Sempre acreditei que, depois dos cinquenta, encontrar alguém para namorar fosse privilégio de quem já tem ideias firmes, experiência de vida e, no mínimo, um nomínimo de boas maneiras. As ilusões de príncipes em cavalos brancos há muito que deixei de lado.
Tenho cinquenta e cinco anos, trabalho como gerente numa empresa de tecnologia, tenho uma filha adulta, um apartamento acolhedor no centro de Lisboa e uma vida bastante equilibrada. Ainda assim, às vezes anseio por um calor humano simples: ir ao teatro, tomar um bica num café, discutir o último livro lido.
Com esse pensamento em mente, criei o meu perfil num site de encontros. Entre as mensagens bizarras e as propostas absurdas, o perfil do Vítor destacouse pela sua adequação.
Vítor tem cinquenta e nove anos. Nas fotos, aparece um homem bemcuidado, de jaqueta leve, num parque da zona de Belém. Na conversa era cortês, lançava elogios, falava do trabalho como engenheiro e do amor pela música clássica.
Depois de uma semana trocando mensagens, marcámos o encontro num café da Baixa. Vítor era exatamente como na foto: imponente, com leves fios de prata, fala afável. Empurrou a cadeira para mim, pediu duas chávenas de cappuccino (recusou a sobremesa alegando que está a cortar açúcar) e passou a noite a explicar a importância de preservar valores tradicionais nos tempos modernos.
Sou da velha escola, Lurdes dizia ele, a olhar‐me nos olhos. Para mim a mulher é a musa. O homem tem de ser provedor e protetor. Não suporto a moda atual de contas separadas. O romance tem de ser elegante.
Soou como música. Encontrámonos mais duas vezes, passeámos pela margem do Tejo, falámos longamente. Então chegou o fim de semana e o tempo ficou miserável: uma chuva de novembro, fria e persistente.
Lurdes, que tal eu vir jantar à tua casa? propôs Vítor, com voz aveludada, ao telefone. Ficaremos à vontade, aquecidos. Não venho de mãos vazias, prometo um jantar à altura. Só preciso de um pouco de conforto e do teu sorriso.
Como boa mulher portuguesa, não acreditei apenas no sorriso. Desde a manhã iniciei uma limpeza completa, depois fui ao supermercado do Campo de Ourique, comprei um bom bife de vaca, legumes frescos, queijos, um pão rústico caro. Passei três horas na cozinha.
Preparei o meu prato forte carne assada com ameixas secas, a receita que ninguém jamais esquece. Fiz uma salada leve, arrumei a mesa com pratos de porcelana, coloquei copos de cristal, acendi velas e vesti um vestido simples, porém elegante, com maquilhagem discreta.
Na hora marcada, sentiame nervosa como uma rapariga antes do primeiro encontro.
O som da campainha ecoou às sete horas em ponto. Ajustei o cabelo, respirei fundo e abraí. Na porta, Vítor, com o sobretudo ainda úmido pela chuva, mas com um ar de dignidade.
Boa noite, senhora encantadora! exclamou, tirando o chapéu e começando a despirse. Da cozinha vinham aromas irresistíveis de carne assada. Vítor inspirou o ar com entusiasmo e sorriu: Ah, sinto que aqui me espera um verdadeiro banquete!
Entra, Vítor. Despedete. Deixame pendurar o casaco respondi, esperando que ele tirasse o presente prometido. Sinceramente, não esperava um buquê de cem rosas nem um vinho de reserva; um caixa de bombons, um bolo simples ou até um ramo de crisântemos já bastava. O gesto é o que conta.
Vítor pendurou o sobretudo, ajeitou a jaqueta e, como um ilusionista que tira um coelho da cartola, mergulhou a mão no bolso interno e, com solenidade, proclamou:
Como já disse, Lurdes, não venho de mãos vazias. O homem tem sempre de contribuir.
Com essas palavras, estendeume uma caixa de chá.
Pegueia automaticamente e baixei o olhar. Era uma caixa de papelão do chá preto mais barato, da marca que se encontra nas prateleiras inferiores dos hipermercados em promoção. O selo estava rasgado, a aba dobrada e enfarruscada.
