– Ou leva o cão hoje, ou amarro-o junto à estrada – disse o homem, de casaco caro, empurrando a trela por cima do balcão, irritado.
Inês ergueu os olhos do livro de registos e cerrou os dentes. Na outra ponta da trela estava um cão grande e preto, de olhos inteligentes. Não ladrava, não se debatia, não gania. Apenas olhava para o homem como se já soubesse tudo.
– E o dono? – perguntou Inês, calma.
– Morreu – respondeu o homem, seco. – O meu tio. AVC, hospital, depois acabou. Não quero o cão. Tenho filhos.
– Se não quer, não significa que o possa deitar fora como lixo velho – disse Inês, em voz baixa.
– Não me venha com moralidades! Estou, olhe, a vir do funeral.
Mentia. Inês percebeu logo.
Quem acabara de enterrar um familiar não cheira a colónia cara e tabaco fresco. Os olhos não brilham assim, como os de alguém que já está a contar os metros quadrados alheios.
– Como se chama o cão?
– Trovão.
O cão ergueu as orelhas ligeiramente ao ouvir o nome.
– Tem documentos?
– Documentos quê? É rafeiro. Vivia com o meu tio, guardava o apartamento. Agora acabou, ponto final.
Inês saiu de trás do balcão, agachou-se diante do cão e estendeu a mão. Trovão cheirou-lhe a palma e suspirou fundo. No pescoço, uma coleira de couro velha; na argola, uma chapa metálica gravada: «Trovão. Se perdido, devolver a casa.» Abaixo, a morada.
– O ponto final só chega quando a consciência acaba – disse Inês, erguendo-se. – Deixe o seu número de telefone. Contacto quando encontrarmos um lar temporário.
– Nada de lares temporários. Não tenho tempo. Vou viajar.
– Então leve o cão de volta.
O homem fez um gesto de impaciência.
– Ora, pois sim.
Virou-se bruscamente, ia puxar a trela, mas Trovão fincou as quatro patas no chão e rosnou baixinho. Não para Inês – para ele. O homem empalideceu, resmungou e largou a trela.
– Fiquem com ele – atirou. – De qualquer modo, não dura muito. O dono já não existe.
Passado um minuto, a porta de vidro da clínica bateu.
Trovão ficou.
Inês trabalhava como rececionista e auxiliar numa pequena clínica veterinária privada, no rés-do-chão de um prédio antigo. Durante o turno, passavam dezenas de animais, mas aquele cão cativara-a de imediato.
Talvez por causa daquele olhar. Não de cão, mas muito humano – cansado, paciente, magoado.
Não havia onde deixar Trovão à noite. As jaulas estavam ocupadas com animais em pós-operatório. Inês trouxe-lhe um cobertor para a arrecadação, pôs uma tigela com água e comida. O cão não se aproximou. Deitou-se junto à porta, focinho sobre as patas.
– Estás ofendido? – perguntou Inês.
Trovão ergueu os olhos devagar.
– Ou estás à espera?
Ele pestanejou. E voltou a fixar a porta.
Durante a noite, começou a cair neve molhada.
De manhã, Inês chegou antes de todos e viu a arrecadação vazia.
A porta estava entreaberta. A empregada de limpeza, ao levar o lixo, não dera conta de o cão ter escapado.
– Só me faltava esta… – suspirou Inês.
Varejou o pátio, os pátios vizinhos, os contentores do lixo, a paragem de autocarro. Nenhum sinal de Trovão.
Na mesma hora, no quarto andar do prédio dezoito da Rua das Flores, a bibliotecária Teresa tentava abrir a porta do seu apartamento sem perceber o que a bloqueava.
Espreitou pela fresta e estremeceu.
Junto à porta dela e à do vizinho, no capacho do apartamento de Simão, estava um cão enorme e preto. Encharcado, mas imóvel. Não se mexeu quando Teresa deixou cair as chaves.
– Meu Deus… Trovão? – arriscou.
O cão ergueu a cabeça.
Teresa conhecia-o. O prédio inteiro conhecia.
Simão, um reformado magro, de costas direitas e bengala, passeava com Trovão duas vezes por dia, em qualquer tempo. Cumprimentava toda a gente com a mesma cortesia, e mantinha o cão junto a si, sem esticões ou gritos.
Trovão nunca assustava ninguém nem se aproximava das pessoas. Apenas seguia o dono, como se o servisse por amor.
Há uma semana, uma ambulância levara Simão.
Trovão uivara de tal modo que a Dona Zilda, a porteira, passara o dia a benzer-se. No dia seguinte, aparecera o sobrinho do dono, Rui. Passara o tempo a carregar caixas, a mudar a fechadura e a repetir a toda a gente:
– O meu tio morreu. Agora trato eu dos assuntos da casa.
