15 de outubro Encontreio na margem da estrada.
Um cãozinho tremia na poeira da autoestrada, pequeno como a ponta do dedo e molhado pela garoa; observava os carros que passavam como se aguardasse alguém em especial. Eu, Vítor, ia de carro à casa da avó buscar batatas para a sopa de inverno, freiei por um instante, pensando que o animal só queria ser visto. Mas o miúdo ergueu a cabeça, e tudo mudou. As batatas ficaram na terra por mais uma semana.
Chamámolo de Marte. Foi a vizinha da porta de trás, a senhora Vera Maia, quem sugeriu o nome ao ver aquela criaturinha ruiva, orelhas desproporcionais e olhos curiosos.
Ruivo, narizinho, desengonçado exclamou ela . Marte. Perfeito.
Eu ri, mas aceitei.
Marte cresceu rápido. Na primavera já ocupava metade esquerda do sofá, convencido de que era seu direito. No começo eu protestava, depois deixeio estar. Dormir sozinho no apartamento era pior que dividir a cama com um cão que ronca e, às vezes, dá um pontapé involuntário enquanto sonha.
A amizade não nasceu de imediato; foi como a dos vizinhos que não têm pressa para nada. Passeio matinal. Tigela de comida às sete da noite. Televisão. De vez em quando eu falava alto com Marte; ele sentava ao lado, atento, às vezes bocejando, mostrando os dentes.
Tens razão dizia eu. Já chega.
E desligava a tele.
—
A acidente aconteceu em abril, quando voltávamos da caminhada vespertina.
A memória ficou turva: a pista escorregadia, o carro saiu da via e foi parar na calçada; Marte estava na coleira, mas o cabo rompeu. O carro fez um salto e me lançou contra o meiofio. Caí de lado, fiquei alguns segundos deitado, ouvindo apenas a própria respiração e um grito distante.
Quando me levantei, Marte não estava ali.
A coleira jazia no asfalto, com o fecho plástico partido ao meio.
Procurei até à meianoite. Percorri três bairros, chamandoo pelo nome, perguntando a transeuntes. Eles balançavam a cabeça. Um senhor afirmou ter visto um cão ruivo a correr em direção ao cruzamento ferroviário, mas isso foi há quarenta minutos; depois não o viu mais.
De volta a casa, senteime à cozinha e encarei a tigela vazia.
Levanteime, redigi um aviso, imprimi vinte cópias. Na manhã seguinte espalheias por todo o bairro, telefonei a três clínicas veterinárias e ao abrigo da Rua da Indústria.
Se aparecer um cão ruivo, mestiço dizia ao atender. Por favor, me liguem. Este é o número.
Passaramse sete dias.
Depois um mês.
Os avisos desbotaram sob a chuva de maio; reimprimios. Fiz o mesmo em junho. As clínicas permaneceram em silêncio. O abrigo da Indústria ligou duas vezes, mas por engano; nunca era o nosso cão.
Em julho, Vera Maia, cautelosa, apareceu à porta:
Vítor, talvez devesses adotar outro. O abrigo está cheio.
Não respondi, firme.
Ela não insistiu mais.
O apartamento sem Marte mudou. Não ficou vazio, mas algo faltava. O frigorífico continuava a zumbir, os vizinhos subiam ao salão às dez horas como de costume, mas o ar estava diferente.
Recolhi do chão a bola de borracha que Marte costumava perseguir no corredor. Coloqueia numa prateleira, depois na gaveta, depois voltei a tirála e deixála ali novamente.
Todas as manhãs a mão estendiase, quase por reflexo, até à coleira na porta. A coleira ainda pendia; não havia mais necessidade de sair.
Comecei a caminhar sozinho, no mesmo trajeto, à mesma hora, só. Não sabia porquê; apenas seguia o caminho.
Em agosto a filha, Ana, de Porto, telefonou:
Pai, vem ficar aqui connosco, descansa um pouco.
Não posso respondi.
Porquê?
Fiquei em silêncio e, finalmente, disse:
Pode ser que volte.
Ela também ficou calada, depois concordou com um Está bem, numa voz que deixa entrever algo que não se quer dizer.
Marte regressou em outubro.
Ouvi o barulho de unhas a raspar a porta ao entardecer, por volta das oito. Primeiro pensei que fosse vento ou o barulho da escada, mas a raspagem persistiu, determinada, como quem sabe que a porta vai abrir logo.
Abri.
No tapete estava Marte.
Já não era tão novo. O pelo estava raspado em alguns pontos, onde aparentavam ser cicatrizes; a perna esquerda estava ligeiramente queimada. No pescoço trazia um colar de couro castanho, com fivela de latão e um pequeno pingente onde se lia Amigo.
