Acabei de perceber que talvez sejamos uma família meio desajustadaMas, apesar das diferenças, descobrimos que o amor ainda nos une em meio ao caos cotidiano.

Que sorte tenho eu, de ter você, disse Alexandre, abraçando a esposa.
E eu feliz por ter você ao meu lado! respondeu Lurdes.

E com quem mais poderia estar? riu o homem. Só contigo. Tu és o meu destino, a melhor mulher do mundo.

Lurdes não respondeu; apenas beijou o marido na bochecha e correu à cozinha, onde tirava do forno um bolo ainda fumegante.

Hoje, os Silva celebravam vinteecinco anos de casamento. Decidiram comemorar modestamente, apenas com os filhos. Apenas eles e os seus dois rebentos: Tiago, aluno da décima classe, e Madalena, recémformada na universidade, já a trabalhar e a viver sozinha num apartamento alugado perto do escritório.

Por que te gastar com um quarto alugado? indagou Lurdes. Tens aqui o teu cantinho, vivemos todos juntos, por que te separar? Quando casares, voltarás para nós.

Mãe, adoro vocês, mas quero experimentar a vida por conta própria. E, além disso, não me magoe, mas os teus bolos são tão deliciosos que temo virar um elefantinho. Eu, magricela, como e não engordo, e tu, Lurdes, és a única que poderia me impedir de ganhar peso! Preciso cuidar da minha figura, mas como fazer isso se não consigo largar as tuas guloseimas? disse Madalena, com lágrimas nos olhos.

Lurdes sorriu. Madalena era a imagem oposta da mãe: Lurdes era baixinha, esquelética, quase uma menina, vestiase simples, cabelos presos num coque, raramente usava cosméticos. Madalena, por outro lado, era uma verdadeira beleza, herdeira da graça do pai.

Alexandre era um homem de presença. Alto, de boa estatura; com a idade, engordara um pouco, o que não lhe faltava nas festas de aniversário de Lurdes. Quando jovem, fora muito bonito, e aos quarentaeoito ainda mantinha um charme inegável.

Lurdes sabia que, ao lado dele, parecia discreta, mas já se acostumara ao sussurro nas costas e ignoravao, pois para Alexandre ela era a mulher mais linda e desejada do universo.

Quando se conheceram, Lurdes tinha vinte anos, Alexandre, vintedois. Numa tarde de setembro, a estudante Mafalda caminhava para o aniversário da colega Violeta. Preparara um presente antecipado e, a caminho, decidiu comprar um pequeno buquê.

Na floricultura, havia apenas um rapaz a escolher flores. O vendedor, uma moça simpática, mostravalhes opções com interesse evidente. Mafalda percebeu o olhar da moça; o rapaz era muito bonito.

Com esse rosto, só poderia ser ator, pensei eu.

Então o jovem, ao notar Mafalda, aproximouse:

Moça, prefere este buquê de rosas vermelhas ou este de peônias?

Mafalda, inesperada, respondeu timidamente:

Eu escolheria as peônias, embora a maioria das garotas prefira rosas.

E a sua namorada, que flores prefere? perguntou a vendedora.

Minha namorada? repetiu o rapaz, confuso. Não compro flores para namorada nenhuma; nem sei para quem é este buquê.

Como assim? exclamou a vendedora, trocando olhares com Mafalda.

Meu amigo vai ao aniversário da prima e me arrastou também explicou o rapaz, vendo a surpresa nos rostos. Não podia ir de mãos vazias, então comprei flores. Mas tantas opções que fiquei perdido.

Se escolher rosas, não erra, todas as meninas gostam delas sugeriu Mafalda.

Você também gosta? perguntou o rapaz.

Mafalda corou, abaixou o olhar e respondeu:

Gosto mais de flores silvestres, mas rosas também. Todos parecem gostar delas.

Interessante disse o jovem adoro flores do campo. Minha mãe, sempre que vai à casa de campo, traz um buquê; há um prado perto de lá onde crescem mil variedades. As cores do campo têm uma beleza discreta, quase imperceptível, mas que, ao observar mais de perto, revela um encanto surpreendente.

Ele comprou um buquê de rosas e saiu da loja, sorrindo para Mafalda.

Que rapaz bonito! comentou a vendedora. Um sorriso vale mais que mil palavras!

Também achei! replicou Mafalda, levando um pequeno buquê de crisântemos e despedindose para encontrar Violeta.

Ao chegar à casa da amiga, encontrou o mesmo rapaz sorridente; chamavamse Sérgio, e ele estava ali com o amigo Artur, primo da aniversariante. Sérgio, curioso, continuava lançando olhares a Mafalda, que, igualmente tímida, desviava o olhar. Mais tarde, na calada da noite, ele sentouse ao seu lado e conversaram.