Ninguém no prédio vira funeral nem velório. Mas, pensava Teresa, cada um sabe de si. Não ligara importância. Já tinha os seus problemas.
Aos quarenta e oito anos, vivia sozinha, trabalhava na biblioteca municipal, o filho partira há muito para o Porto, e desde o divórcio aprendera a não fazer perguntas. Mais fácil.
Mas agora a pergunta estava ali, deitada à sua porta.
– Como é que vieste cá parar? – murmurou.
Trovão levantou-se devagar, aproximou-se da porta do dono e sentou-se de lado. Depois olhou para Teresa. Naquele olhar, uma espera tão teimosa que lhe apertou o peito.
– Está à espera – sussurrou ela.
O elevador parou, e saiu a Dona Zilda, com um saco de compras.
– Ai, Jesus, apareceu! – exclamou, abanando as mãos. – A vizinha do terceiro disse-me ontem que o Rui tinha levado o cão não sei para onde.
– Levou, mas mal – respondeu Teresa, seca.
Trouxe uma tigela de água. Trovão bebeu com sofreguidão, mas não tocou no chouriço. Voltou a sentar-se junto à porta.
Passou um dia, depois outro.
Teresa regressava do trabalho e via sempre o mesmo: o cão preto no capacho, cabeça sobre as patas, olhar fixo. De vez em quando, descia ao pátio, fazia as suas necessidades e regressava ao andar.
À noite, Teresa estendia-lhe um cobertor de lã velho. Ele deixava-se cobrir pacientemente, mas assim que ela se afastava, arrastava o cobertor para junto da porta do dono.
Ao terceiro dia, Rui entrou no prédio. Vinha com uma mulher de casaco de pele claro e um homem com uma pasta.
– É este o apartamento – dizia Rui, animado. – Bairro bom, prédio quentinho. Depois de um retoque, voa num instante.
Teresa saía da sua porta. Abriu-a de repente.
– Que apartamento voa?
Rui sobressaltou-se, mas esboçou um sorriso.
– Ah, vizinha. Estou a pôr a casa em ordem. Coisas da herança.
– Passou uma semana desde a morte do seu tio.
– E então?
– E então já está a mostrar a casa a compradores.
– O que é que isso lhe interessa?
Nesse momento, Trovão ergueu-se. Não se atirou, não ladrou. Apenas se colocou em silêncio entre Rui e a porta.
Não mostrava os dentes, mas havia nele qualquer coisa que fez a mulher do casaco recuar um degrau.
– Tire o cão daqui! – guinchou ela.
– Não é meu cão – encolheu os ombros Rui. – É vadio.
Teresa olhou para ele de tal modo que Rui desviou os olhos primeiro.
Os compradores foram-se embora depressa. Rui resmungou e encaminhou-se para o elevador.
– Não fica aqui muito tempo – rosnou. – Mais uns dias e a carrinha de captura leva-o.
– Não se atreva – disse Teresa, baixinho.
– E o que é que me pode fazer?
Ela não respondeu. Mas, pela primeira vez em anos, sentiu não cansaço, mas raiva. Uma raiva limpa, clara. Daquelas que não fazem chorar, mas agir.
Ao anoitecer, sentou-se junto a Trovão, no chão frio do patamar.
– Se o teu dono morreu, porque é que isto me parece mal? – perguntou.
Trovão virou a cabeça devagar e pousou o focinho pesado nos joelhos dela.
Teresa imobilizou-se. Depois, acariciou-lhe a cabeça entre as orelhas.
– Está bem – suspirou. – Vamos tratar disto.
No dia seguinte, desceu à portaria.
– A senhora vê tudo. Diga-me a verdade: o que é que se passou?
A porteira tirou os óculos, limpou-os ao avental e pensou.
– Lembro-me da ambulância. Lembro-me do Rui. Mas não vi caixão. Nem pessoas. Só passados dois dias é que veio uma carrinha, ele carregou umas caixas e pronto. Achei estranho. O Simão era pessoa conhecida. O prédio inteiro teria ido ao funeral.
– E ele levou algum documento?
– Uma pasta. E repetia ao telefone: «Tenho de despachar-me antes que ele acorde.» Pensei que fosse coisa do funeral.
Teresa sentiu um arrepio na espinha.
– Antes que quem acorde?
A porteira levou a mão à boca e benzeu-se.
– Não… não me diga que ele está vivo?
Nessa mesma noite, aconteceu algo mais estranho.
Trovão começou a cavar com a pata junto à porta do dono. Não arranhava, não ganía – cavava, como a recordar-se de algo. Teresa foi buscar uma espátula à dispensa e levantou com cuidado a ponta do capacho velho. Debaixo, uma chave. E, ao lado, um papel dobrado em quatro, preso ao chão.
No papel, a caligrafia de Simão: «Chave suplente junto à porta. Se me acontecer alguma coisa, ligar ao Vital Pereira.»