Fiquei ali, na soleira, a observar. Marte me fitava de volta, a orelha direita pendendo, uma mancha ruiva em forma de estrela irregular na testa, os mesmos olhos âmbar rodeados por um cílio escuro.
Onde estiveste? perguntei.
Ele deu um passo para dentro, percorrendo o corredor como quem conhece cada canto. Dirigiuse à tigela, que estava vazia, como sempre.
Fechei a porta, fui à cozinha, as mãos tremiam ligeiramente ao abrir o frigorífico.
Está bem murmurei a mim mesmo.
Na manhã seguinte leveio à clínica. Examinaramo, vacinaramno, verificaram o microchip. Perguntei sobre o colar. A veterinária retirou o pingente e leu em voz alta:
Amigo. É outro nome?
Alguém lhe deu outro nome respondi.
Morou com alguém?
Por seis meses, não sei onde.
Ela olhou para mim, depois para Marte, e disse:
Acontece. Os cães às vezes partem e depois regressam, sobretudo os mais espertos.
Fiquei sem resposta, observandoo sentado numa mesa de metal, impassível durante a inspeção.
Na parte de trás do pingente, ao virar, encontrouse um número de telefone.
Liguei do carro, com Marte ao lado, a olhar pela janela.
Depois de três toques, atendeu:
Olá?
Boa tarde, eu sou o Vítor. Tinha um cão ruivo, chamavamnos de Amigo. Ele saiu de aqui em setembro.
Silêncio longo.
Sim respondeu uma voz feminina, um pouco envelhecida. Ele esteve connosco. Partiu em setembro, mas voltou em abril, pousou junto à nossa cerca e não se foi mais.
É o meu expliquei. Chamoo Marte. Perdeuse em abril.
Mais silêncio, então a mulher dizia:
Ele esteve aqui, alimentamoso, tratámos das feridas.
Obrigado falei.
É um bom cão.
Sim.
Pausa.
Você mora longe? perguntou. Da Rua das Cerejeiras?
Não, de outro bairro.
Meu Deus. Ele apareceu sozinho em abril. Simplesmente se deitou junto à nossa cerca e ficou.
Olhei o para-brisas, para o pátio cinzento cheio de tílias sem folhas.
A conversa acabou por si só. Desliguei o telefone. Marte, no banco traseiro, repousava, com a cabeça sobre as patas dobradas.
Em casa, tireio o colar de outro. Coloqueio sobre a mesa, olheio por muito tempo. Era de couro, bem feito, com o pingente Amigo. Não era barato.
Seis meses de alguma vida alheia, e ainda assim ele voltou.
Pensei na mulher da Rua das Cerejeiras, como cuidara dele dia após dia, como o acariciara, alimentara. Em setembro ela saiu de manhã e ele já não estava mais lá. Ela procurou, fez anúncios.
Liguei novamente.
Sou eu de novo disse quando atendeu. Se quiser vêlo, não me importo.
Silêncio.
É verdade? perguntou.
É verdade.
Ela veio num sábado. A senhora Galina Pereira, de sessenta e quatro anos, trajava um casaco cinzento e trazia uma cesta com compota de maçã e um saco de ração que Marte conhecia bem.
Do corredor, Marte a viu e, sem correr, aproximouse e encostou o nariz na sua mão, abanando o rabo alegremente.
Sentaramse a beber chá. Galina contou como encontrara Marte junto à cerca em abril, como o levava ao veterinário, como as primeiras noites foram de medo, mas depois ele se habituou. Eu partilhei o acidente, o colar rasgado, os panfletos espalhados.
Marte dormia entre nós, levantava a cabeça de vez em quando, olhando alternadamente para cada um.
Ele escolheunos a ambos disse Galina.
Eu olhei para o cão e depois para a mulher.
Parece que sim.
Guardei o colar Amigo numa gaveta, sem o jogar fora.
Marte voltou a ocupar a metade esquerda do sofá e a correr atrás da bola ao meionoite. Os avisos nas lambris do bairro, encharcados pela chuva de novembro, descolaramse por conta própria.
Galina vinha aos sábados, trazendo compota e, por vezes, pedindo conselhos sobre a groselha que cultivava no seu quintal da Rua das Cerejeiras; eu lhe falava das minhas ervas no terraço. Conversávamos enquanto Marte cochilava entre nós.
Numa noite, retirei da gaveta o colar de couro com o pingente Amigo. O brilho do metal refletia a luz da lâmpada.
Na entrada, pendiam duas coleiras. Uma vermelha, velha; outra azul, nova, que Galina trouxe num sábado e pendurou silenciosamente, sem pedir permissão.
**Lição pessoal:** às vezes, quando o caminho parece perdido, a persistência silenciosa e o carinho genuíno trazem de volta o que jamais deveria ter sido deixado para trás.







