Lurdes, cala a boca, filha! Por quem é que vais casarte? bradou a mãe, ajeitandome o véu de renda.
Explicame, ao menos, o que é que o teu futuro marido, José, não te agrada? eu, ainda embargada pelas lágrimas da mãe, sentiame perdida entre nuvens de lamento.
Como assim? a mãe começou, a voz estrondando como um trovão de feira. A mãe dele trabalha como vendedora ambulante, ladra a todos. O pai desapareceu como vento de agosto, e na juventude só sabia beber e festejar.
O avô também bebia, e a avó corria pelos campos da aldeia. E daí?
O teu avô era respeitado na aldeia, lembrado nos corações do povo.
Mas a avó nunca encontrou paz. Eu era pequena e lembrome de vêla temer o avô. Agora, mãe, eu prometo que com o José tudo ficará bem. Não julguemos as pessoas pelos pais.
Quando os vossos filhos nascerem, então entenderás! disse a mãe, o coração a bater como tambor, e eu apenas suspirei.
A vida longe de mudar a opinião da mãe sobre José seria dura. Ainda assim, José e eu realizámos um casamento festivo, e passámos a viver como família. Por sorte, José herdara da sua avó um sobrado no vilarejo de Sintra, deixado pelo avô, cujo pai doente desaparecera sem deixar rasto.
José começou a remodelar o antigo casarão, e pouco a pouco transformouo num palacete moderno, com todas as comodidades que eu agora chamava de casa dos sonhos. O que diria a minha mãe sobre aquele marido tão perfeito? Não sei, mas o futuro era um rio de luz.
Um ano após a boda nasceu o nosso filho, o pequeno João, e quatro anos depois chegou a menina, a doce Filomena. Mas, como numa névoa de pesadelo, bastava que os pequenos adoecessem ou fizessem alguma travessura para a mãe aparecer, a gritar: Meus filhos pequenos, pequenos problemas! Crescerão, e darmeão ainda mais dores, com tal herança!.
Eu tentava ignorar as críticas da mãe, que já resmungava como um gato velho. Ainda assim, a filha acabou por desobedecer, casandose sem a benção dos pais.
A mãe é desse tipo que quer tudo ao seu modo. Contudo, ela já se tinha resignado ao meu casamento e, nas profundezas da sua alma, aceitou que o José era um ouro reluzente por todos os lados. Mas nunca ousaria dizer isso em voz alta, pois teria de admitir que, às vezes, estava errada. E isso, para ela, era impossível. Falava de netos apenas por medo, embora os amasse como se fossem estrelas cadentes. Se algo lhes acontecesse, saltaria ao rio como um pato ao salto, o cabelo ao vento como se as palavras fossem penas.
Ainda assim, eu temia, de vez em quando, as grandes tragédias que, segundo o legado de gerações, acompanham a maioridade dos filhos.
Os filhos, inevitavelmente, cresciam. João terminou o décimo terceiro ano e partiu para a vida adulta. A sua vida adulta começaria numa universidade de prestígio, situada na cidade de Coimbra, a apenas cento e quarenta e três quilómetros de distância.
Para o coração materno, esses cento e quarenta e três quilómetros eram tão longos quanto a distância entre a Terra e Mercúrio. Parecia infinito!
Nas primeiras quatro noites, não dormi; a minha mente girava como um carrossel, imaginando se o filho fosse ofendido, se se alimentasse mal, se a cidade o estragasse. João era um rapaz bom, um verdadeiro príncipe.
No primeiro dia, João viveu num quarto de um alojamento estudantil, um quartinho que cheirava a campo verde. Mas o coração de mãe não suportou tal condição e persuadiu o José a arrendar-lhe um apartamento na cidade. João decidiu pagar parte do aluguer, metendose a trabalhar pela internet, como o filho mais esperto que eu conhecia.
Eu viajava a Coimbra a cada fim de semana, para observar, ajudar, limpar, cozinhar, embora o apartamento estivesse estranhamente impecável. Em casa, o meu filho nunca limpava; preferia o caos clássico. A sua comida, curiosamente, sempre surgia em bolinhos de carne ou guisados em panelas de barro. Que gênio, eu dizia, não um filho!
Essas idas constantes começaram a irritar José.
Lurdes! Basta de prender o João ao teu véu! Deixa o menino respirar! E eu? Você não tem tempo para mim! brincou ele, mas o tom assustoume. Sem o marido, eu não sabia o que fazer. José estava certo; era hora de libertar o filho.
Continuei, por um tempo, a agir como galinhapintadinha, mas, pouco a pouco, aprendi a aceitar que o filho havia crescido. Concedilhe liberdade e deixeio respirar, embora fosse em vão.
Então, o decanato ligoume: o filho estava a faltar às aulas, a beira da expulsão! Será que confundiram o João? gritei, tomando dois dias de licença no trabalho, e corri para Coimbra. José não conseguiu impedirme; às vezes eu era um tanque de aço.