Fiquei imóvel, tentando compreender o que se passava.
Vítor, está aberto? perguntei baixinho, temendo que fosse uma brincadeira de mau gosto.
Ele não se corou. Pelo contrário, o rosto iluminouse com um sorriso paternal, como quem ensina a uma criança uma verdade incontestável.
Claro! Há uns dias comprei duas saquetas, eram excelentes, fortes e preparamse rápido. Decidi partilhar contigo. Não faria sentido trazer uma caixa inteira, não a beberíamos tudo nesta noite. Por que desperdiçar o que é bom? Tenho a certeza que já tens algum chá em casa, és a anfitriã.
Eu permanecia na entrada da minha casa limpa e aconchegante, as velas tremulavam ao fundo, a carne assada ainda quente, que tinha consumido metade do meu dia e uma boa soma de euros.
À minha frente, um homem de cinquenta e nove anos, bemvestido, que defendia valores tradicionais, entregavame uma caixa de chá barato, já aberta, sem nem duas dúzias de saquetas dentro.
Mil possibilidades de reação passaram pela minha cabeça. Poderia rirlhe na cara, fazer um escândalo e dizer tudo o que penso da sua mesquinhez. Poderia calarme, engolir a mágoa, sentálo à mesa e servilhe a carne, sentindome como uma criada humilhada.
Mas escolhi outro caminho. A calma que me invadiu naquele instante surpreendeume a mim mesma.
Coloquei delicadamente a caixa amassada no aparador junto ao espelho, encarei Vítor nos olhos e sorri não de forma forçada, mas genuína, aliviada por ter percebido quem ele realmente era, ali, na soleira da minha porta, e não depois de semanas ou meses.
Vítor a minha voz saiu serena e firme , fico lisonjeada com a sua generosidade, mas receio que este chá não nos será útil.
Ele arqueou as sobrancelhas: Por que? Não gostas de preto? Da próxima vez trago verde, ainda me sobram duas meias caixas
Não haverá próxima vez respondi, mantendo a calma. Sabe, tem razão: o homem deve contribuir. Mas o seu contributo foi tão impressionante, que não consigo retribuir-lhe de forma igual. O meu jantar não chega ao nível do seu gesto.
Ele, ainda com o sobretudo ainda úmido, exclamou:
O que se passa? Lurdes, ficaste ofendida por causa do chá? Que mesquinhez! Vim de coração aberto depois de uma semana pesada e tu fazes drama por um detalhe! As mulheres de hoje só querem dinheiro e restaurantes!
Preciso de respeito, Vítor. Primeiro, respeito por mim mesma. Põe o sobretudo, lá está frio. E não te esqueças do teu chá, senão vais ficar resfriada e não terás o que curarte.
Deilhe a caixa de chá, empurreio suavemente para a porta e fechei atrás dele.
O tranco da fechadura ecoou; o apartamento ficou em silêncio, quebrado apenas pelo tiquetique do relógio. Dirigime à cozinha, sirvime um copo de bom vinho tinto, cortei um pedaço da carne aromática e senteime à mesa lindamente posta. Sozinha.
E sabem o quê? Esse jantar foi maravilhoso. A carne derretia na boca, o vinho cintilava no cristal. Não senti nem decepção nem solidão. Sentiame orgulhosa por não ter permitido que alguém me pisasse nos calcanhares.
Os homens costumam acusarnos de ser materialistas, de buscar patrocinadores. Mas sejamos honestas: não é o preço do presente que importa, mas a intenção por trás dele. Quando um homem entrega à mulher um presente inacabado, ele está a economizar nos próprios sentimentos, no respeito. Mostra que ela não merece nem o menor esforço. Por isso, não gastarei mais tempo, energia ou vida com esses provedores tradicionais que não têm nada a oferecer além de aparências vazias.
E vocês, leitoras, o que pensam? Já se depararam com essa forma de generosidade masculina? Ou será que fui eu demasiado dura e talvez devesse ter dado ao homem uma segunda oportunidade?
A lição que fico é clara: a dignidade e o respeito por nós mesmos valem mais que qualquer presente embrulhado em boas intenções. O verdadeiro valor está no caráter, não no embrulho.






