a professora rígida.

Ela falou mais baixo:

Sobrevivi. Fiz o que pude. Criei a filha. A sogra a arrastava. Imagina? Ela ainda me chamava de nora até o fim. Ele aparecia uma vez por mês, com dinheiro e olhos culpados. Depois, menos ainda.

António diziame que ajudava.

Não perguntei quanto.

Diziame que era difícil com a filha, que ela era controlada pela mãe.

Não perguntei por quê.

Diziame que Catarina era forte, que conseguiria.

Eu acreditava.

Porque se ela fosse forte, eu poderia ser feliz sem a sua dor.

No corredor, Catarina parou e soltou a última frase:

Não foi só a sua culpa, Inês. Ele foi maior. Mas você não foi cega. Apenas não viu.

Então entrou no prédio.

Fiquei no carro por vinte minutos.

Depois voltei para casa e, pela primeira vez em muitos anos, encarei a minha vida não como um romance bonito, mas como uma casa construída, em parte, com destroços alheios.

Tudo como sempre: a cozinha, as cortinas, a foto de António na prateleira. Ele sorrindo, bronzeado, com a pesca na mão.

Antes eu olhava para aquela foto e pensava: meu marido, meu amor, meu destino.

Agora olho e penso: quantas pessoas pagaram para que ele fosse meu?

Ao fim do dia o filho ligou.

Mãe, como vai?

Quase respondi «bem», mas não consegui.

Conte-lhe que encontrei Catarina, que ela vive em má situação, que a irmã tem deficiência.

Ele suspirou:

Mãe, mas isso foi há cem anos.

Frase conveniente.

Cem anos.

Então já não dói.

Podese não pensar.

Eu respondi:

Para ela não foram cem.

Ele calouse.

Depois daquele dia comecei a lembrar o que antes evitava.

Como António atrasava a pensão, depois compravame um novo casaco.

Como íamos ao mar enquanto ele dizia que a filha não tinha tempo para descanso.

Como me irritava quando Catarina ligava à noite.

Como certa vez disse:

Já chega de dar dinheiro além da pensão? Também temos filho.

Ele me olhou estranho, mas não respondeu.

Agora sinto vergonha.

Não uma vergonha bonita que leva ao crescimento, mas uma vergonha pegajosa, tardia, inútil.

Não posso devolver a juventude a Catarina. Não posso trazer a filha de volta ao lado do pai. Não posso recuperar uma versão honesta da minha felicidade.

Só consigo parar de mentir, pelo menos agora.

Uma semana depois encontrei o número de Catarina. Olhei o telemóvel por muito tempo e escrevi:

«Catarina, não peço perdão novamente. Você tem razão, seria algo para mim. Mas se a sua filha precisar de ajuda médica ou de remédios, eu estou disposta, sem condições».

Ela respondeu no dia seguinte:

«Vou pensar».

E isso é tudo.

Talvez nunca escreva novamente.

E talvez esteja certa.

Não tenho mais o direito de entrar na vida dela com caridade, como se isso consertasse algo. Mas também não consigo mais fingir que nada aconteceu.

O mais estranho de toda a história: eu verdadeiramente amei António.

E não posso dizer que a nossa vida foi mentira.

Houve ternura. Houve filho. Houve bons anos. Houve noites em que ele seguravame a mão e eu era feliz.

Mas agora, ao lado desse mesmo prazer, permanece a outra mulher na caixa, que retira o bombom por falta de dinheiro.

E já não consigo tirála de lá.

Talvez essa seja a verdadeira compensação tardia.

Não porque alguém lhe tome algo.

Mas porque, finalmente, lhe mostram o preço completo do que um dia se apoderou.

Diga-me, sinceramente: se uma mulher, há décadas, fugiu com um marido casado e viveu feliz, tem o direito, depois de tantos anos, de pedir perdão àquela cuja vida destruiu? Ou será que o arrependimento tardio deve ficar apenas com quem, por muito tempo, fez da dor alheia o seu próprio destino?

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Tenho 58 anos. Na caixa do supermercado reconheci uma mulher cujo marido eu a levei, e percebi quanto pagou por minha felicidade.
Não Mexas no Passado Taís reflete frequentemente sobre sua vida, já ultrapassados os cinquenta anos. Não consegue dizer que seu casamento com Yuri foi feliz, apesar de terem se casado por amor na juventude. Quando o marido começou a mudar, ela nem percebeu. Viviam na aldeia, na casa da sogra Ana, por quem Taís sempre teve respeito. A mãe de Taís morava na aldeia vizinha com o filho mais novo, sempre doente. Sempre que encontravam Ana junto ao fontanário ou no mercado, as vizinhas perguntavam sobre Taís, e Ana só tinha elogios para a nora. No entanto, as outras mulheres duvidavam: “Nunca vimos sogra elogiar nora, não acreditamos.” Mas Ana mantinha-se serena. Taís teve uma filha, Vera, que trouxe alegria à família. Mais tarde nasceu o filho, e novamente só felicidade. O marido não bebia como outros homens da aldeia, e a sogra sempre ajudava. Mas, grávida do terceiro filho, Taís descobre que Yuri a trai com Tânia, a viúva da aldeia. Os boatos se espalham e, apesar dos esforços de Ana para corrigir o filho, Yuri nega tudo. As intrigas aumentam, e a vizinha Valentina insiste que Taís enfrente Tânia, mas Taís hesita. Sabe que Tânia é brigona e habituada às dificuldades, pois o marido dela morreu afogado em bebedeira. Ainda assim, Taís decide encarar Yuri. O marido nega tudo, mas Taís sente a verdade e sofre em silêncio, pensando nos filhos e na mãe doente. A própria mãe aconselha: “Aguenta, filha, casamento é para aceitar o destino. Pelo menos ele não te bate.” Com o nascimento da terceira filha, Ari, Taís sente que toda a dor a deixou ainda mais forte. Valentina continua levando mexericos sobre Tânia, mas Taís só quer paz. Anos se passam, os filhos crescem, casam-se e partem para a cidade. Yuri sossega, já não foge para outras mulheres, e a saúde enfraquece. Taís não consegue sentir pena do marido; depois de tantas lágrimas e desilusões, sente-se vazia. Ana, já falecida, deixou saudades. Os netos vêm visitar, e os filhos tentam apoiar o pai. Vera traz remédios e pede à mãe que tenha paciência com Yuri. O filho consola Taís, mas está sempre mais próximo do pai. Taís explica, chorando, que tudo o que suportou foi pelos filhos, que não teve coragem de deixá-los sem pai. Mas os filhos apenas respondem: “Mãe, não mexas no passado, deixa o pai em paz.” Apesar da mágoa, Taís entende e aceita. Assim é a vida.