Abaixo, um número de telefone.
Teresa olhou para o papel como se tivesse nas mãos não um pedaço de papel, mas um fio vivo.
Vital Pereira atendeu ao fim de alguns toques. A voz era rouca, cansada.
– Sim, estou a ouvir.
– Conhecia o Simão?
– Claro. Quarenta anos a trabalhar juntos na construção. O que é que lhe aconteceu?
– O senhor não sabe se ele… se ele morreu?
Do outro lado, silêncio.
– Quem é que lhe disse essa asneira? – respondeu o homem, devagar. – Está num centro de reabilitação. Depois do AVC. Grave, mas vivo. Fui vê-lo há uma semana.
Teresa teve de se sentar no degrau.
Trovão sentou-se ao lado, sem lhe tirar os olhos.
– Onde está ele? – perguntou apenas.
Duas horas depois, estava à porta do centro de reabilitação regional, com Inês, da clínica veterinária.
Inês, que conhecera ao levar o cão enregelado à clínica mais próxima – e que reconhecera logo o «cão abandonado», oferecendo-se para ajudar.
– Então não me enganei quanto àquele tipo – disse Inês, zangada, enquanto percorriam o corredor. – Ainda bem que o cão fugiu.
A funcionária do centro não queria falar. Mas quando Trovão, a tremer de tensão, se lançou contra a porta de vidro da enfermaria e começou a ganir baixinho, de um modo quase humano, a enfermeira afastou-se.
Na cama junto à janela estava Simão.
Magro, com o braço direito caído, fato de treino cinzento. Parecia mais velho e mais pequeno. Mas os olhos eram os mesmos – claros, atentos. Primeiro, espanto; depois, incredulidade; depois, qualquer coisa que se partiu.
– Trovão… – soprou ele, rouco.
A porta abriu-se.
Trovão não correu logo. Aproximou-se devagar, como se receasse que fosse sonho. Enfiou o focinho nos joelhos do dono. Parou. E de repente começou a tremer todo, como de frio.
Simão pousou a mão saudável na cabeça dele e chorou.
Mais tarde, o médico explicou: o AVC fora grave, mas não mortal. A fala recuperava devagar.
Nos primeiros dias, Simão mal conseguia falar e escrevia mal. O sobrinho Rui viera, prometera «tratar de tudo», levara as chaves e os documentos do apartamento. E depois desaparecera.
– Pensámos que o familiar estava a ajudar – disse a médica, culpada. – O doente preocupava-se muito. Tentava escrever qualquer coisa sobre o cão e a casa. As palavras baralhavam-se.
Quando Simão se acalmou um pouco, deram-lhe uma tábua e um marcador. Escreveu com a mão trémula apenas três palavras: «Rui expulsou Trovão.»
Depois mais: «Vai vender o apartamento.»
Desta vez, não foram as mãos que tremeram a Teresa – foi a voz.
– Não vai vender.
Rui apareceu no centro dois dias depois, assim que percebeu que o segredo estava descoberto. Entrou na enfermaria com a cara de quem perdeu um prémio prometido.
– Tio, porque é que trouxe estranhos para aqui? – começou, em tom alegre. – Estou a fazer tudo por si.
Simão olhou para ele com calma. Ao lado da cama, Trovão estava deitado. Não rosnava. Apenas observava.
– Estás a fazer? – não se conteve Teresa. – Enterrou-o vivo e já mostrou o apartamento a compradores.
– Não é da sua conta!
– Agora é.
– E você quem é, afinal?
Teresa ia responder com dureza, mas Simão ergueu lentamente a mão e apontou para a porta. Um gesto apenas. Muito fraco, mas tão preciso que Rui hesitou um segundo.
– Tio, você não está a perceber…
O velho apontou de novo para a porta. E depois, com dificuldade, como se empurrasse cada som para fora, disse:
– Vai-te… embora.
Rui empalideceu.
Nesse instante, entraram na enfermaria a directora do centro e o agente da PSP que Inês chamara. A encenação tornou-se impossível.
Depois, vieram dias desagradáveis. Verificações de documentos, conversas, explicações, depoimentos dos vizinhos.
Descobriu-se que Rui não tinha qualquer direito sobre o apartamento. Apenas decidira que, depois do AVC, o tio não recuperaria depressa, e apressara-se a arranjar a vida à custa alheia. A documentação para venda não chegara a ser concluída, mas já mudara a fechadura e levara parte dos móveis.
Quando a Dona Zilda soube, apenas bufou:
– É o que dá o sangue familiar. Ainda bem que o cão tem o coração mais limpo que o dos homens.
Simão recuperava devagar.