O que falaram? Depois de tantos anos, Lurdes não lembrava. Sérgio perguntava, ela respondia, ele contava, ela ouvia Não entendia por que ele permanecia ao seu lado, por que lhe sorria, por que lhe dedicava atenção. Sentia o olhar enviesado de Violeta, que parecia irritada.

Quando a música começou e os convidados dançaram, Violeta convidou Sérgio para uma dança. Ele, com um ar de culpa, lançou um último olhar a Mafalda e foi dançar com a aniversariante. Depois voltou a ela, e ao se despedir, ofereceuse para acompanhála até a porta.

No dia seguinte, na faculdade, Mafalda cruzouse com Violeta, que nem a cumprimentou.

Depois da aula, Mafalda abordoua novamente:

O que aconteceu? Por que está zangada?

Não percebeste? respondeu Violeta, os olhos cintilando de raiva. O Artur trouxe o Sérgio para mim! Queria que nos conhecêssemos. Vi Sérgio nas fotos do Artur e gostei dele. O Artur trouxeo ao aniversário, e tu estragaste tudo! Passaste a noite a flertar com ele, e depois o puxaste para ti ainda finge que és discreta!

Eu não flertei com ninguém soluçou Mafalda. Nunca soube flertar, nem sequer pensei nisso. Ele mesmo me acompanhou, eu não pedi.

Então não flertaste mas o que ele viu em ti? retrucou Violeta, girando os calcanhares ao sair, deixando Mafalda perplexa.

Mafalda sentiu-se perdida. Teria ela realmente tirado o rapaz da amiga? Seria ela uma traíra? Não podia ser. Ela, invisível aos olhos dos rapazes, com aparência comum, conseguiu atrair a atenção de um tal como Sérgio? Violeta era perfeita para ele: bonita, alegre, cheia de admiradores. Mafalda era tímida, reservada.

Mas Sérgio não era o tipo que se prende a uma só mulher; ele apenas conversava com quem encontrava, mesmo que fosse num primeiro encontro na floricultura.

Mafalda refletiu sobre tudo enquanto voltava da universidade. Em casa, aproximouse do espelho, fitouse e sussurrou:

Será que realmente sirvo a alguém?

Nesse instante, o telefone tocou. Era a voz de Sérgio. Na noite anterior, ele lhe pediu o número, mas ela duvidava que ele a ligasse. Marcaram de se encontrar à beiramar, no Cais do Sodré. Quando Mafalda chegou ao horário, Sérgio já a esperava, segurando um buquê de flores silvestres e sorrindo de maneira que ela soube, naquele instante, que estava apaixonada.

Assim começou o romance de Lurdes e Alexandre. Muitos previram que logo se separariam; ninguém acreditava que um homem tão bonito se apaixonaria por uma menina tão simples como Mafalda. Alguns invejavam e diziam que o casal estava fadado ao fracasso, pois tal galã estaria acostumado a atenção feminina e, cedo ou tarde, voltaria a olhar para outras. Mas Sérgio jamais desviou o olhar de Mafalda. Logo ela acreditou no seu amor e ignorou os ciumentos e maldosos.

Um ano depois, Alexandre e Lurdes casaramse. Não houve um dia em que ele não lhe dissesse que era a melhor. Cerca de dez anos após o casamento, Lurdes ousou perguntar:

Por que me escolheste? Poderias ter apanhar qualquer outra; eu sou apenas comum.

Alexandre, surpreendido, respondeu:

Como explicar por que alguém se apaixona? Mas, já que perguntas, digo que me cativei pelos teus olhos, pelos mais puros e bondosos que já vi Pelo teu sorriso, pelo teu perfume, pela tua alma. És a mulher mais linda do mundo. Não por acaso amas flores do campo; tu mesma és como elas. A tua beleza não grita; poucos a percebem, mas eu a vi e não trocaria a tua flor silvestre por nenhuma rosa luxuosa.

O jantar familiar em homenagem ao vigésimo quinto aniversário foi servido num recanto aconchegante de um restaurante à beirario em Cascais. Os filhos declamaram palavras carinhosas, o melhor presente para Alexandre e Lurdes. No centro da mesa, um delicado arranjo de flores do campo, que Alexandre sempre oferece à esposa nos aniversários (que caem em julho) e nas datas especiais.

Sérgio disse Mafalda, quando se deitaram acho que somos uma família meio estranha.

Porquê? surpreendeuse o marido.

Nunca brigámos nos últimos vinteecinco anos. Isso acontece?

Queres brigar? riu ele. Então vamos brigar!

E começou a fazer cócegas na esposa.

Não, não quero gritou Mafalda, rindo, que tem pavor de cócegas.

Também não quero brigar contigo respondeu Sérgio, beijandoa.

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Acabei de perceber que talvez sejamos uma família meio desajustadaMas, apesar das diferenças, descobrimos que o amor ainda nos une em meio ao caos cotidiano.
Синът ме заведе при психиатър, за да ме обяви за невменяема, но не знаеше, че този лекар е бившият ми съпруг и неговият баща.