A Graça Fernandes vinha da farmácia e só pensava numa coisa: chegar a casa sem contratempos.
Bengala. Passo. Bengala. Passo. A perna arrastava-se, o saco dos medicamentos cortava-lhe a palma da mão. Aquele Outubro tinha sido cruel – húmido, frio, sem a menor piedade.
Mais um quarteirão. Só mais um bocadinho.
Ia quase a passar pelo parque infantil quando ouviu um ganido baixinho vindo dos arbustos junto ao muro.
A Graça Fernandes parou. Ficou ali um instante. Pensou: já nem forças tenho, vai para casa. Pensou – e mesmo assim desviou-se.
Afastou os ramos.
Nos arbustos estava uma pastor alemão. Grande, adulta – e completamente indefesa. A pata dianteira ensanguentada, sangue seco e fresco ao mesmo tempo. O pêlo embaraçado, as costelas tão salientes que se adivinhavam debaixo da pele. Mas o pior eram os olhos – vivos, mas já quase a desistir. A Graça conhecia aqueles olhos. Sabia o que significavam.
A cadela olhou para ela e não rosnou.
Apenas a fitou.
– E agora, o que é que se faz contigo? – disse a Graça Fernandes. Não era uma pergunta – era mais um suspiro.
Tirou o telemóvel. Chamou um táxi – a primeira vez em meses, a poupar dinheiro. Deu a morada da clínica veterinária na Rua das Flores.
O motorista, ao ver a cadela, fez uma careta.
– Normalmente não transportamos animais. Só se for na bagageira. Ela não vai sujar, pois não?
– Não vai sujar, ajude-me a colocá-la lá dentro – disse a Graça Fernandes com aquela voz que antigamente usava com os enfermeiros mais distraídos.
Para sua surpresa, o motorista não discutiu – quase que ele próprio levantou a cadela para a bagageira.
Na clínica disseram: fractura, ferida lacerada, desnutrição. Operação urgente.
Disseram o preço.
A Graça Fernandes calou-se um segundo. Depois abriu a carteira.
Era quase a reforma toda.
“Quase toda – mas não toda”, disse para si mesma. E pousou o dinheiro no balcão.
A Graça Fernandes chegou a casa já tarde – com a cadela, com o saco de medicamentos e uma receita em duas folhas cheias de letra miudinha.
A cadela, ao entrar, deitou-se logo no corredor. A Graça Fernandes sentou-se ao lado.
A pastor alemão ficou estendida, com a pata enfaixada esticada. Nem olhou para a Graça.
– Tudo bem – disse ela. – Se não queres olhar, não olhes. O que importa é que estás viva.
Aquela noite quase não dormiu. Esteve atenta. Levantou-se duas vezes, foi espreitar, iluminou com o telemóvel.
De manhã, a Mariana ligou.
– Mãe, como estás?
– Bem. Encontrei uma cadela.
Silêncio. Longo.
– Que cadela?
– Uma pastor alemão. Estava toda ferida, deitada nos arbustos. Levei-a ao veterinário.
– Mãe. – A voz da Mariana ficou diferente – daquelas vezes em que se controla a custo. – Mãe, a sério?! Tu mal consegues andar! Com que dinheiro?!
– Com o meu.
– Da reforma?!
– Mariana, não grites, se faz favor.
– Não estou a gritar, estou a falar. Mãe, nós já combinámos. Já tenho o quarto preparado, vais mudar-te para minha casa em breve, e em vez disso tu…
– Mariana. – A Graça Fernandes disse isto calmamente. – Eu ligo-te mais tarde.
E desligou.
Depois. Depois falavam. Agora o importante era outra coisa.
Os primeiros dias foram difíceis. A cadela não comia. A Graça comprou de tudo: paté, frango cozido, arroz com caldo. Punha a tigela, afastava-se, esperava. Quando voltava, estava tudo igual.
Sentava-se no chão ao lado dela – devagar, a gemer, com esforço – e oferecia-lhe a comida na palma da mão. Ficava ali, a segurar, à espera.
Ao terceiro dia, a cadela esticou o pescoço e pegou num pedaço de frango.
Pequeno. Quase imperceptível.
A Graça Fernandes não sorriu. Ficou ali, imóvel, para não a assustar.
Assim. Assim mesmo, está bem.
Chamou-lhe Bela. Não foi logo – primeiro pensou: para quê dar nome, se calhar nem fica. Depois percebeu: fica.
A Bela tinha medo de tudo. De ruídos altos, de movimentos estranhos. Quando a Graça tentou fazer-lhe uma festa na cabeça pela primeira vez, a cadela encolheu-se toda, como se esperasse uma bofetada.
Quem te fez isto.
Ela não lhe fazia festas – apenas punha a mão ao lado. Em cima da manta, junto à pata. A mão ficava ali – só isso. Sem pressão. Para se ir habituando.
Assim passaram os dias.
De manhã e à noite, saíam à rua.