Teresa visitava-o dia sim, dia não. Às vezes sozinha, às vezes com Inês. Mas quase sempre com Trovão. O cão reanimava-se de modo espantoso ao lado do dono. Durante a viagem, ficava quieto; ao ver a enfermaria conhecida, a cauda batia no chão como se fosse novamente cachorro.
Aos poucos, o próprio Simão reanimava-se.
Primeiro, aprendeu a dizer «Trovão» de novo.
Depois, «casa».
E um dia, enquanto Teresa lhe endireitava o copo de água na mesinha de cabeceira, ele disse baixinho:
– Obrig…ado.
Ela ficou tão perturbada que não respondeu logo.
– Não tem de quê.
– Tem… tem – insistiu ele, teimoso.
Naquelas visitas, Teresa também mudava.
A casa onde antes regressava como a uma caixa vazia começara a esperá-la. Porque ali estava Trovão a bufar junto à porta. Porque à noite Inês telefonava e perguntava: «Então, o nosso teimoso?» Porque na cozinha passara a haver silêncios que valiam a pena e pensamentos que se partilhavam.
Ela habituara-se a viver baixinho. A não pedir, a não esperar, a não se apegar. O marido fora-se embora há dez anos. O filho crescera, partira, ligava raramente, mas amava-a à sua maneira.
Teresa nunca se queixava. Apenas, sem dar por isso, concluíra que as coisas boas da sua vida já tinham acontecido e não se repetiriam.
Enganara-se.
No dia da alta de Simão, o sol de Março brilhava tão claro que Trovão semicerrava os olhos e piscava. O velho saiu do centro de bengala, magro, lento, mas direito. Parou à porta, pousou a mão na cabeça do cão e disse, já quase sem tropeçar:
– Para casa, amigo.
Teresa desviou o olhar. Inês também precisou de repente de ajeitar o capuz.
Entraram no apartamento de Simão a três.
Na verdade, a quatro – com a Dona Zilda, que trazia uma torta e achava que os momentos importantes não se faziam sem ela.
Trovão foi o primeiro a cruzar a soleira. Percorreu os quartos, espreitou a cozinha, enfiou o focinho no lugar antigo junto ao radiador e só depois sossegou. Deitou-se atravessado no corredor e soltou um suspiro ruidoso. Pronto. A casa estava de novo no sítio.
Na mesa da sala, uma fotografia de uma mulher jovem. Teresa nunca a vira.
– Esposa? – perguntou baixinho.
Simão assentiu.
– Há muito… que morreu. Depois a filha… também. Fiquei eu… e ele.
Olhou para Trovão.
– E agora? – perguntou Teresa, sem querer.
O velho sorriu com um canto da boca.
– Agora… não só ele.
A partir dessa noite, tudo se encaixou.
Teresa levava comida e medicamentos. Inês aparecia para medir a tensão e ralhava com Simão por causa dos pickles. A Dona Zilda vigiava o prédio de tal modo que nenhum suspeito passava além dela.
E Trovão reaprendia a estar sossegado. Já não esperava à porta dias inteiros, não estremecia a cada movimento do elevador, não escutava durante a noite.
Parecia ter percebido: já não ia perder mais ninguém.
Mas, uma noite, quando Teresa se preparava para ir embora, ele pôs-se à porta e bloqueou-lhe a passagem.
– Trovão, deixa-me passar – sorriu ela.
O cão não se mexeu.
Simão estava sentado na poltrona, a olhar para aquilo com uma expressão de quem já decidira há muito, mas não sabia como dizer.
– Fica… para o chá – disse ele, por fim. – E… fica. Às vezes. Muitas vezes. Como… quiseres.
Foi dito de modo tão desajeitado e tão honesto que os olhos de Teresa se encheram de lágrimas.
Nunca mais viram Rui no prédio. Diziam que se mudara para outra cidade. Diziam que a mulher também o abandonara. Diziam tanta coisa.
Em Abril, o filho de Teresa veio passar o fim-de-semana. Ficou muito tempo a olhar para a mãe a rir na cozinha, para Simão a resmungar por causa da sopa salgada, para Trovão, velho e solene, a transportar no focinho o chinelo dela.
– Mãe – disse ele, admirado –, isto aqui está a fervilhar de vida.
Teresa apenas sorriu.
Sim, vida. Daquela que se aprecia mais quando já se deixou de a esperar.
E ao anoitecer, Trovão aproximou-se de Simão, depois de Teresa, e deitou-se pesadamente entre os dois, pousando o focinho no chinelo dela e a pata no pé do dono, como se ele próprio fizesse o resumo de tudo o que fora vivido.
Simão acariciou-o e disse baixinho:
– Leal… foi mais inteligente do que todos nós.
Teresa olhou para o focinho grisalho do cão, para os olhos tranquilos, para o homem que o cão literalmente esperara até sair do perigo, e pensou: talvez seja assim a verdadeira lealdade.