João não esperava a minha visita. Não havia tempo para limpar nada; não conseguiu esconder o motivo das suas faltas.
Era a menina Ana, formosa como um anjo. Mas havia mais: um bebé de um ano, um menino o pequeno Miguel, se bem me lembro. Percebi de instante que Ana, com o bebé nos braços, queria enrolar o meu filho num círculo de enganos e casarse com ele.
Eu, mãe moderna, sei que tais casos não são raros, mas ainda assim, João ainda era jovem demais para casar e criar crianças. Ana aparentava ter apenas dezoito anos. Como poderia ter dado à luz a um bebé? A tempestade interior rugia, mas contenhome.
João, estás muito apaixonado? perguntei, forçando um sorriso que lembrava uma máscara.
Muito, mãe respondeu ele, sorrindo ao mesmo tempo.
E os estudos? aproximeime cautelosamente, como um sapateiro a desarmar minas.
Sei que deixei a disciplina, mas este é um período difícil. Não te preocupes, tudo vai se ajeitar.
Que período é esse? Compartilha.
Não posso, mãe, é meu segredo. Talvez mais tarde, quando eu e Ana nos conhecermos melhor.
Sem saber o que fazer, retireime, voltando para casa.
Isto é culpa tua! atirei ao José, dá liberdade ao filho! Vê onde chegamos!
O que realmente aconteceu? perguntou o otimista. Por que não aceitas a criança? Se João a ama, não é estranha.
E tu estarás disposto a ser avô?
Por quê não? Quando os filhos nascem, já sinto o peso da avó sobre mim.
Mas não é uma criança alheia!
Lurdes! Pareceme que estou a conversar com outra pessoa. Uma criança nunca pode ser alheia! Pensa nisso.
José foi para o quarto ao lado; eu vaguei pela cama vazia, primeiro zangada com tudo: a surpresa, Ana, o filho, o marido, por se colocar do lado dela. Depois, acalmeime, percebendo que José ainda tinha razão.
A criança não tinha culpa. Ana também, talvez, fosse vítima das circunstâncias. De manhã, eu repreendiame, chorava, e me aninhava ao lado do marido que dormia no sofá da sala.
José, perdoame! susurrei, como se tivesse despertado de um sono profundo. Eu amovos a todos!
Vem aqui, minha louca! ele ergueu a manta, e eu me aninhei ao seu lado.
Adormecemos, e nos lábios brotou um sorriso de felicidade. Vou ser avó! pensei. O menino do apartamento do filho era uma benção, chamavamo Miguel.
Mas as coisas não foram tão simples. Algum tempo depois, João informoume que se transferia para o turno noturno da universidade e que ia casarse com Ana.
Desta vez, não me precipitei; primeiro digeri a notícia. Só depois, José e eu fomos a Coimbra num fimdesemana, confiantes de que o marido nos ajudaria a esclarecer tudo sem cortar lenha porque, no inverno, lenha era o que nos mantinha aquecidos.
Na entrada, Ana nos recebeu, enxugando uma lágrima, e disse:
Pedimos desculpa! Não queremos que o João faça isto, mas ele é muito teimoso. Vocês sabem
Teimoso, não, replicou José, tirando os sapatos, mas o filho não é bobo. Se ele decidiu, então é necessário. Calma, Ana, vamos conversar.
Fomos à cozinha. João não estava lá.
João foi buscar leite, volta já, desculpem, disse Ana.
Por que pedes desculpa sempre? questionou José, dirigindose a ela. Ainda não entendemos a tua culpa. Vamos, primeiro, resolver tudo. Um chá para os convidados cansados? Eu ainda estou a 143 quilómetros de casa.
Ah, desculpa, tropeçou Ana.
José revirou os olhos ao ouvir o novo pedido de desculpa; Ana sorriu. Eu percebi que José já havia aceite a escolha do filho e suspirei aliviada.
Quando o aroma do chá encheu as taças e José já mastigava o terceiro biscoito caseiro algo raro nas casas modernas o filho João chegou, carregando sacos de compras. O olhar dele tinha um brilho metálico, algo novo, masculino. Senti que não podia mais apontar o dedo ao meu filho adulto.
Então, decidiram casar? indagou José, enquanto todos se sentavam à mesa.
Sim, e não há discussão, afirmou João com firmeza.
Concordo. Só quero saber o que vos pressiona a casar tão depressa? Expectam outro filho?
Não, o que! respondeu Ana, corando como um pôrdosol.
Um pensamento insano invadiume: talvez a relação ainda não estivesse pronta para filhos. Era impossível, mas
O que vos apressa? insisti.
Caso contrário, o Miguel seria levado ao lar de crianças, baixou o olhar Ana.
Por que levariam a criança? perguntou José severamente.