A Bela descia as escadas com cuidado, apoiada em três patas – a quarta ainda poupava. A Graça também descia devagar, a agarrar-se ao corrimão. Duas coxas, pensava ela. Bonita parelha.
Chegavam ao banco debaixo da tília e paravam. A Graça sentava-se. A Bela ficava ao lado, a olhar em volta – desconfiada, tensa, como se esperasse perigo de todo o lado.
Assim passeavam todas as manhãs e todas as noites. Primeiro até ao banco e voltar. Depois até à esquina do prédio. Depois à volta do quarteirão. A Graça Fernandes chegava a casa e sentia as pernas a doer, mas de uma maneira diferente. Não de fraqueza. De cansaço. Há diferença.
Em Novembro, a Mariana apareceu sem avisar.
Tocou à campainha, entrou e parou no hall. Viu a Bela deitada na sua manta, as tigelas encostadas à parede, a trela no cabide. Depois viu a mãe. Ela estava a beber chá na cozinha, com o rosto corado do passeio.
– Mãe, tu… tens bom aspecto – disse a Mariana. Atrapalhada, como se esperasse outra coisa.
– Passeio duas vezes por dia – respondeu a Graça Fernandes. – Senta-te, vou fazer-te um chá.
A Mariana sentou-se. Olhava para a Bela – a cadela estava sossegada, só levantou a cabeça.
– Ela não morde?
– Não.
– E se entrar um estranho?
– Ela não é agressiva, só é cautelosa.
A Mariana ficou calada. Depois voltou ao assunto:
– Mãe. O quarto está pronto. Já está tudo. Tu sabes que eu fico mais descansada se estiveres perto. Sozinha aqui, nunca se sabe.
A Graça Fernandes pousou a chávena.
– A cadela vai convosco?
– Mãe.
– Mariana. Responde-me só.
Pausa. Longa.
– A nossa casa não é tão grande. E o Rui não gosta de animais. Tu sabes.
– Sei – disse a Graça Fernandes.
E nessa noite não voltou a falar no assunto.
A Bela, como se tivesse percebido alguma coisa, levantou-se da manta, foi à cozinha e deitou-se aos pés da dona. Ali mesmo, no chão frio – deitou-se e esticou-se.
A Graça Fernandes baixou a mão e coçou-lhe atrás da orelha.
Tu ouves tudo, não é.
A conversa aconteceu em Dezembro. A Mariana chegou ao sábado com sacos, com comida, com o ar de quem tomou uma decisão e vem anunciá-la.
Arrumou os mantimentos no frigorífico. Lavou a loiça. Depois sentou-se à mesa e cruzou as mãos – como se faz quando se quer falar a sério.
– Mãe. Vamos falar sem ofensas.
A Graça Fernandes estava sentada ao lado. A Bela estava na sala – ouvia-se a respirar fundo.
– Vamos – disse a Graça Fernandes.
– Já tratei de tudo. O quarto está pronto, pendurei os cortinados, comprei-te um colchão novo. É bom, mãe. Ficas perto de mim, eu fico descansada. Não estás sozinha.
– Não estou sozinha.
– Mãe. – A Mariana fechou os olhos. – Um cão não é companhia. É uma responsabilidade de que tu não precisas agora. Estás a gastar a reforma com ele, sais ao frio duas vezes por dia, tu…
– Tenho melhor aspecto do que há um ano.
– Tu ficas cansada.
– Toda a gente fica cansada.
– Mãe, encontrei um bom canil. São pessoas sérias, tratam bem dos cães, têm muito espaço. A Bela vai ficar bem. Melhor do que num T1.
Na sala, a Bela suspirou de novo. Levantou-se, ouviu-se o som das unhas no chão, e veio para a cozinha. Parou à porta, olhou para ambas. Depois foi para ao pé da Graça Fernandes e sentou-se.
A Mariana olhou para a cadela. Depois para a mãe.
– Mãe.
– Estou a ouvir-te – disse a Graça Fernandes em voz baixa. – Estou a ouvir tudo.
Baixou a mão e pousou-a na cabeça da Bela. A cadela nem se mexeu.
– Lembras-te de quando eu trabalhava? – perguntou a Graça Fernandes de repente. – Tu eras pequena, mas talvez te lembres. Saía às seis da manhã. Quando chegava, tu já estavas a dormir. O teu pai dizia: tu não existes em casa, só existes no hospital.
A Mariana ficou calada.
– Eu não me importava. Percebia: ali havia gente. Estavam piores do que eu. Eu fazia falta. – Falava devagar, sem exaltação. – Depois o teu pai morreu. E eu reformei-me. E de repente vi que não fazia falta a ninguém. Tu és adulta, tens a tua vida. É natural. Mas eu… Mariana, eu já não sabia o que fazer de mim.
A Graça Fernandes olhava pela janela. Do lado de fora estava Dezembro – cinzento, o entardecer a chegar cedo, os candeeiros já acesos.
– Quando encontrei a Bela – pensei: pronto, mais um problema. Não tenho forças, não tenho dinheiro, a saúde não é a mesma. Para quê isto. Mas depois, ao terceiro dia, ela tirou-me um pedaço de frango da mão. Um pedacinho tão pequeno. E eu percebi que não dormia aquelas três noites por estar cansada – mas porque aquilo era importante. Porque se eu não vigiasse, mais ninguém o faria.
A Bela chegou-se mais para perto. A Graça Fernandes coçou-lhe atrás da orelha.
– Comecei a sair à rua. Primeiro até ao banco e ficava sem fôlego. Agora dou três voltas ao quarteirão e nem dou por isso. Os comprimidos para a tensão – há duas semanas baixei a dose, o médico disse que podia. Conheci a Cláudia do prédio ao lado, agora às vezes passeamos juntas. Comprei umas botas boas para o Inverno – a primeira vez em três anos, porque antes pensava: para quê botas, se não saio de casa?
Virou-se para a filha.
– E agora saio, Mariana.
A Mariana ficou a olhar para a mãe. Queria dizer qualquer coisa – a Graça via – mas não dizia.
– Percebo o teu medo – disse a Graça Fernandes. – Que eu caia. Que não tenha ninguém para chamar uma ambulância. Que no Inverno o chão escorregue, que esteja sozinha, que aconteça alguma coisa. Conheço esse medo, eu também tive medo do teu pai, nos últimos anos.
– E o que é que isso tem de mal? – disse a Mariana em voz baixa.
– Nada. Só que ainda não estou pronta para ser dependente. – A Graça Fernandes esboçou um sorriso. – Ainda é cedo.
A Mariana baixou os olhos.
Ficaram muito tempo em silêncio.
– Não vais dar a cadela? – disse a Mariana.
– Não.
– E não vens para minha casa?
– Não.
A Mariana assentiu. Devagar, como se alguma coisa lá dentro se estivesse a acomodar – aos poucos, mas a acomodar-se.
– Então quero que tenhas um botão de pânico. Uma pulseira – carregas e eu recebo logo um alerta.
– Está bem.
– E uma vez por semana, venho cá. Não para fiscalizar, só para fazer uma visita.
– Ficarei contente.
– E a esta – a Mariana apontou para a Bela – vou tentar aceitá-la. Não prometo gostar dela. Mas vou tentar.
A Graça Fernandes olhou para a filha.
– Anda cá – disse.
A Mariana levantou-se. Aproximou-se. A Graça Fernandes abraçou-a com força. A Mariana hesitou um segundo, depois abraçou-a também.
A Bela afastou-se discretamente para a sua manta.
Lá fora já era noite fechada. Os candeeiros luziam, a neve tinha salpicado o parapeito da janela.
O Inverno passou sem dar por isso.
A Graça Fernandes nem percebeu quando – apenas num certo momento se deu conta de que Dezembro tinha acabado, depois Janeiro, depois Fevereiro, e ela continuava a sair – de manhã e à noite, com geada ou com chuva, com neve ou com lama.
A Bela ia ao lado. Já sem claudicar – a pata sarara por completo, o veterinário dissera: nem se nota.
No bairro já as conheciam. A Cláudia do prédio ao lado saía sempre à mesma hora – passeavam juntas, conversavam. Dos filhos, da saúde, da política às vezes – com cuidado. O senhor Jerónimo do terceiro andar parava sempre e oferecia bolachas à Bela, ela pegava com delicadeza, com dignidade. Os miúdos do parque, no princípio, tinham medo – era uma pastor alemão – mas depois habituaram-se, começaram a aproximar-se.
A Graça Fernandes deixou a bengala em casa em Fevereiro.
Simplesmente, um dia saiu sem ela e nem se lembrou. Quando voltou, viu-a encostada à porta e pensou: olha.
Em Março, telefonou para a quinta – para saber se já deixavam entrar na horta. Disseram que sim. Inscreveu-se no autocarro.
A Bela foi com ela, no banco de trás, a olhar pela janela.
Na horta estava tudo na mesma – o barracão velho, as folhas do ano passado, as macieiras despidas. A Graça Fernandes percorreu o terreno, tocou na terra – ainda fria, mas já não gelada. Planeou onde havia de plantar os cravos, onde as petúnias, onde os coentros e a salsa – só pelo cheiro.
A Bela corria pelo terreno como se fosse nova.
Em Abril, a Mariana apareceu. Com o Rui. O Rui entrou, viu a Bela, ficou tenso. A Bela aproximou-se, cheirou-lhe a mão e afastou-se – como quem diz: já conferi, não há perigo.
O Rui respirou fundo.
– Bem – disse ele, cauteloso – ao menos é calma.
– É inteligente – corrigiu a Graça Fernandes.
Durante o chá, a Mariana observava a mãe – com atenção, a estudá-la. Depois disse baixinho, enquanto o Rui saíra à varanda:
– Mãe, tu mudaste.
– Para melhor?
– Sim.
A Graça Fernandes pensou.
– É que voltei a viver, simplesmente – disse. – Deve notar-se, acho eu.
A Bela pousou a cabeça no colo dela.