Porque a mãe dele morreu na prisão, murmurou Ana, quase sussurrando, a voz tremendo.
Ana, não precisas explicar! exclamou João. Mãe e pai, peçovos que aceitem apenas o que vos contei por telefone. O resto é problema nosso!
Espera, João, interrompeu Ana. Se estamos juntos, as nossas famílias são também. Não vou esconder nada, não é certo.
O silêncio caiu; José e eu trocámos um olhar.
Ana, o Miguel não é teu filho? perguntei, ousada.
Não! O Miguel é meu irmão de sangue, só por parte de mãe. Os pais são diferentes.
A raiva quase me fez rasgar tudo, mas contiveme. Ana então prosseguiu:
A minha mãe morreu na prisão, pois sofria de uma doença cardíaca congénita. Viveu muito com esse diagnóstico, mas o temperamento explosivo acabou por condenála.
A primeira prisão foi depois de, num acidente, ter atropelado uma idosa
Quando a prenderam, o pai levoume, e vivemos separados. Antes da libertação, o pai casouse outra vez. Não julgo o pai por ter deixado a mãe num momento tão difícil. A nova esposa, Teresa, foi gentil; criamosnos como família.
Ana fez uma pausa, mas eu viasó João e Ana seguraremse as mãos sob a mesa; percebi que o pior ainda estava por vir.
Três anos atrás a mãe apaixonouse loucamente por um homem dez anos mais novo, o Denis. Tiveram o Miguel. Eu adorava o irmão e visitavaos sempre. Não havia brigas, mas os vizinhos, no tribunal, disseram que ouviam gritos e objetos a quebrar.
Um dia, a mãe empurrou Denis; ele tropeçou, agarrouse a um pano e caiu, batendo a cabeça na mesa de centro. Dois dias depois, o Denis morreu no hospital; a mãe foi presa.
A minha mãe morreu ainda no centro de detenção, sem chegar a julgamento; o coração simplesmente parou. Por favor, não julguem a minha mãe com dureza! Ela era como um colibri, viva, inquieta, indomável. Mas eu amavaa muito.
Agora perdoanos, Ana, disse José, quando ela se calou. Por teres partilhado tudo. Tens razão, agora somos família e devemos apoiarnos.
Sentime a gritar dentro de mim: O que fazes, filho! João, abre a tua boca! Não queremos mais parentes de criminosos! A nossa família nunca teve ladrões! Mas contiveme, vendo a imagem de mim em vestido de noiva, a mãe a chorar, a tentar impedir o casamento com o José.
Lembreime de dizer, ao fundo da minha mente: Não julguemos as pessoas pelos pais! Não saberás o que se passa por trás! Uma loucura, mas uma ideia brilhante. Olhei para o marido e vi o sorriso. Ele assentiu, como se confirmasse o pensamento.
E se adotássemos o Miguel? propôs José, firme. Assim, a mãe e eu ficaremos responsáveis, e vocês podem adiar o casamento e continuar os estudos.
Como assim? perguntou Ana, confusa.
Pai, basta! gritou João.
Miguel ficará bem na aldeia, lembrate como foi a tua infância. Se quiseres, podes trazêlo de volta.
Eu e o pai ficaríamos entediados sem ele, cuidaremos do Miguel com prazer.
A tua irmã agora interessase mais pelos rapazes do que pelos pais.
Ana, a decisão é tua. eu disse, olhandoa nos olhos. Como poderei colocar esse fardo sobre vocês? Nem o meu pai e Teresa consentiriam.
Sem notar, o verdadeiro causador da discussão despertou, escorregou do sofá, foi até à cozinha e estendeuse para José, como se pedisse ajuda.
Que carga pesada! exclamou José, brincando, e ergueu Miguel nos braços.
José, não carregues o avô, mas o avô de toda a gente, ri eu.
Espera, ameaçou ele, apertando o punho, e sussurrou ao ouvido, mostrote o avô à noite.
As crianças ainda se mexiam, mas concordaram em receber Miguel. O processo de adoção correu sem problemas.
A assistente do lar explicou que, hoje em dia, famílias como a nossa frequentemente adotam bebés. As nossas crias já eram adultas, mas ainda havia espaço para o amor paternal. Sentíamonos rejuvenescidos ao cuidar de Miguel.
Nas noites, eu chorava ao embalaro, feliz com a inesperada bênção.
A mãe, como sempre, reclamava da decisão. Reclamava, e, no fundo, amava Miguel com mais força que a tudo. Chamavao de Miguelzinho e dizia:
Lurdes! O que fazes! grita, acariciandoo, cujos olhinhos fecharão a porta da noite?
Em que pensas, Lurdes? Que dedos pequeninos sujaram? segue, sem saber onde o menino se esconderia.
E assim, a história continua, flutuando como nuvem sobre o Tejo, onde o passado e o presente se entrelaçam em sonhos de família, perdão e esperança.







